quarta-feira, 12 de agosto de 2009

D e s l e a l d a d e

"Cachorro mordido por cobra tem medo até de linguiça". A frase de Marco Aurélio Garcia, assessor da Presidência para Assuntos Internacionais, embora pareça chula, dá a dimensão exata do que se pode esperar de sete bases militares ianques encravadas em nosso continente. A justificativa alegada pela Colômbia e pelos EUA, o combate ao narcotráfico, esbarra nas estreitas relações do governo da Colômbia com produtores e traficantes de drogas.

É bom lembrar que o Obama candidato, atendendo aos apelos de centrais sindicais dos EUA, barrou a entrada da Colômbia na Alca. Motivo: os assassinatos sistemáticos de lideranças sindicais e populares pelo governo de Álvaro Uribe. E mais: a aliança do governo colombiano com forças paramilitares e narcotraficantes cuja representação parlamentar de mais de 60 congressistas foi processada e/ou trancafiada pela Suprema Corte colombiana.

O cenário que desponta nesses acordos militares reproduz a estrutura consagrada no outro lado do mundo, onde o Império se associa militar e politicamente a Israel, um estado belicoso por excelência, para fazer frente ao “terrorismo” palestino. Aqui, o Império é o mesmo, e o sócio, por sua natureza nazi-fascista, não é diferente. Se não há as famosas armas de destruição em massa, servem os lança-foguetes suecos em mãos das Farc.

É, portanto, feliz e responsável a posição brasileira de não aceitar a versão dos Estados Unidos, por seu assessor de Segurança Nacional, general Jim Jones, sobre as bases militares que o país quer usar na Colômbia. Trata-se, é bom estarmos alerta, do país de perfil histórico mais agressivo e arbitrário que se conhece e de maior insubmissão às decisões de organizações multilaterais como a Organização das Nações Unidas. Pergunte-se ao Iraque.

Onde os Estados Unidos põem as botas, vidas, culturas, tradições são destroçadas em nome do ultrapassado “american way of life”, ou da falsa superioridade da cultura ocidental cristã. Por isso, o povo colombiano e da nossa América não pode deixar de temer que as bases de Malambo, Palanquero, Apiay, Tolemaida, Larandia, Cartagena e Bahía Málaga sejam transformadas em
uma grande Guantánamo espalhada pelas terras da Colômbia.

O consenso condenatório dos governos sul-americanos a essa suspeita parceria tem base em dossiê divulgado em abril, em seminário militar. No documento, a Força Aérea dos EUA defende o uso de uma base no centro da Colômbia como plataforma de longo alcance. O fato preocupa por contradizer a versão “franciscana” dos dois paises envolvidos de que não há objetivos estratégicos para aumentar a
presença intimidativa no continente.

Razão tem o ex-presidente cubano Fidel Castro ao qualificar de “deslealdade” o acordo de Uribe. Para Fidel, é “um insulto à inteligência” do povo latino-americano os argumentos esgrimidos por Colômbia e EUA, pois “o verdadeiro objetivo é o controle dos recursos econômicos, o domínio dos mercados e a luta contra as mudanças sociais”. Senão, para que tanto navio da IV Frota e tanto avião moderno de combate, como pergunta o velho líder.

domingo, 2 de agosto de 2009

Um bode na sala

Outros trinta e nove senadores maculam, igualmente ao Sarney, suas biografias. Alguns são alvos de inquéritos autorizados pelo Supremo Tribunal Federal, réus em ações penais e/ou envolvimento com nepotismo e atos secretos nos últimos anos. Este é o levantamento feito pelo jornal O Estado de S. Paulo que, seletivamente, reduziu sua pesquisa a apenas 30 membros do Conselho de Ética do Senado.

Explicando: cerca de quarenta senadores foram amplamente citados (depois, convenientemente esquecidos) por toda a mídia nacional no início da crise do Senado, hoje crise do Sarney. Todos envolvidos com os atos secretos que enlameiam o Senado. Todos igualmente condenáveis por terem praticados atos de igual gravidade. Se menos praticaram, é por que tiveram menos poder e oportunidade da prática malsã.

O senador Cristovam Buarque tem ato secreto nomeando a esposa para cargo público; Artur Virgilio confessou haver bancado, com patrocínio (“meu, seu, nosso”, como costuma dizer a mídia) do Senado, um comensal do seu gabinete por quase dois anos na Espanha; Virgilio também usou indevidamente dez mil dólares para tratamento de pessoa da sua família em Paris; Demóstenes Torres, Heráclito Fortes e Eliseu Resende têm seus nomes em boletins sigilosos ou casos de nepotismo.

Efraim Morais deveria responder por 52 servidores do Senado que batem ponto na belíssima e prazerosa cidade de João Pessoa e por ordenar pagamentos de horas extras a servidores do seu gabinete em pleno gozo de recesso parlamentar. Tasso Jereissati acha normal fretar jatinhos pelas burras do Senado. Outro tucano, Flexa Ribeiro, apoderou-se de uma rua (!!!) na prazerosa e belíssima Belém para um projeto imobiliário privado.

Quase todos têm usado indevidamente verbas indenizatórias, como o senador Agripino Maia as usou para pagamento de condomínio em morada de alto luxo em praia do Nordeste. É o mesmo que pagar com cartões corporativos despesas com tapioca ministerial ou com um pênis de borracha para dona Ruth Cardoso usar no seu projeto social. (fato que fez nossa mídia encerrar o assunto da crise que criou para os cartões corporativos).

É diferente nomear a esposa ou afilhado de nomear o namorado da neta? É menos ético o ato antiético praticado em menor quantidade? Pensando bem: Lula não teria razão para titular essa turma de pizzaiolos? Pois bem: Com a caça ao Sarney, prepara-se uma pizza gigante no Senado, com ajuda da grande imprensa. Assim, serão preservados de investigação os senadores que costumam afagar a mídia. Tira-se o bode da sala, salva-se a República.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Retrocesso

O golpe de Honduras e a mídia brasileira

“O presidente violentamente sequestrado durante a madrugada por militares encapuzados, seguindo ao pé da letra o que indica o Manual de Operações da CIA e a Escola das América para os esquadrões da morte; uma carta de renúncia apócrifa que foi divulgada a fim de enganar e desmobilizar a população — e que foi de imediato retransmitida para todo o mundo pela rede CNN, sem confirmar previamente a veracidade da notícia;

a reação do povo que, consciente da manobra, sai às ruas para deter os tanques e os veículos do Exército com as mãos limpas e exigir o retorno de Zelaya à presidência; o corte da energia elétrica para impedir o funcionamento da rádio e da televisão e semear a confusão e o desânimo.” Foi assim que
Atilio A. Boron, Diretor do Programa Latino-americano de Educação a Distancia em Ciências Sociais, de Buenos Aires, descreveu o golpe hondurenho.

“O que aconteceu em Honduras põe em evidência a resistência que provoca nas estruturas tradicionais de poder qualquer tentativa de aprofundar a vida democrática”, disse mais Boron, lembrando que é o mesmo modelo do golpe de 2002 contra Chávez, na Venezuela, e da abortada tentativa contra Evo Morales, no ano passado. Devemos acrescentar que há desejos latentes muito semelhantes aqui no Brasil, na Argentina, no Equador...

A reação dessas estruturas tradicionais, de que fala Boron, pode ser conferida hoje (30/6) na fala de Miriam Leitão, na Rede Globo, e em editorial da Folha de S Paulo. Ao tempo em que condenam o golpe, eles também procuram justificá-lo pela tentativa do presidente Zelaya de modificar a constituição hondurenha, pela via da consulta popular. “Os dois lados erraram”, diz Miriam, “ao estilo Chávez”, completa a Folha. Fica, pois, justificado o golpe.

Não se vê a nossa mídia preocupada em informar os conteúdos de modernização dos instrumentos democráticos que encerram essas propostas de revisão constitucional. Nem o caráter amplo de representatividade dessas consultas. As informações pinçam apenas um dos itens da proposta, a possibilidade de reeleição do presidente, para condenar o texto que desconhecem. Os leitores, ouvintes, expectadores merecem mais respeito.

“É a fórmula consagrada pelo venezuelano Hugo Chávez”, diz a Folha. Pode ser. Mas, ela ganhou força nos anos do primeiro mandato de FHC, sem recorrer à via democrática de uma consulta popular. Muito pior: contando com a mais desbragada compra de votos de parlamentares já havida no Congresso Nacional, a inviabilizar qualquer reação oposicionista e a facilitar a mobilização das estruturas tradicionais, sob total silêncio da mídia.

O governo gasta muito e gasta mal?

"A indústria financeira dos países desenvolvidos recebeu em um ano quase dez vezes mais recursos do que todos os países pobres em quase meio século, segundo análise feita por especialistas da Campanha da ONU sobre as Metas do Milênio". É o que o experiente jornalista Clóvis Rossi, da Folha de S Paulo (26/6), diz ter lido no O Globo desta semana, na certa um texto perdido entre muitos que cobriam os suspeitos tumultos do Irã.

Em números, US$ 2 trilhões em 49 anos para os pobres e US$ 18 trilhões nos últimos 12 meses para os bancos. Para estes, garante-se a volta triunfante dos bônus milionários sem controle. Para aqueles, o aumento da fome crônica. E, segundo Rossi, a FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) garante alimentar todos os famintos do mundo com apenas 1% do dinheiro dado aos “brancos de olhos azuis”.

A incompetência da humanidade em conter o avanço das desigualdades elevou o número dos cronicamente famintos pela primeira vez acima de 1 bilhão ( mais de 5 Brasis). São números de abril deste ano do jornal britânico
Financial Times que, equivocadamente, atribui o fato à persistência da crise dos alimentos do ano passado agravada com o desequilíbrio da economia mundial. E não à falta de investimento social.

“A situação atual lembra mais o aumento lento e impiedoso de uma maré, gradualmente arrastando mais e mais pessoas para as fileiras dos desnutridos”, diz o Financial Times de 7 de abril de 2009. Como se esse avanço gradual e incontido da fome fosse um fenômeno recente, atual. Como se o lucro – a base de sustentação do sistema capitalista – fosse fruto do cultivo da terra e não da eterna e exploração do homem pelo homem.

Na contramão da conveniente justificativa do Financial Times para o aumento da fome crônica no mundo estão significativos estudos do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) sobre a pobreza no Brasil, como divulgou a agência
Reuters (19/5). Pelos dados, 316 mil brasileiros foram alçados da linha da pobreza nos últimos 6 meses. São números pequenos, porém significativos por se tratar dos meses mais fortes da atual crise.

Os 316 mil vêm engrossar os mais de 30 milhões de brasileiros que saíram do andar de baixo nos últimos anos. Resultado que em nada atrapalha os bons resultados nas contas públicas – índices melhores que os exigidos pela União Europeia de seus membros, conforme dados do Correio Braziliense deste domingo (28/6). E reflete investimentos em políticas sociais que a mídia e políticos de oposição insistem serem “mau gasto do governo”.
O BOLETIM H S LIBERAL ESTARÁ DE FÉRIAS DURANTE O MÊS DE JULHO

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Laboratório iraniano da CIA


Operação Ajax

A notícia de uma suposta fraude eleitoral espalhou-se em Teerã como um rastilho de pólvora e levou às ruas os partidários do aiatolá Rafsanjani contra os do aiatolá Khamenei. Este caos foi ardilosamente tramado pela CIA (1) e resulta da inundação de mensagens SMS (2) contraditórias entre os iranianos. O analista político Thierry Meyssan relata de Paris essa nova experiência de guerra psicológica no Iran.

Não é a primeira vez, lembra Meyssan, que a CIA transforma o Iran em campo de experimentação de métodos inovadores de subversão. Agora tem uma nova arma: o domínio dos telefones móveis. Em março de 2000 a Secretária de Estado Madeleine Albright admitiu que em 1953 a mudança de regime no Iran teve o patrocínio do governo Eisenhower. Fato também reconhecido por Obama semanas atrás no Cairo.

O fato referido por Albright e por Obama foi a Operação Ajax, tramada pela CIA com apoio britânico, que resultou na destituição do governo do nacionalista do primeiro-ministro Mohammad Mossadegh que, com a ajuda do aiatolá Abou Kachani, havia nacionalizado os recursos petrolíferos do Iran. Na operação, a CIA forja um cenário que simula um levante popular quando se trata de uma operação bem planejada e secreta.

Desta vez, não foi diferente. Após a reeleição de Mahmoud Ahmadinejad, por previsível maioria, vastas manifestações opõem nas ruas de Teerã os partidários de Ahmadinejad e do aiatolá Khamenei, de um lado, aos partidários do candidato perdedor Hossein Mousavi e do ex-presidente aiatolá Rafsanjani, do outro. O fato traduz uma profunda divisão entre ampla maioria proletária nacionalista e uma pequena e média burguesia pró-ocidental.

Não é sem razão o apoio ostensivo dos EUA, França, Reino Unido e da grande imprensa ocidental, a “comunidade internacional”, à nova Operação Ájax que tenta pesar nos acontecimentos para remover o presidente reeleito e tentar acabar com a revolução islâmica. Uma interferência nos assuntos internos de um país soberano como não se viu nem de longe quando do massacre de milhares de palestinos indefesos na Faixa de Gaza pelo exército de Israel.

Pela rede de imprensa não alinhada VoltaireNet.org o leitor poderá ler inteiro teor do artigo de Thierry Meyssan sob o título “De Mossadegh a Ahmadinejad, a CIA e o laboratório iraniano”. O analista internacional demonstra a eficácia do SMS, moderno e prático instrumental de comunicação; como ele vem sendo utilizado na ocupação do Iraque, Afeganistão e Paquistão. E como a CIA acaba de aplicá-lo no processo iraniano.

(1) Central Intelligence Agency (CIA), em português Agência Central de Inteligência, é um serviço de inteligência (serviço de informações) dos Estados Unidos da América.

(2) Serviço de Mensagens Curtas ou Short Message Service (SMS) é um serviço disponível em telefones celulares digitais que permite o envio de mensagens curtas entre estes equipamentos e outros dispositivos de mão ou mesmo telefones fixos.


A coisa Berlusconi (*)

“Não vejo que outro nome lhe poderia dar. Uma coisa perigosamente parecida a um ser humano, uma coisa que dá festas, organiza orgias e manda em um país chamado Itália. Essa coisa, essa enfermidade, esse vírus ameaça ser a causa da morte moral do país de Verdi se um vômito profundo não consegue arrancá-lo da consciência dos italianos antes que o veneno acabe corroendo as veias e destroçando o coração de uma das mais ricas culturas europeias”.

“Os valores básicos da convivência humana são pisoteados todos os dias pelas patas viscosas da coisa Berlusconi que, entre seus múltiplos talentos, tem uma habilidade funambulesca (excêntrica, extravagante) para abusar das palavras, pervertendo-lhes a intenção e o sentido, como no caso do “Pólo da Liberdade”, que assim se chama o partido com que assaltou o poder”.

“Chamei delinquente a esta coisa e não me arrependo. Por razões de natureza semântica e social que outros poderão explicar melhor que eu, o termo delinquente tem na Itália uma carga negativa muito mais forte que em qualquer outro idioma falado na Europa. Foi para traduzir de forma clara e contundente o que penso da coisa Berlusconi que utilizei o termo na acepção (sentido) que a língua de Dante lhe vem dando habitualmente, embora seja mais do que duvidoso que Dante o tenha utilizado alguma vez”.

“Delinquência, no meu português, significa, de acordo com os dicionários e a prática corrente da comunicação, ‘ato de cometer delitos, desobedecer a leis ou a padrões morais’. A definição assenta na coisa Berlusconi sem uma prega, sem uma ruga, a ponto de se parecer mais a uma segunda pele que à roupa que se põe em cima”.

“Há anos a coisa Berlusconi vem cometendo delitos de variável mas sempre demonstrada gravidade. Para cúmulo, não só tem desobedecido a leis como, pior ainda, as tem mandado fabricar para salvaguarda dos seus interesses públicos e privados, de político, empresário e acompanhante de menores, e quanto aos padrões morais, nem vale a pena falar, não há quem não saiba em Itália e no mundo que a coisa Berlusconi há muito tempo que caiu na mais completa abjeção (baixeza, aviltamento, degradação)”.

“Este é o primeiro-ministro italiano, esta é a coisa que o povo italiano por duas vezes elegeu para que lhe servisse de modelo, este é o caminho da ruína para onde estão a ser arrastados os valores de liberdade e dignidade que impregnaram a música de Verdi e a ação política de Garibaldi, que fizeram da Itália do século XIX, durante a luta pela unificação, um guia espiritual da Europa e dos europeus. É isso que a coisa Berlusconi quer lançar para a cesta de lixo da História. Permitirão os italianos?”

(*) Texto do escritor português JOSÉ SARAMAGO, Nobel de Literatura, divulgado no jornal espanhol El País do último dia 6 de junho.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Perdas e danos



Estragos na Petrobrás

“Estragos produzidos na Petrobrás, pelo governo FHC, visando desnacionalizá-la”. Foi como o presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobras (AEPET), Fernando Siqueira, descreveu as ações contra o Sistema Petrobrás nos anos do príncipe das privatizações. O artigo foi publicado no site da AEPET em abril/2009 quando os tucanos, por falta de discurso político, criaram uma CPI contra a Petrobrás. Em resumo:

As ações deletérias começaram quando FHC, ainda ministro, fez um corte de 52% no orçamento da Petrobrás previsto para o ano de 1994, sem nenhuma justificativa técnica. Prosseguiram com manipulações para menor da estrutura de preços: desvio de 3 bilhões de dólares anuais para o cartel internacional. Em 1995, a proibição de informações de estatais ante o Congresso Nacional facilitou as manipulações da imprensa privatista. (...)

Também em 1995, FHC deflagrou o contrato e a construção do Gasoduto Bolívia-Brasil, o pior contrato que a Petrobrás assinou em sua história. Atendeu aos interesses das estrangeiras Enron e Repsol, donas do gás da Bolívia. Para isso, suspendeu a construção de 15 hidrelétricas e provocou o “apagão” do setor no Brasil. Um contrato totalmente prejudicial aos interesses dos governos do Brasil e da Bolívia. (...)

Em 1995, o governo tentou desmoralizar o movimento sindical após 30 dias de greve, reprimida com tropas do Exército. Tentativa de calar a oposição às privatizações. No mesmo ano, cinco alterações profundas na Constituição incluíam o fim do monopólio da Estatal. Custo para o Congresso Nacional: barganha política, liberação de emendas, chantagens e compra de votos. Em 1996, outras manobras ampliam as ações privatistas. (...)

Em 1997, FHC criou a Agência Nacional do Petróleo e nomeou o genro, David Zylberstajn, que havia se notabilizado no governo de São Paulo pela desnacionalização de empresas de energia por preços irrisórios. Na sua posse, bradou no auditório repleto de estrangeiros: “O petróleo agora é vosso”. E passou a ser, como provam os generosos leilões de blocos de exploração cedidos à exploração do cartel internacional. (...)


1998, a Petrobrás é impedida pelo governo FHC de obter empréstimos baratos (6% ao ano) no exterior para tocar seus projetos, e de emitir debêntures que visavam à obtenção de recursos para os seus investimentos. No mesmo ano, FHC cria o REPETRO que libera as empresas estrangeiras do pagamento de impostos pelos seus produtos importados. Mas sem, contudo, dar a contrapartida às empresas nacionais. (...)

Isto, somado à abertura do mercado nacional iniciada por Fernando Collor, liquidou as 5.000 empresas fornecedoras de equipamentos para a Petrobrás, gerando desemprego e perda de tecnologias brutais para o País. A abertura do capital da Petrobrás à bolsa de Nova York resultou na desnacionalização de 30% das ações da empresa, vendidas por preços irrisórios (cerca de 10% do valor, como na venda/doação da Vale do Rio Doce). (...)

Um blog revolucionário

O movimento da mídia e de políticos da oposição em favor da CPI da Petrobrás não é somente uma manobra política oportunista, eleitoreira (por falta de um programa eleitoral para enfrentar o crescimento da aprovação ao governo). Também não é tão só uma jogada política de grupos de interesses que usa um senado por demais desmoralizado para tentar reaver antigos privilégios da grande empresa nacional.

É tudo isso, também, e muito mais. A CPI da Petrobrás é uma manobra urdida nos mesmos porões escusos da era FHC. O objetivo é tentar fragilizar a Estatal para desviar o foco das atuais discussões em torno de um novo marco legal que favorece o retorno do monopólio estatal sobre os combustíveis. Por que? A Petrobrás é, hoje, a quarta maior empresa do setor no mundo. É a primeira de maior credibilidade internacional.

Mais ainda: a Petrobrás é a única empresa do setor, em plena crise mundial, a manter seu cronograma de investimentos. Uma CPI, no entanto, pode ser prejudicial aos interesses da empresa e do próprio país, principalmente porque o sistema Petrobrás envolve amplos e diversos interesses corporativos. E, pelas manifestações prévias, teremos um festival de pirotecnia, bem ao gosto da mídia e políticos da oposição.

Para tentar barrar o comportamento habitualmente irresponsável da manipulação midiática e oposicionista no processo da CPI, a Petrobrás resolveu inovar: passará a dispor ao público todas as informações passadas à imprensa. Dessa forma, o leitor poderá conhecer as respostas da Petrobrás que a mídia e os políticos desprezam ou distorcem porque não atendem aos interesses de suas argumentações e pirotecnias.

Diante do revolucionário blog da Petrobrás, FATOS E DADOS (*) (inaugurado neste sábado, 6/06, e já obtendo quase 100 mil acessos), iram-se os principais jornais do país. Por que? Porque passam a perder o monopólio da informação e, consequentemente, o poder sobre os leitores. Porque permite aos leitores identificar o processo de manipulação com que usualmente se abusa das suas confianças e consciências críticas.

“A empresa tem o direito de se acautelar, através das informações que difunde no blog, contra as distorções em que os meios de comunicação têm incorrido, como a própria ABI registrou em matéria publicada da edição de 31 de maio de um dos jornais que agora se insurgem contra o blog da empresa”. É o que diz em carta a Associação Brasileira de Imprensa, que vê na reação dos jornais “inegável cunho político”.

(*) Leia aqui o blog Fatos e Dados: http://petrobrasfatosedados.wordpress.com/

sábado, 30 de maio de 2009

Ligações perigosas

Álvaro Uribe, presidente da Colômbia


À semelhança da Gestapo

" – Boa tarde, me chamo Rodrigo Rosenberg Manzano; se você está vendo ou ouvindo esta mensagem é porque fui assassinado. Foi mesmo, mas esse respeitado advogado deixou registrado no vídeo o nome dos assassinos: o presidente da República, Álvaro Colón, sua mulher e um de seus ministros, tudo, segundo Rosenberg, para encobrir irregularidades em um banco público e ligações com o crime organizado”.

Assim relatou o jornalista Clóvis Rossi na Folha de S Paulo nesta sexta-feira, 29/5, não sem antes se incomodar pelo fato de a mídia brasileira tratar pouco da atual crise guatemalense. Não sem lhe parecer “evidente que o crime organizado estendeu seus tentáculos à política e ao aparelho de Estado, como já o havia feito na Colômbia e, agora, no México”. Assuntos completamente alheios aos brasileiros, por conta da mídia.

Colonizada, a nossa imprensa se “tranquiliza”, pelo fato de Colón afirmar que “o vídeo era parte de uma conspiração para desestabilizar seu governo”. Claro, claríssimo! Na Colômbia só pode ser parte da estratégia midiática das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, FARC. No México, onde operações do Exército e da Polícia Federal prenderam quase trinta prefeitos, “excesso de zelo” dos que combatem o narcotráfico.

Errado. Esses fatos, principalmente no que se refere à mídia, não deveriam surpreender a quem, como Rossi, sabe das entrelinhas do poder da nossa imprensa e da imprensa internacional. Veja-se o caso dos testes nucleares da Coréia do Norte: um corre-corre da “comunidade internacional” que nem de longe foi visto quando – mesmo proibidos por acordos multilaterais – a França, o Paquistão e a Índia pipocaram seus artefatos letais.

Nem pelo fato de estar tão perto de nós, a Colômbia incomoda os donos da notícia. Ali, Jorge Noguera, ex-diretor do DAS (principal agência de inteligência colombiana), homem de confiança do presidente Uribe Vélez, será julgado pela Corte Suprema de Justiça pelos assassinatos de sindicalistas, políticos da oposição e militantes de direitos humanos, que denunciaram o pacto entre o para-militarismo e a cúpula do poder.

As informações são da Agência de Notícias Nova Colômbia – ANNCOL – que, ao mesmo tempo, denunciou a participação do procurador geral, Alejandro Ordóñez, e da grande imprensa nacional, no processo de manobras de ordens jurídica e midiática para ocultar o terrorismo de estado. Fato que preocupa tanto à oposição interna quanto instituições internacionais, como a Organização Internacional do Trabalho, OIT.

À semelhança da Gestapo, polícia política hitlerista, o DAS uribista prepara listas de opositores a serem eliminados com base em espionagem ilegal que atinge quase todos os setores sociais da Colômbia. O terror do governo Uribe pouco a pouco preocupa e horroriza instituições humanitárias do mundo inteiro, por isso o interesse da ONU como de múltiplas associações de advogados em acompanhar de perto o processo colombiano.

Somente o leitor suficientemente forte deve abrir o link abaixo. Uma das cenas do que hoje acontece na Colômbia.

http://anncol-brasil.blogspot.com/2009/05/gestapo-colombiana.html

Tão perto de nós, tão longe da nossa imprensa.

“Um dos mais poderosos chefes do narcotráfico na Colômbia afirmou ter financiado a campanha eleitoral do presidente colombiano, Álvaro Uribe, alegando que era a única maneira de livrar o país da "ameaça comunista". Diego Murillo, conhecido como "Don Berna", foi condenado na quarta-feira por uma corte dos Estados Unidos a 31 anos de prisão e ao pagamento de US$ 4 milhões em multas pelo crime de narcotráfico”.

É o que reportou a BBC Brasil em 23/04/2009. E mais: “Após ser condenado, ‘Don Berna’ disse que fez campanha a favor de Uribe e que vendia drogas ‘para ajudar a seu povo’. ‘O acusado apoiou a eleição do presidente Uribe em 2002, doou grandes quantidades de dinheiro à sua campanha, fez campanha a seu favor (...) porque acreditava que a paz era importante’, disse Margaret Shalley, advogada de Murillo’”.

No começo deste mês de maio, a senadora colombiana Piedad Córdoba esteve no Brasil a convite do Senado, que logo descartou sua audiência conforme havia aprovado. É que se descobriu a tempo que a senadora não viria falar mal das FARC, mas sim do governo Uribe e de suas relações com os paramilitares e narcotraficantes. E das cerca de 70 prisões de parlamentares da base de apoio a Uribe, sustentáculos do crime na Colômbia.

O governo nega tanto o apoio de “Don Berna” quanto suas relações com os grupos paramilitares, responsáveis por milhares de assassinatos e outros crimes relacionados com o narcotráfico. Os grupos foram criados em 1980 com o financiamento de líderes de direita e de latifundiários, sob o pretexto de combater as guerrilhas. Eles também expulsaram milhares de camponeses e se apoderaram de suas pequenas propriedades.

No momento, congressistas governistas tentam aprovar uma reforma constitucional e um projeto de referendo para aprovar a candidatura de Uribe a um terceiro mandato presidencial. Tarefa difícil face ao número de parlamentares uribistas atrás das grades. Como os senadores Zulema Jattin e Jaime Alberto Llano, presos no último dia 11/5, acusados vínculos com grupos paramilitares de extrema-direita, segundo a BBC Brasil.

Também foi preso o senador Mario Uribe, primo e chefe do partido do presidente. Ele é mais um membro da “parapolítica”, grupo de congressistas da base do governo. Todos citados por chefes paramilitares das Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC), como “Don Berna” e Salvatore Mancuso. Todos acusados de fazerem acordos com os paramilitares e de receberem deles financiamento e apoio logístico para suas campanhas políticas.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Nazisionismo?


Projeto imobiliário em terras palestinas usurpadas fulmina a Paz.

“Há anos Israel promete que não haverá novas construções em terras expropriadas dos palestinos na Cisjordânia. O presidente Shimon Peres reiterou essa promessa recentemente ao primeiro-ministro tcheco, Mirek Topolanek, atual ocupante da presidência da União Europeia. Topolanek, em consequência, prometeu trabalhar para melhorar as (esgarçadas) relações entre Israel e a Europa”.

A informação acima é de Daphna Golan, professor de direito da Universidade Hebraica de Jerusalém. Segundo Golan, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu certamente iria repetir a Barack Obama mentiras iguais. (Leia íntegra no jornal Haaretz.com, de Israel, de 5/4). A despeito das promessas, os jornais de Jerusalém continuam a oferecer com apoio oficial, vantagens para quem quiser investir nas terras palestinas usurpadas.

O tom entre Israel e Europa tornou-se mais ríspido, conforme analisa Bettina Marx, do jornal alemão Deutsche Welle, de 08/5: “Ministro israelense (das Relações Exteriores, Avigdor Lieberman) é recebido com frieza em sua primeira viagem diplomática à Europa. Se Israel não quer solução justa para o Oriente Médio, Europa deveria repensar estreita cooperação com Israel”.

A relação de Israel com a Europa tem sido “de crescente irritação”, desde o final da ocupação bélica da faixa de Gaza. Segundo Bettina, quando do encontro de ministros do Exterior, em Bruxelas, do qual participou a ministra israelense Tzipi Livni, “exigiu-se que Israel repense sua política de bloqueio com relação aos palestinos na Faixa de Gaza”. A Europa quer de Israel a solução de dois Estados.

Nesta segunda-feira (25/5), Juan Miguel Muñoz, de El Pais, dizia que o “Governo israelense de extrema-direita desafia a Europa”. Segundo ele, Israel desafia tanto Bruxelas quanto o governo Obama que exigem de Israel deter a construção nas colônias da Cisjordânia e a demolição de casas palestinas em Jerusalém Oriental, além de aceitar a negociação com os palestinos sobre a base dos dois Estados independentes.

Impassível, Netanyahu conra-ataca: "Não tenho a intenção de construir novos assentamentos, mas não faz sentido pedir para que não atendamos as necessidades geradas pelo crescimento natural de nossa população e interrompamos todas as construções", disse ele ao gabinete de ministros neste domingo. "Não vou dizer para que as pessoas não tenham filhos ou forçar os jovens a viver longe de suas famílias." Leia em BBC Brasil.

A posição do gabinete sionista contraria interesses tanto de palestinos (74%) quanto de israelenses (78%) que também desejam dois Estados, lado a lado, em paz. Assim revela uma pesquisa do One Voice Movement, conduzida por Colin Irwin, da Universidade de Liverpool, Nader Said, do Mundo Árabe para Pesquisa e Desenvolvimento na Cisjordânia e Mina Zemach, do Instituto Dahaf, em Tel-Aviv. Leia em Estadão.com.

A paz não interessa ao sionismo no poder

A conjuntura acima parece dar razão a Amira Haas, do jornal Haaretz.com (11/5). Para ela, “a paz não interessa a Israel”. Ela explica que os sucessivos governos israelenses, desde 1993, “sabiam o que faziam cada vez que não fizeram a paz com os palestinos”. Eles concluíram “que a paz implicaria graves prejuízos aos interesses nacionais israelenses". Esta parece a lógica do “moderno” sionismo, intolerante, belicoso.

Com efeito, a indústria da segurança é importante item na pauta de exportações de Israel. Armas, munições e refinamentos que são testados em Gaza e na Cisjordânia. Proteger as colônias também exige desenvolver a indústria da segurança. Alem disso, manter a ocupação e o estado de beligerância cria empregos para milhares de israelenses. Cerca de 70 mil pessoas são empregadas na indústria da segurança.

Segundo Amira, a cada ano, dezenas de milhares de israelenses concluem o serviço militar obrigatório e saem treinados para usar algum talento especial. Esse treinamento é o início de sua carreira profissional: soldados profissionais, agentes de espionagem, consultores, soldados mercenários, comerciantes de armas. A paz, portanto, faria sumir muitas carreiras num estrato social que tem enorme influência no governo.

Pela tese, a Paz prejudica a qualidade de vida, pois exigiria distribuição equitativa dos parcos recursos hídricos em todo o país (do rio ao mar) entre judeus e palestinos. Prejudica também para o bem-estar social, pois as colônias oferecem às pessoas comuns o que jamais teriam se dependessem dos salários para viver: terra barata, casas confortáveis, benefícios, subsídios, espaços abertos, paisagens.

Para a jornalista, a paz também eliminará o pretexto “de segurança” que justifica a segregação contra os árabes-israelenses, seja na distribuição de terras, dos recursos de desenvolvimento, educacionais, de saúde ou dos direitos humanos. “Gente que se tenha habituado aos privilégios próprios da discriminação étnica vê a justa distribuição de direitos como assalto a seus direitos adquiridos e ao seu próprio bem-estar”, diz Haas.

A busca da não-paz parece fazer soldados israelenses exibirem camisetas com imagens de bebês palestinos mortos e mesquitas destroçadas pelos bombardeios de Israel. Uma das camisetas, a da foto acima, de um soldado do exército de ocupação em Gaza, mostra o ventre de uma mulher palestina grávida na mira de um fuzil e a legenda emblemática: “Um tiro, dois mortos”. (Ler matéria do Haaretz.com, de 20/3) (7).

O Manifesto