sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Um arranjo virtuoso e raro


O pânico dos mercados induziu à pane na razão.

Dizia o professor Luiz Gonzaga Belluzzo, no dia 19 deste, na Folha de S Paulo, que a pedagogia truculenta da crise financeira ensinou como a paralisia no sistema de crédito causa fortes danos ao mundo “real”. Os bancos não emprestam, as empresas reduzem a produção e o emprego, a atividade econômica afunda e... As certezas dos analistas mais certeiros desmoronam.

Para Belluzzo, além do bloqueio do crédito, a crise planetária também ameaça paralisar os cérebros, até mesmo os bem-dotados. Atônitos, os sábios de ontem embarcam em hipóteses exóticas e peregrinas, como as que culpam os devedores (gente irresponsável) que aceitaram empréstimos oferecidos por bancos “generosos”. Ou os políticos que estimularam os créditos predatórios.

Segundo o professor, a pane cerebral afeta com particular virulência o pensamento imune à experiência histórica. Ele se refere à intolerância dos nossos “analistas” com uma era em que o capitalismo juntou prosperidade, avanço tecnológico, inovação institucional e redução das desigualdades. E... a mais baixa freqüência de crises financeiras e de crédito, desde o século 19.

Trata-se do “modelo” do pós-guerra cujo sucesso os crítico de hoje desconfiam ter nascido de um arranjo virtuoso entre a democracia e o capitalismo. Sucesso que deu 30 anos de progresso material, menos desigualdades nos países centrais e altas taxas de crescimento na América Latina e na Ásia.

“O ‘mal’, como sempre, é o ‘intervencionismo’ do Estado, o poder dos sindicatos, o controle dos mercados financeiros e do movimento de capitais. (...) E fundados receios de que o bote salva-vidas do Estado ‘populista’ seja baixado para resgatar a turma do ‘andar de baixo’”, finaliza Belluzzo.
Estados Unidos, Israel e... Palau contra o mundo.

A Assembléia Geral da ONU aprovou nesta quarta-feira uma resolução que pede o fim do embargo econômico e comercial declarado há quase meio século pelos Estados Unidos contra Cuba. Dos 192 países que integram a ONU, 185 países votaram a favor, apenas Estados Unidos, Israel e... Palau foram contra. Outros dois países (países?) se abstiveram: Ilhas Marshall e Micronésia.

Segundo Notícias UOL, esta é a 17ª vez consecutiva que a ONU aprova uma resolução que critica estas sanções unilaterais dos Estados Unidos e pede sua revogação. A resolução apresentada ao plenário pelo chanceler cubano, Felipe Pérez Roque, recebeu, nesta ocasião, um apoio superior ao do ano passado, quando foi respaldada por 184 países e rejeitada por quatro.

"Vocês estão sozinhos, completamente isolados", disse pouco antes da votação Pérez Roque, dirigindo-se à delegação americana. Em seu discurso, o chanceler cubano disse que "sete em cada dez cubanos passaram a vida sob esta política irracional e inútil". E que "o bloqueio é mais velho que o senhor Barack Obama e que toda minha geração".

Cidadãos brasileiros, por exemplo, não podem adquirir um computador portátil da DELL Brasil por meio de crédito se, ao preencher o cadastro, declarar que em tendo oportunidade gostaria de visitar Cuba. A empresa informou ao jornal O Globo que a restrição segue normas de Washington.

O embargo econômico à Cuba foi instituído pelos Estados Unidos em 1962, três anos após a deposição do ditador Fulgêncio Batista pela Junta Militar Revolucionária cubana. E antes da fracassada invasão da Baía dos Porcos, financiada pelos Estados Unidos.

As 25 notícias mais censuradas

1. Informe anual sobre violações de direitos sindicais. O primeiro informe Anual de Violações dos Direitos Sindicais, publicado no aniversário da Confederação Sindical Internacional (ITUC, sigla em inglês), documenta enormes desafios aos direitos dos trabalhadores ao redor do mundo.

A edição 2007 do informe que cobre 138 países revela um alarmante crescimento no número de pessoas assassinadas como resultado de suas atividades sindicais: de 115 em 2005 a 144 em 2006. Seqüestros ou “desaparecimentos”, prisões por participações em greve ou protesto, dispensas do emprego por se sindicalizar.

Também cresceu o número de lideranças sindicais vítimas da brutalidade da polícia e assassinadas por serem vistas como opositores aos governos. Neste aspecto, a Colômbia segue sendo o país com maior mortalidade de sindicalistas do mundo: 78 pessoas em 2006, 8 a mais que no ano anterior.

2. Crueldade e morte em prisões juvenis dos EUA. Após ampla investigação nos Estados Unidos, os advogados de menores de idade condenaram asperamente as condições de detenção dos jovens delinqüentes em que ocorrem desde abusos sexuais e físicos até a morte de menores em seus alojamentos.

Uma investigação feita pela agência de notícias Associated Press nos centros de correção juvenis dos EUA confirmou mais de 13.000 demandas de abusos físicos e sexuais por parte dos servidores, entre 2004 e 2007. Pelo menos cinco jovens morreram por “técnicas agressivas de alojamento”.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Uma receita de Prêmio Nobel



É hora de gastar o dinheiro público

“Está politicamente na moda se queixar contra os gastos do governo e exigir responsabilidade fiscal. Mas, no momento maiores gastos do governo é exatamente o que o médico recomenda, e as preocupações com o déficit orçamentário devem esperar”. Quem afirma é o mais novo Prêmio Nobel de Economia, Paul Krugman, colunista de The New York Times.

Segundo Krugman, “enquanto o mercado de ações maníaco-depressivo domina as manchetes, a história mais importante é a grave notícia sobre a economia real”. Para ele, o resgate aos bancos é apenas o começo: a economia não financeira também está precisando desesperadamente de ajuda.

O cenário do Nobel é o despencar das vendas no varejo e da produção industrial nos EUA, onde o nível de desemprego já aponta para uma recessão que será feia, brutal e longa. Seu temor é que se esteja a buscar soluções apenas superficiais como as que substituíram a recessão produzida pelo estouro da bolha da tecnologia do final dos anos 90 pela fatídica bolha imobiliária destes tempos.

A tese de Krugman parece incomodar nossos habituais economistas tupiniquins, apressados em identificar os sinais da crise que ainda não chegou. Que já chegou para aquelas empresas que, aconselhados por banqueiros/especuladores internacionais, embarcaram na loteria do dólar futuro.

E por que a tese incomoda? Porque ela é a antítese da surrada e patética catilinária dos editoriais dos nossos principais jornais. Nossos “especialistas” condenam os “gastos do governo”, que é como vêem os investimentos públicos. Gastar dinheiro público tem sido a vitamina da nossa economia interna, um dos fundamentos contra os efeitos da crise. Uma receita de Prêmio Nobel.


As 25 notícias mais censuradas

Vi o mundo, blog do jornalista Luiz Carlos Azenha, publicou o ranking anual das 25 notícias mais ocultadas pela grande imprensa dos EUA e do mundo em 2007/2008. São informações do Projeto Censurado da Universidade Sonoma State da Califórnia, reunidas no livro Censored 2009.

O livro reúne valiosos trabalhos acadêmicos sobre o jornalismo atual, como a concentração da propriedade dos meios de comunicação, a manipulação da informação e a liberdade de expressão nos EUA e no mundo. E informa sobre a luta pela democratização dos meios informativos.

O genocídio no Iraque, com 1,2 milhões de civis mortos pelas tropas dos EUA, desde que começou a invasão há cinco anos, é o tema que encabeça o ranking do projeto. A América Latina está presente em vários trabalhos que apontam para o ressurgimento das guerras sujas dos EUA que ameaçam as democracias da região. São esforços para resgatar a forte influência do passado.

Também consta do livro o funcionamento da Academia Internacional de Aplicação do Direito (ILEA), cuja sede no Peru ensina a torturar, a matar e demais matérias da mal-afamada Escola das Américas. E o ressurgimento da IV Frota que objetiva atemorizar os paises latino-americanos não alinhados ao expansionismo de Washington.

O documento também revela as inquietudes frente ao avanço das idéias progressistas na América Latina a partir da iminente vitória da esquerda em El Salvador. Mostra como a nova legislação migratória impõe o regime de semi-escravidão ao trabalhador hóspede. E divulga levantamentos que classifica o governo da Colômbia como líder mundial de assassinatos de sindicalistas.

Pressões da sociedade têm influências sobre a tragédia de Santo André

Convidado pelo Jornal Hoje, da Rede Globo, nesta segunda-feira, para debater questões levantadas pela trágica história de Eloá e Lindemberg, o psiquiatra e psicanalista Raul Gorayeb, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, contrariou visivelmente as expectativas da emissora. Um balde de água fria no clima de euforia com que a notícia vinha sendo tratada.

Perguntado se os diálogos gravados pela polícia revelam algum desvio de personalidade do jovem, o médico preferiu questionar o modo pelo qual a sociedade atual forma os jovens. Ela exige que eles aprendam a TER a qualquer custo, não importa o preço que se pague. Ele é instigado a não aceitar falhas, perdas, insucessos, e reagir às vezes de forma bombástica quando as coisas não vão bem.

“Onde ficou, no nosso processo educacional, o lugar para que as pessoas aceitem que a vida também é feita de insucessos e problemas? Eu não o coloco como vítima, mas todos nós somos frutos de uma sociedade, na medida em que somos por ela educados”, completa Gorayeb.

À pergunta do Jornal Hoje se 12 anos não é muito cedo para começar um namoro o psiquiatra diz não haver fórmulas. E que somos nós, a sociedade, que empurramos os jovens para uma maturidade precoce, para a atividade sexual, como se, sem isso, a pessoa não pudesse entrar no circulo das pessoas importantes. Para ele, a relação com alguém mais velho pode indicar dificuldade pessoal.

Sobre o papel dos pais no processo, Gorayeb relembra uma tragédia histórica e artística, a história de Romeu e Julieta, para afirmar que a influência dos pais pode ser boa, mas também pode ser catastrófica. Para a Rede Globo é melhor transformar a catástrofe em espetáculo fantástico.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

A linha do Equador

Túnel liga o Equador à estação de Pinheiros

Sobram razões ao governo do Equador para lastimar a reação do governo brasileiro na questão entre aquele país e a Odebrecht. O governo Lula, cada vez mais obsequioso com as pressões da mídia nacional, assume a defesa dos interesses de uma empresa que, ultimamente agindo em bando, tem sido protagonista de algumas lambanças e tragédias, no Brasil e no exterior.

Em resposta à expulsão da construtora Odebrecht do país andino, o governo brasileiro decidiu adiar compromissos diplomáticos com Quito. Ao nosso governo e à nossa mídia pouco interessa clarear as irregularidades cometidas pela empresa brasileira, aliada à mundialmente mal-afamada francesa Alstom, na construção de uma usina hidrelétrica que teve de ser fechada após um ano de uso.

As providenciais e firmes atitudes do governo do Equador, que inclui o combate a uma farta e usual distribuição de propinas pelas empresas envolvidas, conflitam com a passividade com que a mídia nacional e o governo de São Paulo vêm tratando as lambanças e tragédias dessas mesmas empresas.

A obra da linha 4-Amarela, tocada pelo bando de empresas que inclui as mesmas Odebrecht e a mundialmente mal-afamada francesa Alstom, desde maio de 2007 já danificou e/ou afundou mais de 300 casas no bairro de Butantã. Em janeiro de 2007, uma obra do mesmo bando na futura estação Pinheiros, também na zona oeste, cedeu. Matou sete pessoas e engoliu alguns veículos.

O consórcio de empresas atribuiu a tragédia a "surpresas" geológicas. O Instituto de Pesquisas Tecnológicas, por outro lado, deu como causa o descumprimento de parte do projeto pelas empreiteiras. Como no Equador, exceto pela complacência de Estado e Mídia.

Para deixar as coisas como estão

Presidente da mais alta corte do país, chefe de um dos três poderes da República, o ministro Gilmar Mendes confessa ser sócio de empresa que mantém contratos sem licitação com diversos órgãos do governo federal. Sua empresa foi aquinhoada com cerca de 2,4 milhões desde o ano de 2000. Mais: o ministro comprou por vias transversas terrenos de 2 milhões de reais por um quinto do valor.

A divulgação dessas práticas nada republicanas do ministro foi por feita pela revista Carta Capital e entendida por ele como uma “pistolagem jornalística”, que “não condiz com o Estado de Direito e de liberdade”. Interessante notar como a mídia prontamente repercutiu esta avaliação de Gilmar, embora não tenha demonstrado o menor interesse em repercutir as revelações da Carta Capital.

À mídia interessa divulgar Gilmar apenas quando se trata de alardear uma não comprovada gravação telefônica do ministro, cujo interesse é reforçar sua estranha tese sobre uma pretensa crise de governabilidade no país. Uma paranóia extemporânea e suspeita.

Sobre a prática empresarial de Gilmar, vale lembrar que em idênticas circunstâncias, salvo pelo cumprimento dos preceitos licitatórios legais, o filho do presidente Lula quase foi crucificado pela mídia nacional. Reação incomparável com a do silencioso socorro feito com dinheiro público ao banco Nacional, dos Magalhães Pinto, unidos por laços familiares a um dos filhos de FHC.

A suspeita cumplicidade entre mídia, Gilmar e cardeais oposicionistas tenta forjar um clima de “estado policialesco”. No real, uma provável cortina de fumaça a tentar encobrir fatos adversos ao corporativismo de poder, como diz o jornalista Mino Carta, “para deixar as coisas como estão”.

O novo livro de Leandro Fortes

Um livro ousado onde o jornalista baiano, carioca e, desde 1990, brasiliense, Leandro Fortes, não diz como a profissão de jornalista deveria ser. Isso já é dito nos principais textos adotados nas escolas de jornalismo. Leandro mostra a profissão como ela é. E não esconde as regras obscuras dentro das redações nem os chefes sem escrúpulos, subservientes e sem caráter.

O jornalista, formado pela Universidade Federal da Bahia e pela vida de foca nas ruas de Salvador, revela neste “Os segredos das redações: o que os jornalistas só descobrem no dia-a-dia” como o jornalismo, uma profissão apaixonante e corajosa, cheia de boas conseqüências para a sociedade, consegue congregar tantas “alminhas pequenas abertas ao suborno e ao achaque”.

Os bastidores de uma das profissões mais romantizadas do planeta, o jornalismo, seus segredos e mitos, são revelados neste livro. É uma leitura essencial para os estudantes de jornalismo, para jornalistas recém-formados e profissionais das redações.

Professor de jornalismo no Instituto de Educação Superior de Brasília, Iesb, Leandro é autor de Jornalismo investigativo e co-autor de O Brasil no contexto. Em linguagem simples e objetiva, seu novo trabalho, editado pela Editora Contexto, contém 110 páginas de segredos da vida nos jornais.

Em Brasília, Leandro atuou no Correio Braziliense, e nas sucursais de O Estado de S Paulo, Zero Hora, Jornal do Brasil, O Globo, revista Época e TV Globo. Também foi chefe da Agência Brasil e da Radiobrás. É um dos fundadores e dirigentes da Escola Livre de Jornalismo, em Brasília. Também é repórter da sucursal brasiliense de revista Carta Capital.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Rua do Bom Jesus, da Cruz, dos Mercadores


Os agiotas da rua do Bom Jesus

Até poucas décadas atrás, a rua do Bom Jesus, de frenético movimento dos comerciantes do atacado pernambucano, era mais conhecida como a rua da Putas. É que, no cenário noturno, o frenesi da rua era protagonizado por uma outra fauna bem definida: de um lado, maloqueiros, golpistas, jogadores, ladrões e agiotas e, do outro lado, estudantes de mesada parca e comerciários sonhadores. Os primeiros, em busca de negócios escusos, de dinheiro fácil. Todos, a procura de um aconchego carnal. Centenas de prostitutas faziam ponto nos andares de cima dos sobrados históricos, de arquitetura eclética e aparência festiva.

A rua já tivera outras denominações: da Cruz, dos Mercadores. Mas, ficaram firmadas no consciente coletivo da cidade suas denominações mais populares: rua da Putas e rua dos Judeus. Ali, a maioria dos comerciantes era de judeus, cuja presença histórica está fincada em um dos edifícios da rua, construído sobre os alicerces da primeira sinagoga erigida no Novo Mundo. Os pernambucanos aprenderam a questionar se houve benefício na expulsão dos holandeses. Como conseqüência, os judeus, expulsos daquela rua e do Brasil, fundaram Nova Amsterdã. A nova povoação foi depois capturada pelos ingleses e rebatizada com o nome de Nova Iorque.

A ligação quase umbilical das ilhas de Manhattan e do Recife antigo, permite ao inconsciente do antigo adolescente pernambucano uma incontornável analogia entre a rua do Bom Jesus e a rua que se tornou o centro mundial do capitalismo moderno: Wall Street. A rua dos negócios dos papéis, das mercadorias, da especulação, da cobiça sem limite e sem regras. Atividades eticamente comparáveis às dos maloqueiros da rua das Putas, da agiotagem e do jogo de fazer dinheiro fácil.


The brazilian bad-boys of Wall Street

Diariamente, ouve-se no Bom-dia, Brasil! muita coisa sobre a crise gerada pelos especuladores de Wall Street e sobre seus desdobramentos no mundo e no Brasil. Mas, deve-se precaver com a leitura das entrelinhas e a interpretação daquilo que mais se assemelha uma torcida contra o Brasil, como parece mostrar os textos matutinos da Rede Globo de Televisão.

Tudo sob o aval da esperta Míriam Leitão ou de um ou outro “especialista” na área, quase sempre os mesmos. Colonizados e submissos, não fazem nenhuma avaliação crítica marcante sobre o banditismo financeiro que gerou a atual crise.

Preferem fazer coro com manjados executivos das finanças, os especuladores locais, a alardear sobre a chegada da crise ao Brasil e sobre as medidas que o governo deveria tomar. Consideram sempre “insuficientes” ou “atrasadas”. Mesmo conscientes de que o pânico na bolsa de São Paulo decorre da debandada do capital especulativo, que saiu a tapar buracos financeiros em suas origens.

Mesmo sabendo que o Brasil está preparado com reservas para enfrentar os dias difíceis que se anunciam. Diferentemente de outras épocas, recentes, em que a economia do Brasil sofria interferência do FMI e era movida pelo aumento da dívida com credores internacionais.

Hoje, além de uma confortável reserva em dólares, o Brasil tem, como avalia a economista Maria da Conceição Tavares, “algumas vantagens para enfrentar a crise, entre elas a existência de três fortes bancos estatais e algumas empresas públicas de peso, salvas das privatizações desfechadas pelo governo FHC. Isso dá ao governo instrumentos para intervir no mercado”.


Como funciona o “livre” mercado

Debra Anderson administra uma agência imobiliária em sua cidade natal de McCloud, um pequeno vilarejo turístico situado nos contrafortes do majestoso monte Shasta, no norte da Califórnia. Hoje, Debra dedica seu tempo e sua energia para lutar contra o grupo Nestlé.

Em 2003, Debra ficou sabendo de uma reunião de informação do conselho do distrito sobre um projeto de construção, pela Nestlé, de um complexo industrial que captará a água do rio McCloud na sua fonte. O recurso será engarrafado e comercializado pela multinacional.

"Os funcionários da Nestlé nos apresentaram um projeto enorme, eu pensava que aquela era uma simples reunião preliminar". Não era: no dia seguinte, a cidade se depara com a informação de que, logo depois do encerramento da reunião, o conselho assinou sem mais nem menos o contrato proposto pela Nestlé. Chocada diante desta precipitação, Debra obteve uma cópia do documento.

"A Nestlé havia conseguido obter condições inacreditáveis: não seria realizado nenhum estudo prévio de impacto ambiental; tratava-se de um contrato exclusivo de cem anos, pelo qual a companhia teria o direito de bombear até 4.700 litros de água por minuto - inclusive em detrimento dos habitantes durante os períodos de seca -; o preço de compra da área de captação era irrisório”.

O acordo dava à Nestlé o direito de demolir por completo a antiga usina da cidade onde existe um projeto de transformação destas construções numa zona de atividades alternativas. . . "Em troca, a Nestlé se comprometia a criar 240 empregos, e a pagar diversas taxas e impostos”. A multinacional acabaria ainda se beneficiando de reduções de encargos fiscais. Leia mais em Le Monde.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Normalidade constitucional em risco?

Riscos à normalidade constitucional?

Segundo o jornalista Mino Carta, uma pretensa ameaça de crise institucional surgiu, deflagrada pela discussão da Lei da Anistia seguida da operação Satiagraha. A tese foi logo desfraldada pela oposição parlamentar e pela mídia, com a conspícua contribuição do presidente do STF, ministro Gilmar Mendes, e do ministro da Defesa, Nelson Jobim.

A oposição parece fadada a tentar tirar leite de pedras, por não ter mais com que bater no governo. A fragilidade das armas com que bate em Lula somente faz com que ele cresça, cada vez mais. Daí, idéia de impeachment agradar tanto a tucanos e Demos.

A mídia brasileira a cada dia perde o rumo. Escasseia sua credibilidade pelo excesso de comportamento irresponsável no campo do jornalismo “denuncista”. Foi-se pelo ralo sua função histórica de formadora de opinião ou de representante da opinião pública.

O caso do ministro da Defesa, Nelson Jobim é mais uma questão de caráter. Ele foi flagrado em mentira sobre os falsos grampos da Abim, para favorecer a “crise da grampolândia”. Para Wálter Maierovitch, em Carta Capital, o ministro Jobim tem pautado suas ações pelo oportunismo político, sem compromisso social nem ético.

O caráter também não é o forte do comportamento nada republicano do ministro Gilmar Mendes, que vem tentando turbinar a tese da crise institucional. Vale lembrar o que previu Dalmo Dallari sobre a ida de Gilmar para o STF: “(correm) sério risco a proteção dos direitos no Brasil, o combate à corrupção e a normalidade constitucional”.


Interesses do agro-negócio no coração da floresta.

“Um dos cenários ficcionais divulgados, para ocultar ou disfarçar os interesses dominantes, consiste em afirmar ameaçada a soberania brasileira, em particular na fronteira com a Venezuela”. Quem diz é o jurista Walter Ceneviva, na Folha de S Paulo de 13/9. O foco é a discussão no STF sobre a terra indígena Raposa Serra do Sol, para ele “marcada por forte viés econômico”.

Ceneviva demonstra como nenhuma das diversas formas de soberania previstas na Carta Magna, como na competência para manter relações com Estados estrangeiros e com organizações internacionais, estaria ameaçada pela situação criada pelas demarcações das terras dos indígenas.

Do outro lado, a Carta Magna garante aos índios a preservação de sua organização social nas terras tradicionalmente ocupadas por eles em caráter permanente: "utilizadas para suas atividades produtivas, imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários a suas reprodução física e cultural, segundo seus usos, costumes e tradições", diz a Constituição.

Surpreende, por inoportuna, beirando a paranóia, a posição do deputado Aldo Rebelo em rotular as diferentes manifestações das índias Joênia e Elielva como de escancarada natureza fratricida. Transforma-se em mais “uma fantasia maliciosa para fingir que existe um problema”, como expôs no mês passado, na Folha, o jurista Dalmo Dallari. Um lamentável equívoco do deputado.

O apelo fácil desse discurso falsamente nacionalista e a veemente condenação à política indigenista, como dizia Cavalcanti-Schiel em Le Monde Diplomatique, reforça uma teia de interesses econômicos, sobretudo fundiários, na região. Faz coro com os grileiros que desmatam a região.


A diplomacia abutre

José Miguel Vivanco, diretor da Human Rights Watch (HRW), foi expulso da Venezuela após a divulgação, dia 18/9, de um relatório que acusa o governo de debilitar as instituições democráticas e as garantias aos direitos humanos nos 10 anos de gestão de Hugo Chávez. O documento da HRW foi divulgado uma semana após a expulsão do embaixador dos Estados Unidos na Venezuela.

O ministro das Relações Exteriores da Venezuela, Nicolas Maduro, disse que Vivanco violou a Constituição venezuelana ao "interferir ilegalmente nos assuntos internos" do seu país. Co-autor do relatório, o estadunidense Daniel Wilkinson também foi expulso.

A notícia da expulsão tomou conta da mídia internacional como um rastilho de pólvora. A mídia brasileira que já desaprovara a expulsão do embaixador dos EUA na Bolívia (“um grande negociador”, para a Globo) por articulações com os separatistas oposicionistas, agora tecia grandes elogios à HRW “a mais respeitada ONG de direitos humanos dos Estados Unidos”.

Nenhum jornal ou TV disse, porém, que o principal dos expulsos, o chileno José Miguel Vivanco, diretor da HRW, que tem sede em Nova Iorque, foi representante da ditadura Pinochet ante a Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Ao renascer a democracia em seu país, mudou-se para Washington e passou a atuar em organizações que atendem à política do governo dos EUA.

As atividades de Vivanco e da HRW estão sempre relacionadas com episódios que violentam a democracia e os interesses nacionais dos povos latino-americanos. A ONG foi criada em 1978, tempos de relações promíscuas de Washington com as ditaduras latino-americanas.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

O Americano Tranqüilo

Sabe por que não tem golpe de estado nos EUA?

“Porque lá não tem embaixada dos Estados Unidos”, perguntava e logo respondia o espirituoso Joel da Silveira. Sobre o assunto, é recomendável rever o filme de Philip Noyce “O Americano Tranqüilo”, belíssima adaptação do romance de Grahan Green. Melhor ainda: ler o livro.

Num resumo chulo da belíssima história de amor, diríamos que o sedutor estadunidense, diante de “nossa” eterna cumplicidade e submissão, apodera-se do coração da “nossa” linda amante. E ainda planta a semente do golpe que transferirá da França para os EUA o comando da força de ocupação no Vietnã. Mas, somente depois da vitória dos heróis Ho Chi Minh e Vo Giap sobre os franceses.

O presidente Lula esteve recentemente com Giap, na cidade de Ho Chi Minh (ex-Saigon), a maior do Vietnã. A visita ao herói nonagenário, que colocou primeiro a França e depois os Estados Unidos com o rabo entre as pernas, talvez tenha despertado em nosso presidente a lembrança de que não é de hoje que as embaixadas estadunidenses patrocinam essas visitas de “americanos tranqüilos”.

A referência é feita ao senhor embaixador Philip Goldberg, flagrado em articulações separatistas junto às lideranças fascistas de departamentos autonomistas na Bolívia. Elas vêm espalhando o terror e o ódio contra o estado de direito democrático do estado boliviano. Entre os atos de terrorismo, o assassinato racista de “índios sujos”, saque a prédios públicos e sabotagens de gasodutos.

O senhor Goldberg, sabe-se, é hoje o protótipo do americano tranqüilo de Grahan Green. Como embaixador dos EUA na Ex-Iugoslávia, orquestrou a crise separatista que resultou na independência unilateral do Kosovo, ainda não reconhecida por muitos.

Embaraços de um presidente

Pelo telefone, o candidato à presidência dos EUA, Barack Obama, disse ao presidente colombiano Álvaro Uribe que, se for eleito, não vai apoiar a ratificação do Tratado de Livre Comércio (TLC) entre Colômbia e EUA. “Até que Bogotá consiga reduzir a violência contra sindicalistas”.

A informação do Correio Braziliense deste sábado, 19/09, contraria a ansiedade de Uribe que há dois anos sofre com a paralisação do acordo assinado entre ele e o presidente Bush. "Temos esperança de que a qualquer momento o Congresso dos EUA aprove o acordo", disse Uribe.

Os sindicatos de trabalhadores estadunidenses pressionam e o Congresso dos EUA recusa ratificar o pacto comercial, segundo a agência Reuters, porque que “a Colômbia deve fazer mais para reduzir os assassinatos e outros tipos de violência contra sindicalistas”.

Em abril deste ano, segundo Eltiempo.Com, Obama já considerava “um atropelo” a pretensão de Uribe: “Ridicularizaria as mesmas proteções laborais que temos insistido se incluam nesse tipo de acordos”. Dados do próprio governo colombiano revelam que 265 sindicalistas foram mortos em um ano. Em 2007 foram mortos 26 líderes sindicais. Quase dois mil vivem sob proteção legal.

Na semana passada, na Bélgica, o Tribunal Internacional de Opinião condenou o governo da Colômbia por violação aos direitos humanos, por expulsar milhares de camponeses de suas terras, e por prática de genocídio, seqüestro e assassinato de lideranças populares. De outro lado, a Alta Corte Ocidental (Western High Court), com sede em Copenhague, recusou provas procedentes do judiciário colombiano. Por entender que foram obtidas mediante violência e tortura.

Informações para uma agenda brasileira positiva

Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgada ontem (22/9) indica que 13,8 milhões de brasileiros subiram de faixa social entre 2001 e 2007. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad). Para Ricardo Amorim, do Ipea, "o que mais chamou a atenção foi a movimentação de pessoas do nível mais baixo para estratos mais elevados... superou o crescimento da economia... mobilidade social que não se via desde os anos 80". Leia mais

Na edição da semana passada, a revista britânica The Economist destacou o crescimento da classe média no Brasil, que hoje ultrapassa metade da população. "O Brasil, antes notório por seus extremos, é agora um país de classe média", diz a reportagem, que cita dados da Fundação Getulio Vargas. "Esta escalada social é vista, principalmente, nos centros urbanos do país, revertendo duas décadas de estagnação econômica iniciada nos anos 80." Leia mais

A descoberta de petróleo na camada pré-sal pela Petrobras reforçou a necessidade de o Brasil melhorar a defesa de sua costa. O ministério da Defesa negocia com a França a construção de um submarino nuclear, e na semana passada as Forças Armadas iniciaram a chamada Operação Atlântico para mostrar a capacidade que o país tem de proteger a região onde estão os mega-campos do pré-sal. A Quarta Frota naval dos Estados Unidos começa a bisbilhotar. Leia mais

A Petrobras foi parcialmente vendida nos anos 90, no governo FHC, em meio a uma onda de privatizações na América Latina, que vivia uma crise econômica. Para o presidente Lula, foi um erro se desfazer do patrimônio público em momentos em que o Brasil tinha problemas de balanço de pagamentos: "Em uma crise, não se deve vender nada porque vai vender mais barato”. Leia mais

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Calcinhas brasileiras em Nova Iorque

Calcinhas brasileiras no The New York Times

Para escapar de sua existência precária em uma das regiões mais pobres do Brasil, Maria Benedita Sousa fez uso de um pequeno empréstimo há cinco anos para comprar máquinas de costura e iniciar seu próprio negócio. Hoje, ela emprega 25 pessoas em uma fábrica modesta, que produz 55 mil conjuntos de roupas íntimas por mês. A reportagem é do The New York Times. Leia mais

Brasil encerra safra 2007/2008 de grãos com volume recorde. São 143,8 milhões de toneladas, número 9% superior ao da safra anterior e o maior já registrado. O volume final recorde da safra vem em um momento em que os preços internacionais atingiram picos recentes. Leia mais

Exército tira transposição do Rio São Francisco do papel. A igrejinha branca e azul em Cabrobó (PE), onde o bispo Luiz Flávio Cappio, em 2005, fez a primeira greve de fome contra a transposição do Rio São Francisco, está fechada. Na região, não há mais manifestações contrárias à obra, e os tratores de esteira e as escavadeiras do Exército rasgam o sertão em ritmo acelerado. Leia mais

Pobreza diminui, número de ricos aumenta e classe média cresce, afirmam estudos do Ipea e da FGVD. Dois estudos divulgados no mês passado mostram mudanças nas classes sociais brasileiras. Redução de um terço no número de pobres. A classe média atinge mais de 50%. Leia mais

Emprego na indústria tem melhor semestre da história. A geração de emprego na indústria brasileira cresceu 2,7% no primeiro semestre de 2008 – a maior expansão da série histórica do IBGE. Nos confrontos mais amplos, os resultados de junho foram claramente positivos, com 6,7% de avanço frente ao mesmo mês de 2007 e 6,5% no acumulado do ano. Leia mais

Reviravolta conveniente

O jornalista Mair Pena Neto, no blog Direto da Redação, relembra uma operação da Polícia Federal (PF) deflagrada em julho que levou à prisão três figuras notórias, que já haviam freqüentado o noticiário policial: o banqueiro Daniel Dantas, o mega-investidor Naji Nahas e o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta. “Será que alguém se lembra?” pergunta Pena Neto.

Pra ele, de lá para cá, o eixo da discussão mudou. Ninguém mais fala dos crimes de lavagem de dinheiro, gestão fraudulenta, evasão de divisas, formação de quadrilha e tráfico de influência de que os três foram acusados. Libertados pela celeridade surpreendente (temerária?) do Supremo Tribunal Federal (STF) de Gilmar Mendes, todos continuam suas atividades, fora do noticiário.

Segundo Pena Neto, o interesse de grande parte da mídia e da oposição, que curiosamente costumam andar juntas, está agora no “grampo” de que teria sido vítima o próprio presidente do STF. O réu passou a ser a Agência Brasileira de Inteligência, e por conseqüência o governo.

Seja como for, a mudança do foco político e midiático, trouxe a voz equilibrada do diretor da PF, Luiz Fernando Corrêa, a lembrar que "grampos" são autorizados pela Justiça. Eles somente denunciam a “nata da malandragem”, como diria Chico Buarque. Por isso, a chiadeira geral.

Vã lucidez de Corrêa. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) acaba de anular provas de gravações autorizadas e livrar dois foragidos empresários, envolvidos no caso Banestado dos tempos tucanos. E ninguém mais se lembra dos emissários de Daniel Dantas tentando subornar um delegado da PF com um milhão de dólares. Nem a mídia, nem a bancada parlamentar de Dantas, nem o STF.

Presidentes rechaçam golpe

Desde 2002, estamos diante de um novo tipo de comportamento da comunidade de nações latino-americanas. Naquele ano, a pronta resposta dos seus representantes, reunidos em assembléia da Organização dos Estados Americanos (OEA), rechaçou o golpe midiático e militar que, com apoio de Washington, retirou Hugo Chávez do poder por 48 horas.
Nesta segunda-feira, os presidentes das nações que constituem a União de Nações Sul-Americanas (Unasul), reunidos na capital chilena, deram uma forte e unânime declaração de apoio ao governo do presidente Evo Morales e rechaçaram qualquer tentativa de golpe da oposição na Bolívia.

Na declaração, a Unasul "adverte que seus respectivos governos rechaçam energicamente e não reconhecerão qualquer situação que implique uma tentativa de golpe civil, de ruptura da ordem institucional ou que comprometa a integridade territorial da República da Bolívia".

A Unasul também condenou os ataques a instalações do governo na Bolívia e um massacre no departamento de Pando, em que morreram partidários do governo. E criou uma comissão, aberta a todos os seus membros, para acompanhar as conversações a serem conduzidas pelo legítimo governo da Bolívia com seus opositores.

A característica do novo perfil de comportamento dos países da Nossa América é sua autonomia em relação a Washington. A participação dos EUA traria um enorme contra-senso ao debate em face de sua mal disfarçada participação nos preparativos desses eventos não democráticos. O Império tenta recuperar, por vias oblíquas, a hegemonia que sucumbiu a um novo perfil de soberania.

O Manifesto