terça-feira, 2 de setembro de 2008

Fantasmas

DOPS não escapará do juiz espanhol Garzón

No Correio do Brasil desta terça-feira, Rui Martins informa que o senador Romeu Tuma, do DEMO, está encrencado com o juiz espanhol Baltasar Garzón. O juiz é o intrépido caçador de crimes de lesa-humanidade que acabou com a velhice tranqüila do general Augusto Pinochet.

Segundo Martins, Garzón substitui as almas dos mortos, assassinados depois de torturados, a fazer assombração junto aos que vivem tranqüilos na hipocrisia de bons pais e avós de famílias. Mesmo com tantos crimes nas costas, nem todos os assassinos terminam atrás das grades. Já velhos ou doentes podem mesmo se beneficiar de uma tolerância que suas vítimas não tiveram.

Ele lembra o caso de Filinto Müller, chefe de polícia da ditadura Vargas e autor da entrega de Olga Benário aos carrascos de Hitler. Müller escapou de qualquer castigo humano e acabou líder de sustentação política, no Senado, de outra ditadura, a de 64. Morreu carbonizado em acidente da Varig, em Paris. Um “inferno ardente” é onde Garzón costuma jogar seus condenados.

Agora, a Espanha está no encalço do gentil senador Romeu Tuma. O motivo? O ressurgimento, 35 anos depois, dos ossos e do fantasma de uma das tantas vítimas da repressão brasileira, o espanhol Miguel Sabat Nuet, assassinado no DOPS, em outubro de 1973. Naquela época, o então delegado Tuma dava formato “legal” às ações policiais que torturavam e “suicidavam” presos políticos.

Matéria da Folha de S Paulo, de outubro de 2000, revelou que o corpo do espanhol foi mais um de tantos indigentes e vítimas da ditadura lançados em vala no cemitério de Perus. Para Rui Martins, Garzón não deixará o fato ficar mais tempo encoberto e, mais ou menos dias, tudo virá a público.

Muito além dos grampos

Em sua coluna semanal, na Folha de S Paulo, nesta segunda-feira, Fernando de Barros e Silva, imitando Nelson Rodrigues, acerta bem na mosca ao desconfiar muito dos veementes. Ele se refere aos que estufam o peito para alardear que o Estado de Direito está sob ameaça, o que tem ocorrido sempre que alguém da turma da cobertura vai preso.

“Quantos condenados existem hoje no país que já cumpriram sentença, mas seguem em cana? Alguns milhares. E quantos mofam no xilindró à espera de julgamento, em prisão temporária ou preventiva? Estima-se que 30% da população carcerária, algo como 150 mil pessoas. Quem se escandaliza?” Pergunta Barros e Silva.

Com ironia rodriguiana, o colunista esclarece que nem todos têm a mesma OPORTUNITY perante o STF. E que “foi preciso que os arbítrios da polícia chegassem ao topo do edifício social para que os arautos da legalidade começassem a se movimentar, veementes, indignados”.

Ele dá razão ao ministro Joaquim Barbosa quando diz que certa elite monopoliza a agenda do Supremo. E considera grave, gravíssimo, o grampo contra Gilmar Mendes. Mas, acha estranho, muito estranho, o fato de, pela primeira vez, a revelação do conteúdo de uma escuta telefônica ilegal ser conveniente para os dois grampeados.

Para o colunista, muito se falará ainda desse caso porque há muitas coisas nebulosas e interesses em jogo. A Abin terá de se explicar. É provável que rolem cabeças. Ele espera, no entanto, que não se permita aos veementes invocar uma hipotética ameaça institucional só para preservar privilégios.

Um fantasma ronda o Ocidente

O sistema internacional de poder passa por importante transformação geoestratégica provocada por um ator que muitos consideravam coadjuvante. Para o professor Flávio Saraiva, da Universidade de Brasília, há uma releitura obrigatória a ser feita nas relações da Rússia, tanto com os países que se alinhavam à antiga URSS quanto com os Estados Unidos e com os países da Europa Ocidental.

Não há mais a bipolaridade da antiga Guerra Fria. O que temos hoje é um mundo multipolar onde não somente EUA, a Federação Russa e a comunidade Européia participam. Há a China, a Índia, a América Latina. Uma nova geografia, complexa, com evidentes candidatos à ocupação dos espaços em fronteiras mal resolvidas, em países insatisfeitos com sua inserção geopolítica.

Errou que apostou que a Rússia não reagiria contra a movimentação de tropas da Geórgia, treinadas pelos EUA, nas franjas do seu território. Erra quem pensa que os Russos estão passivos ante o cerco que sofre pela instalação de bases na Europa. Ou ante a expansão das influências do Ocidente para a Polônia, Bulgária, Hungria, República Checa, România. Foram-se os ébrios tempos de Yeltsin.

Para El País, deste domingo, a nova postura da Rússia busca redefinir as regras de sua relação com o Ocidente. Como sinal de força, o reconhecimento da independência da Ossétia do Sul e da Abkházia e a suspensão do tratado de armas convencionais na Europa.

Na bagagem estratégica da Rússia, um invejável arsenal bélico, uma dinâmica situação econômica e o controle energético do crescimento de grande parte da Europa. Como espelho de ação, as licenças no Direito Internacional que Washington se concedeu. Nos Bálcãs, no Iraque, no Paquistão.

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