quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Janio de Freitas três vezes (1)

"As vozes

No momento, não se sabe o que a voz silenciosa da opinião pública pede aos seus magistrados mais altos

É INCERTO que os julgadores do mensalão ouçam a opinião pública, como lhes recomenda Fernando Henrique Cardoso. Com tantas pressões dirigidas aos leitores, espectadores e ouvintes, em linha direta e como reflexo das pressões sobre o Supremo Tribunal Federal, no momento não se sabe o que a voz silenciosa da opinião pública pede aos seus magistrados mais altos. Mas tal incerteza está acompanhada de ao menos duas certezas. 

O rendado de palavras que enfeita, em torno, a recomendação de Fernando Henrique evidencia que a opinião pública referida é a opinião do público peessedebista. 

A recomendação é um apelo velado no sentido de que o Supremo Tribunal Federal não negue o seu socorro ao catatônico PSDB, nesta hora difícil dos confrontos eleitorais. Tudo por um punhado de condenações de petistas. 

Outra certeza é o que diz a voz verdadeira da opinião pública. A voz quando não desafinada pelas pressões, a respeito do que deseja dos seus magistrados, ou, como prefere, da Justiça. 

É a imparcialidade nos julgamentos todos. É a equanimidade entre as decisões voltadas para os desprovidos e aquelas que se dirigem aos possuidores de riqueza ou de força política. É o direito à justiça também quanto ao tempo, porque, mesmo se favorável, a decisão que tarda dez, 20, 30 anos nunca fará justiça. 

É o julgamento limpo do mensalão, para condenar sem maldade ou absolver com grandeza"

(Janio de Freitas, Folha de S Paulo, hoje)

Janio de Freitas três vezes (2)

"HISTÓRIA DE CRIMES

O aumento da lista oficial de mortos pela ditadura, de 357 para quase 1.000, traz para a história uma parte dos corpos que ficaram caídos nos canaviais, ou junto das usinas, muitos nas sedes dos sindicatos rurais e das Ligas Camponesas, tantos mais diante dos olhos da mulher e dos filhos. As primeiras semanas seguintes ao golpe de 64, no interior do Nordeste, sobretudo de Pernambuco e Paraíba, justificam esta palavra horrível: carnificina. 

A revelação do novo levantamento, feita pelo repórter Lucas Ferraz na Folha, é um passo promissor para que sejam expostos os crimes de inúmeros usineiros, capatazes e jagunços. Por anos e anos, o usineiro Ney Maranhão veio a manchar o chão do Senado com os vestígios de sangue em suas sandálias, mesmo quando apenas memoriais. E Nilo Coelho, e outros ainda por lá ou por Brasília, todos protegidos pelo silêncio. 

Essa história começou a ser contada, lá atrás, pelo documentarista Eduardo Coutinho, talento e alma admiráveis. A hora da Comissão da Verdade é boa para retomá-la"

(Janio de Freitas, Folha de S Paulo, hoje)

Janio de Freitas três vezes (3)

"UMA PESSOA
 
O advogado Márcio Thomaz Bastos que abandona a causa de Carlos Cachoeira é a mesma pessoa ética que assumiu a causa e a mesma anterior a assumi-la.

O intervalo ético que fica em sua vida não é por ter sido breve advogado de Cachoeira, mas pela falta de ética que o agrediu então. No fundo, um imenso louvor sob a forma de agressão boçal, só produzida pelo respeito admirador enganadamente ferido.

Convém não esquecer também: se vemos, de 2003 para cá, incessantes ações da Polícia Federal contra poderosos e prestigiados envoltos em corrupção, deve-se a Márcio Thomaz Bastos. Quando ministro da Justiça, enfim acabou com a discriminação praticada pela Polícia Federal como norma."

 (Janio de Freitas, Folha de S Paulo, hoje)

terça-feira, 31 de julho de 2012

Como Janio de Freitas vê a imprensa golpista


"Janio de Freitas
O JULGAMENTO NA IMPRENSA

Se há contra os réus indução de animosidade, a resposta prevista só pode ser a expectativa de condenações

O julgamento do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal é desnecessário. Entre a insinuação mal disfarçada e a condenação explícita, a massa de reportagens e comentários lançados agora, sobre o mensalão, contém uma evidência condenatória que equivale à dispensa dos magistrados e das leis a que devem servir os seus saberes.

Os trabalhos jornalísticos com esforço de equilíbrio estão em minoria quase comovente.

Na hipótese mais complacente com a imprensa, aí considerados também o rádio e a TV, o sentido e a massa de reportagens e comentários resulta em pressão forte, com duas direções.

Uma, sobre o Supremo. Sobre a liberdade dos magistrados de exercerem sua concepção de justiça, sem influências, inconscientes mesmo, de fatores externos ao julgamento, qualquer que seja.

Essa é a condição que os regimes autoritários negam aos magistrados e a democracia lhes oferece.

Dicotomia que permite pesar e medir o quanto há de apego à democracia em determinados modos de tratar o julgamento do mensalão, seus réus e até o papel da defesa.

O outro rumo da pressão é, claro, a opinião pública que se forma sob as influências do que lhe ofereçam os meios de comunicação.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

A flecha lançada

 
Imagem Sérgio Lima Folhapress
Uma análise do chamado mensalão deve começar pelo pressuposto de que setores do bloco governista, logo após o processo eleitoral de 2002, usaram um mau hábito da baixa política eleitoral, o famigerado caixa 2, instrumento muito popular entre empresários do mundo inteiro, para burlar informações fiscais. E há muito tempo vem sendo utilizado na seara contábil política. Para produção desse instrumento nada republicano, o grupo do “mensalão” usou tanto empréstimos bancários normais quanto sobras de campanha, algumas de origem legal, outras de fontes suspeitas e muitas resultantes de manobras financeiras supostamente ilegais. O objetivo dos partidos envolvidos era o de quitar pendências da última eleição. O julgamento do Supremo Tribunal Federal em breve apontará o que foi certo e o que foi errado.

Para se avaliar a extensão desse tipo de fraude no Brasil, teria sido conveniente que os atores oposicionistas, amparados pelos holofotes midiáticos, não tivessem limitado suas análises apenas ao campo dos partidos da base aliada. É também lamentável que as críticas se tenham direcionado apenas ao período da campanha de reeleição do presidente Lula. Ambos os fatos caracterizam manipulação em benefícios de interesses da grande imprensa e da oposição, incompatíveis com a continuidade de um governo comprometido com as causas populares. Por isso mesmo seria preciso atingir a figura de Lula e inviabilizar a renovação do mandato petista.  Felizmente, para o presidente, os adversários produziram muita pirotecnia e pouca consistência acusatória. 

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Um porteiro na redação da Veja

Sidnei Liberal
 (*)
O filtro invisível: o que a internet está escondendo de você, livro de Eli Pariser, da Jorge Zahar (2012), mostra, com propriedade, como se dá a manipulação dos interesses do usuário na internet. Facebook, Amazon e Google são os sites que, pelos interesses que cada usuário expõe na web, sejam seus dados pessoais seja o tipo de busca ou postagem que costuma realizar, passam a lhe ofertar produtos relacionados tão somente a essa faixa de interesse. É justamente este o filtro invisível que cerceia o acesso a outras áreas do conhecimento que não estejam circunscrita ao perfil do usuário. Os dados coletados por esse monitoramento compulsório, cada vez mais sofisticado, não explicitado em contrato, são repassados por venda a empresas das mais diferentes áreas, sem conhecimento ou prévia permissão do usuário.

E onde mora o perigo? Primeiro, na enxurrada de propaganda que você passa a receber, cada uma com maior nível de dificuldade para dela se desvencilhar. Depois, pelo dirigismo, o tal filtro de que fala Pariser, que limita o universo da pesquisa do usuário. Ainda mais preocupante quando o produto que se oferece ao usuário tem o viés ideológico, político, econômico, cultural. E até mesmo os de natureza profissional. Neste caso, como a oferta é selecionada por tudo aquilo que o usuário costuma externar na web, dentro do seu perfil ideológico, o infeliz deixa de ter acesso a formas diferentes de ver o mundo. Deixa de encarar outros sonhos e projetos de vida e de relacionamento com a sociedade, ou com o mundo que o cerca. Assim, sua alma é entregue ao diabo, encarnado em Google, Facebook, Apple e Microsoft, donos do negócio de alta lucratividade. 

A teoria do gatekeeping, o “porteiro” das redações, é velha conhecida do jornalismo estadunidense desde a década de 1940. Surgiu a partir de uma metáfora feita pelo psicólogo alemão Kurt Lewin, exilado nos EUA nos tempos do nazismo europeu, acerca da escolha entre o que deve ser ou não considerado como notícia. O que se deve incluir nos jornais ou rádios, principais meios de comunicação da época, de acordo com o valor-notícia, linha editorial, entre outros critérios. Em tempos de mídia eletrônica, a escolha passa daquilo que deve ir para o jornal para aquilo que os outros, em milhões de web receptores no mundo, devem botar na sua cachola. A nova tecnologia veio para redefinir regras do setor sem, no entanto, alterar princípios e finalidades do jornalismo, cuja regra elementar é a do velho porteiro de Lewin.  Dessa forma, ele continua a ditar a função que as notícias funcionam na vida das pessoas. 

A perfeita compreensão desta ferramenta facilita entender como se forjam as mentes em leituras continuadas da Veja, aqui citada como representante mais típico da nossa mídia. A estrutura ideológica progressista que lhe deu credibilidade no passado, aos poucos foi sendo substituída pelo padrão conservador e elitista de hoje. Sempre alinhado aos interesses econômicos das grandes corporações e ao establishment capitalista mundial, a tal “comunidade internacional”. Foi com essa ideologia que o próprio gatekeepping da Veja, seu porteiro de redação, seu filtro invisível, construiu o cardápio que há muito vem oferecendo à degustação do seu leitor médio. Este, de tão acostumado com sua linha editorial, somente lê cada matéria até o ponto em que identifica o mocinho e o bandido que sempre espera da sua revista. Os leitores, digamos, mais aprofundados ainda arriscam uma carta do leitor comentando o que foi lido, sempre acriticamente, na única intenção de ajudar a espinafrar o bandido e a louvar o mocinho. O fato, como suas razões e circunstâncias, é mero detalhe. 

(*) A imagem é de uma charge que tem circulado na internet. 

terça-feira, 12 de junho de 2012

O SANGUE DOS MÁRTIRES


É mais que emblemática a charge de Miguel nas páginas de opinião do Jornal do Commercio, do Recife, neste domingo. O senador Humberto Costa travestido de robô, o sangue a lhe escorrer pela mão estendida para Eduardo Campos, um governador visivelmente constrangido. O sangue, para quem viveu os últimos meses e principalmente a última semana em Recife, não terá nenhuma dúvida: é do novo mártir midiático, o prefeito João da Costa. A charge equivale ao comportamento editorial do próprio jornal no processo que resultou na imposição pelo Diretório Nacional do PT da candidatura do senador a prefeito. Uma ação imediata do diretório que interrompeu uma arrastada desinteligência que vinha corroendo a estrutura partidária recifense. A versão do fato, manipulada cotidianamente pela mídia local, foi apresentada ao grande público como uma interferência indevida da direção nacional. 

Antes da intervenção, a expectativa dos jornais, como da fraca oposição à Frete Popular, era a de que, continuando a sangrar, o Partido dos Trabalhadores, que “reina” absoluto no Recife há quase 12 anos, finalmente seria apeado do poder e a prefeitura finalmente devolvida à velha oligarquia pernambucana. Face à situação de quase indigência da oposição local, a mídia nesta semana volta seu interesse para a possibilidade de esgarçadura da Frente Popular: “joguem suas fichas numa candidatura do PSB”, dizem seus “analistas”. Vem daí a nova palavra de ordem a tentar estimular Eduardo, presidente nacional do PSB: “o PT já esgotou seu prazo, é hora de o governador intervir no processo”, “não está descartada uma candidatura do PSB”. Nossa imprensa a trazer de volta o vezo golpista, udenista, de velhos carnavais.

A interferência editorial dos jornais locais, em especial o Jornal do Commercio, utiliza eficientes instrumentos de convencimento do seu público. Entre eles, a repetição em destaque de palavras de ordem de seguidores do prefeito, e de surradas lideranças da oposição, transformando em vítima, quase herói, o prefeito recusado pelo seu diretório. A linha editorial, as colunas, os “especialistas” a destilar o veneno e a cizânia. Fotografias de Humberto ganham ares de vampiro; as de João da Costa, de herói. Dezenas se seguidores do prefeito, no enquadramento fotográfico fechado, ganham contornos de grande massa manifestante. Domingo, finalmente, a imagem mais fiel do comportamento midiático: a mão ensanguentada do robô, do sangue do mártir, e a cara de nojo do governador. 

A postura golpista da imprensa pernambucana não difere do comportamento dos grandes jornais brasileiros. Folha, Estadão, O Globo, articuladamente, a esfregar as mãos, por verem atendidas suas pressões sobre o STF para apressar o julgamento do chamado mensalão. A pauta do Supremo caindo coincidentemente em hora de se fazer proselitismo político ante um processo eleitoral de amplitude nacional e de fazer sombra a uma CPMI mista que tem tudo para deixar mal na foto o tucanato paulista de alta plumagem. Em São Paulo a mídia também aposta em outra cizânia e também esquenta as mãos para evitar o crescimento da candidatura petista. Marta Suplicy é transformada, da noite para o dia, como João da Costa no Recife, em heroína do neo-udenismo midiático, na vã esperança de que ela rompa politicamente com o ex-presidente Lula e prejudique a candidatura de Jamil Haddad à prefeitura paulistana. Sem que a mídia precise sujar de sangue as mãos do candidato.

O Manifesto