quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Achegue-se, caro Battisti!

Junte-se aos nossos. Desfrute a justa generosidade do nosso país a acolher um bravo sobrevivente da velha luta por liberdade e justiça. Benvenuto! Descansa um pouco, toma um café conosco, e conta da tua longa caminhada de perseguido político em tua terra. E verás que não estás só, que somos muitos. Também éramos “terroristas”. Especialmente da década de 70, quando aqui também era escuro, bastante escuro. E nós, como tu, cantávamos também. Com flores, como armas na mão. É por isso que reconhecemos o teu canto, tua bravura, tua luta. Os tempos eram bem assim, duros.

Nós tínhamos uma ditadura terceiro-mundista a destruir sonhos de liberdade e a derramar sangue patriótico. E tu combatias a praga nazi-fascista. A mesma que recorrentemente teima em retornar à Itália. Como hoje, incorporada a figuras lastimáveis como a de Sílvio Berlusconi. Sossega, pois, caro Battisti! Não serás entregue à vendeta dos filhotes de Mussolini. Estás entre amigos. Entre camaradas.

Vais ouvir destoantes acordes em nossos terreiros. Não te apoquentes. Elas são minorias e vêm de setores que costumam usufruir das benesses sociais e materiais que lhes permitem os estados de exceção. São vozes cujas presenças, nos anos de chumbo, cingiam-se a covardes omissões, ou ao apoio velado às usinas de tortura, aos aparatos de sequestro, aos assassinatos e ao exílio de patriotas. Como tu e como nós. São vozes desavergonhadas da submissão dos colonizados, ungidos pelo rodriguiano “complexo de vira-latas”, incrustados em redações, editorias e colunas da grande mídia e nos medíocres bunkers da oposição.

Vozes que reclamam da independência da nossa política externa, aquela que leva a visão pacífica e respeitosa do povo brasileiro para o mundo, sem preconceitos e sem pretensões hegemônicas. Que reclamam de nossas políticas públicas de interesse popular, as que buscam diminuir a concentração de renda e a miséria que os donos dessas vozes produziram. Para eles, são populistas os governos da América Latina que tentam dar cidadania às camadas historicamente injustiçadas. Preferem permanecer como velhas republiquetas de bananas, submissas ao expansionismo de Washington.

Como a Colômbia, cujo governo assassina sistematicamente lideranças populares, permite a expulsão de milhares de camponeses de suas terras e mantém seu poder a custa de permanente financiamento de Washington e histórico vínculo com o tráfico de drogas. E se abre agora para uma perigosa investida armamentista dos EUA na América do Sul, ao ceder seu território para implantação de sete bases militares de alcance continental. Uma séria investida que tenta recuperar antiga hegemonia na Região.

Portanto, nós ainda não os derrotamos, caro Battisti, eles continuam aí, a batalhar pelo atraso. Não vês que são os mesmos que aplaudiram a tentativa de golpe de estado na Venezuela em 2002 e hoje querem justificar o golpe de estado em Honduras? Em ambos os casos, pela deposição de governos democraticamente ungidos. Perigoso precedente para a Democracia na América Latina. Não vês serem os mesmos que deram força às manobras de Israel para tumultuar a visita do presidente Ahmadinejad, a quem pretendem dar lições de democracia? E, por outro lado, estendem o tapete vermelho a Shimon Peres, perfeito representante do terrorismo de estado, o nazisionismo de Israel?

Esses mesmos lacaios do atraso condenam o Irã por enriquecer urânio para fins pacíficos e por seu regime secularmente fechado. Um país que agora tenta uma abertura para o mundo e busca alternativas diante de injustas sanções comerciais unilaterais comandadas pelos EUA. Por outro lado, aplaudem Israel que mantém um gueto em Gaza, despeja bombas sobre milhares de inocentes palestinos, constrói muros e ocupa arbitrariamente o território que não é seu. Único país do Oriente Médio a possuir arsenal nuclear, Israel não o submete, aos acordos internacionais. Protocolo que é exigido ao Irã para enriquecimento de seu urânio.

Não te avexes, caro Battisti! As vozes amigas são muitas. São vozes das convenções internacionais que repelem a barbárie. Vozes dos novos tempos de resgate e de exercício das nossas tradições de país generoso, coerente com os princípios da Democracia e da Liberdade. Esperamos, no entanto, que não desanimes, e que o ensarilhar de tuas armas não signifique o abandono da luta, mas uma pausa para sua retomada, dentro dos limites do teu justo refúgio.

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quarta-feira, 18 de novembro de 2009

I N V E J A

Não há como se desvincular a imagem de Fernando Henrique Cardoso das de Carlos Menem e Alberto Fujimori. Em primeiro lugar, pela generosa submissão da troika ao Consenso de Washington, esperta sacação do Mercado para disseminar a cultura do Estado mínimo que nos legou o desmonte tanto irresponsável quanto nebuloso de grande parte do patrimônio nacional. Segundo, pelo alinhamento automático dos seus governos à política expansionista dos EUA, prática herdada das respectivas ditaduras militares.

Não é sem razão, portanto, a reação de CANDIDO MENDES – membro da Academia Brasileira de Letras, da Comissão de Justiça e Paz, do Conselho Internacional de Ciências Sociais da Unesco e secretário-geral da Academia da Latinidade, em artigo publicado pela Folha de S Paulo na última quarta-feira, ante um contraditório artigo do ex-presidente brasileiro, multiplicado pelos jornais do país à véspera do dia dos mortos. Queria FHC tentar tirar da indigência nossa medíocre oposição e parte da grande mídia.

Queria. Pois, como depois se viu, o artigo do ex-presidente, “Para onde vamos”, não passou de uma cínica coletânia de velhos chavões da mesma fonte indigente oposicionista dos últimos tempos. Diz Candido Mendes que o indeciso artigo de FHC vai estimular os eleitores nas próximas eleições a mostrar “para onde não voltamos”, principalmente quando o ex-presidente afirma, cinicamente, “que tudo que é bom no atual governo já veio de antes e que o mal de agora apenas começa”.

Uma sábia observação sociológica de que inveja é atributo dos narcisistas cai bem para o “príncipe dos sociólogos”. A invejável evidência do Brasil no conceito planetário fragilizou a estratégia do ex-presidente, cuja fala (contrariando as oposições e grande parte da mídia) abriu espaço a que as eleições de 2010 sejam radicalmente plebiscitárias, como quer o presidente Lula. Em primeiro plano, a privataria versus “a melhoria social do país e a recuperação do poder do Estado”, como observa Candido Mendes.

Teremos, de um lado, a falta de controle da Nação sobre o petróleo (um generoso regime entreguista de concessões). Do outro, a partilha, o modelo norueguês, que amplia a destinação social imediata dos recursos do subsolo. Nos setores onde o governo dos tucanos foi zero, teremos o PAC, milhares de obras a exibir a presença do Estado na mudança da infraestrutura, exigência do nosso desenvolvimento. E o Bolsa Família, uma política de transferência de renda e cidadania, que na visão de Candido Mendes, “colocou a população de uma Colômbia na nossa economia de mercado”.

“A conduta de Lula na determinação visceral de não ceder a um terceiro mandato, avassaladoramente acolhível, se assim quisesse o presidente, por emenda constitucional”, como entende Candido Mendes, expõe a desavergonhada batalha de FHC para que o Congresso Nacional lhe desse, a custa de muita corrupção, um mandato extra. É puro cinismo, portanto, o ex-presidente dizer que "é mais do que tempo dar um basta ao continuísmo antes que seja tarde". Simbolicamente dito no dia dos mortos.

Candido Mendes percebe ainda que “o embaraço do tucanato em reconhecer o ‘entreguismo’ dos controles públicos durante o seu governo é o mesmo que o alvoroça a comparar o governo Lula ao ‘populismo autoritário peronista”. Populismo, sabemos, é um termo utilizado pelo conservadorismo oligarca contra as políticas públicas de resgate do fosso social que ele próprio secularmente produziu. Populismo real é aquele que essas mesmas elites praticam há séculos para manutenção do poder e da pobreza.

A despeito deles, e de suas falas cheias de ódio e de inveja, o amadurecimento brasileiro, uma nova amplitude e uma nova densidade são o novo patamar que o mundo reconhece em nós de forma crescente. Na semana passada, o presidente Lula recebeu de instituição ligada à família real do Reino Unido, em Londres, importante prêmio por sua contribuição "à estabilidade e à integração na América Latina" e por seu papel na "resolução de crises regionais". Uma significativa (e invejável) premiação ao Brasil.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

O muro na cabeça

O ex-ministro Luiz Carlos Bresser Pereira (Folha de S Paulo desta segunda-feira), quer que “Comemoremos, a queda do Muro de Berlim – ‘o ideal da liberdade se sobrepôs aos ideais da igualdade e da solidariedade’ – mas não nos deixemos enganar pelos radicais, sejam liberais ou socialistas. Estes fizeram revoluções que produziram sofrimentos e não resultaram no socialismo; aqueles se deixaram levar pelo neoliberalismo, promoveram a redução das taxas de crescimento (...) e beneficiaram apenas os 2% mais ricos da população”.

Na mesma Folha, o historiador russo Constantine Pleshakov, radicado nos EUA, diz que “Ao iniciar há 20 anos a derrubada do comunismo, russos e europeus do Leste nada entendiam de livre mercado, que esperavam que funcionasse como um passe de mágica para o consumo. (...) Em poucos anos, essas ilusões desapareceram, porque não é assim que funciona (...) Quando as propriedades estatais foram privatizadas, poucos privilegiados ficaram ricos em meses e o resto da população perdeu participação na riqueza nacional.

Mais pragmático, o historiador britânico Eric Hobsbawm diz que o principal efeito da queda do Muro de Berlim, em 1989, foi a desestabilização da geopolítica mundial em benefício da única superpotência remanescente – os EUA Como consequência, o mundo se tornou mais perigoso, mais inseguro. Já do ponto de vista econômico, Hobsbawm afirma que o pós-1989 levou a um recorde de desigualdade social nos países europeus sob influência da antiga União Soviética. (Folha de S Paulo deste domingo, 08/11).

“‘Muro invísivel’ ainda divide alemães: Para alemães ocidentais fim da barreira representou fardo econômico; Orientais têm saudades do pleno emprego”. Foi como o jornalista Lourival Sant’Anna, enviado especial do Estadão, resumiu a decepção em que se transformou a grande euforia de 20 anos atrás, quando “nada mais seria impossível”. Hoje, são muitos os alemães para quem “a barreira destruída passou a significar uma proteção perdida”. O muro continua vivo no que os alemães chamam de "o Muro na cabeça".

De um lado, os alemães ocidentais a reclamar da maciça transferência de recursos para o lado oriental, em infraestrutura e assistência social, que eles arcam por uma espécie de "imposto solidário”. Por outro lado, pesquisa da revista Der Spiegel mostra que 49% dos alemães orientais concordaram que a antiga "RDA tinha mais lados bons que ruins. Havia alguns problemas, mas a vida era boa.". Para outros 8% "a RDA tinha, na maior parte, coisas boas. A vida lá era mais feliz e melhor que na Alemanha reunificada de hoje".

Outra pesquisa, realizada na ex-RDA, confirma os dados da Der Spiegel: 38% dos alemães orientais consideram-se vencedores da reunificação; 23%, perdedores; e 30% dizem que ela lhes trouxe perdas e ganhos. Ainda segundo Sant’Anna, “jovens alemães orientais desempregados sonham com o ‘pleno emprego’ desfrutado por seus pais. (...) Muitas mães invejam a liberdade que suas mães tiveram de deixar os filhos na creche ou escola e trabalhar o dia inteiro”. Para Anja Weinhold, 33 anos, desempregada, “só não trabalhava quem não queria".

Resumo da ópera: a queda do muro de Berlim, há justos 20 anos, colocou mais uma vez a roda da história da humanidade em movimento. História que opõe um modelo de consumismo, competitividade fratricida e indiferença coletiva aos os velhos sonhos de solidariedade, de emancipação, de democracia. História que mostra que o homem do século XXI (no dizer do experiente jornalista Jânio de Freitas, da Folha) “não desaprendeu a construir muros para separação da humanidade e não aprendeu a demoli-los”.

sábado, 31 de outubro de 2009

MELEQUEOQUE – O Mundo versus EUA, Israel e... Palau

Pelo 18º ano consecutivo, a ONU discute e condena o embargo estadunidense contra Cuba. É a primeira votação sob o governo Barack Obama, que acaba de renovar o bloqueio que sufoca há quase 50 anos a frágil e heróica economia cubana. Nesta quarta-feira (28/10), na Assembleia Geral da ONU, 187 países rejeitaram o embargo e somente Israel e... Palau apoiaram os EUA.

A República de Palau é um pequeno país insular da Micronésia, no Oceano Pacífico, entre os mares das Filipinas a oeste, Indonésia e Papua-Nova Guiné a sul e Estados Federados da Micronésia a leste. Capital: Melequeoque. Apesar de ser nominalmente um país independente, Palau assinou um Tratado de Livre Associação com os Estados Unidos da América (fonte: Wikipédia)

Israel, para quem não sabe: o governo nazisionista no poder, nega água potável e reposição alimentar ao gueto da Faixa de Gaza, hoje criminosamente fatiado por ocupações ilegais de colonos judeus. Mais: Israel não se submete ao Tratado de Não-proliferação nuclear, o que justifica acusações de dois pesos e duas medidas à “comunidade internacional” quando esta quer, por exemplo, condenar o projeto nuclear do Iran.

Segundo Roger Cohen, editor-geral do Herald Tribune (16/10), “Mais de 60 anos após a criação do Estado moderno, Israel ainda não tem fronteiras estabelecidas, não tem Constituição, não tem paz. Nascido de um horror excepcional, o Holocausto, a normalidade tem se mostrado esquiva. A ansiedade dos judeus da diáspora não deu lugar à tranquilidade, mas a outra ansiedade. A fuga dos muros deu origem a novos muros. A psicose da aniquilação não desapareceu, mas adquiriu nova forma”.

Já os Estados Unidos... Pelas projeções otimistas, com base nas “boas intenções” da era Obama, de um lado, e, do outro lado, no irracional estado de permanente beligerância do atual governo de Israel, não nos surpreendamos se no próximo ano nossa manchete for: Israel contra o mundo. Havana desta vez obteve respaldo recorde, uma vez mais, contra embargo. Resultado que confirma a postagem deste boletim, de 31 de outubro do ano passado, sob o título “Estados Unidos, Israel e... Palau contra o mundo”:

"Vocês estão sozinhos, completamente isolados’, disse pouco antes da votação Pérez Roque, dirigindo-se à delegação estadunidense. Em seu discurso, o chanceler cubano disse que ‘sete em cada dez cubanos passaram a vida sob esta política irracional e inútil’. E que ‘o bloqueio é mais velho que Barack Obama e que toda minha geração".

“Cidadãos brasileiros, por exemplo, não podem adquirir um computador portátil da DELL Brasil por meio de crédito se, ao preencher o cadastro, declarar que em tendo oportunidade gostaria de visitar Cuba. A empresa informou ao jornal O Globo que a restrição segue normas de Washington”. “O embargo econômico à Cuba foi instituído pelos Estados Unidos em 1962, três anos após a deposição do ditador Fulgêncio Batista pela Junta Militar Revolucionária cubana. E antes da fracassada invasão da Baía dos Porcos, financiada pelos Estados Unidos”.

domingo, 25 de outubro de 2009

O lado de Judas

Longos anos se passaram para que a Folha de S Paulo admitisse, como admitiu em editorial, nesta sexta-feira, que “gerência técnica, tática de alianças, governabilidade. A política como ‘arte do possível’. Conceitos e lemas desse tipo fixaram-se, ao longo do tempo, como ingredientes típicos da retórica e da prática tucanas”. A afirmação, como se vê, é parte de uma análise bastante retardada em honra da verdade. Essa e muitas outras deixaram de ser ditas em tempo real, para não contrariar interesses do próprio jornal.

No preâmbulo de mais essa manifestação política, o jornal admite que “no governo FHC, o tema da ‘modernização’ do Estado brasileiro nunca representou empecilho para que se fizessem alianças com o que sempre existiu de mais arcaico e oligárquico na política brasileira. Muda o presidente, muda o partido, mas não se altera a tolerância com o patrimonialismo e com o atraso”. E admite que Lula tem razão ao dizer que não se governa no Brasil “fora da realidade política”: “Ninguém diria o contrário”, diz a Folha.

Entretanto, o editorialista cobra do presidente sua promessa de mudar essa realidade política: “A política não é apenas ‘a arte do possível’, como dizia Fernando Henrique Cardoso – mas a arte de ampliar esses limites”, diz o jornal. E coloca nas mãos do núcleo no poder a responsabilidade por uma reforma política, fiscal ou previdenciária, pendentes há décadas. Como se a Folha não soubesse muito bem que cada feudo de poder – econômico, grupal, familiar, político – quer um modelo de reforma que lhe beneficie.

Grupos poderosos, como os do agronegócio, das comunicações, das altas finanças, conseguem até ocupar altos postos de comando nos ministérios da Agricultura e da Comunicação, Banco Central, a garantir a manutenção histórica do patrimonialismo oligárquico e do arcaísmo, ora condenados pela Folha. Ela mesma uma legítima representante desses grupos, pouco ou nada interessados em mudança. A não ser para manutenção dos seus próprios privilégios. Nunca para promover mais democracia.

A reforma que interessa à Folha e à mídia, legítimas representantes das oligarquias, não é a mesma que interessa à sociedade como um todo. Mais do que a reforma agrária, que democratize o acesso à terra, prefere-se a demonização dos movimentos sociais. Mais do que os investimentos em políticas sociais, que elevem o perfil distributivo, melhor condenar os “gastos do governo”. A mídia jamais concordará em discutir um modelo voltado ao direito à comunicação ou à democratização dos meios de comunicação.

(Em face de repetidas demonizações dos movimentos sociais pelos inimigo da reforma agrária, circula pela internet um Manifesto em Defesa do MST (1), subscrito por intelectuais, movimentos sociais, personalidades. O manifesto mostra os interesses por trás da desestruturação dos movimentos pela reforma agrária no Brasil. Como o agronegócio, que quer impedir a revisão dos índices de produtividade agrícola, que estabelece as bases da produtividade da terra no Brasil e favorece a reforma agrária).

Em vez de preservar o meio-ambiente, o conservadorismo opta por ampliar a fronteira agrícola, o desmatamento. Mais do que discutir a violência ligada ao trafico de drogas e ao alcoolismo, melhor aliar-se aos anunciantes de bebidas. Mais que uma reforma previdenciária que garanta justos direitos de cobertura, prefere-se mitificar o “déficit da previdência”. Reforçando à avidez dos grandes bancos que bancam a previdência privada. A depender da Folha, pois, longe está a ampliação da “arte do possível”.

É hilário, como se vê, o movimento da mídia brasileira e dos partidos de oposição a condenar o pragmatismo do governo diante da realidade brasileira que transforma a política como a “arte do possível”, que todos praticaram, sem o menor interesse na “arte de ampliar esses limites”. Todos os políticos hoje levados à execração pública foram sempre aliados e úteis aos que hoje os querem condenar. A Folha de S Paulo, a mídia brasileira, deve à sociedade uma análise, isenta de hipocrisia, sobre a fisiologia e o atraso em nossa política.

(1) adesões podem ser feitas no endereço: http://www.petitiononline.com/boit1995/petition.html

quarta-feira, 14 de outubro de 2009


“Opinião partidarizada, travestida de jornalismo”
(Anita Dunn, Diretora de Comunicação da Casa Branca)

“... temos de ser mais enérgicos, em vez de sempre dar explicações, fugir do debate ou só nos defender" – “A imprensa vive de falar. (...) por isso, a imprensa sempre pode usar qualquer mínima coisa e converter em notícia, mesmo que, para isso, os fatos sejam distorcidos. Por que precisamos aceitar isso?". Disse, na semana passada, em rede nacional, Anita Dunn, Diretora de Comunicação da Casa Branca, acusando a Rede Fox News de funcionar como uma organização política, “apêndice do Partido Republicano”.

A paciência da Casa Branca começou a desabar em setembro, quando o New York Times publicou, em primeira página, que há um "crescimento nas pesquisas de pais e mães preocupados com o conteúdo do discurso de Obama para crianças e adolescentes" O estranho é que essa publicação ocorreu antes mesmo de o jornal, e os “pais e mães” conhecerem o teor do correto discurso presidencial. Some-se o caso do Washington Post, a distorcer legítimas nomeações de Obama para a Administração Federal.

"Trata-se de opinião partidarizada, travestida de noticiário e de jornalismo", diz Anita Dunn. Esse “modismo”, a sensibilidade política de Gramsci credita ao conservadorismo, cada vez que se torna fraco, na luta pelo poder. É quando a imprensa assume o comando da agenda oposicionista e ocupa seu lugar. Muitas vezes, com um propósito golpista implícito. Ou não é que vem acontecendo no Brasil? Não é diferente o processo na Argentina. Quem, senão a mídia, comandou o golpe contra Chávez em 2002?

O caso da Casa Branca é mais fácil de resolver porque nos EUA, como nos principais países da Europa, não existe a esculhambação latina da propriedade múltipla dos meios de comunicação, nem se convive com tal concentração da propriedade televisiva. É justamente o que vem corrigir a nova Lei Audiovisual de Cristina Kirchner. Recém aprovada por ampla maioria no parlamento argentino, com apoio dos sindicatos dos jornalistas, ela inibirá o monopólio que transforma a Argentina em feudo do Grupo Clarín.

A lei prevê que as organizações da sociedade civil, não-governamentais, terão acesso a um terço do espaço audiovisual, igual que as mídias públicas e privadas. Ela impede também uma mesma empresa de possuir um canal aberto e um canal a cabo na mesma região. É por isso que a Lei Cristina é tratada pela mídia brasileira como um “instrumento de força contra a liberdade de expressão, para prejudicar o Clarín”. Uma defesa corporativa, pois não é segredo que também há muito o que se consertar por aqui.

Por aqui, as quatro grandes corporações – Globo, Veja, Estado e Folha – não conseguem criatividade necessária para oferecer uma eventual posição política favorável ou mesmo tolerante com o governo do “lulo-petismo”. Mas, não se pense que a reação brasileira ficará limitada à “azia” de Lula, causada pela itura dos nossos jornais. Também não será pela não renovação do domínio concessionário, ao estilo Chávez. Uma Lei Cristina, no Brasil, virá como resultado de amplo debate nacional do setor. (*)

(*) Os debates já começaram a se realizar nos diversos Estados, como fase preparatória para a 1ª Conferência Nacional de Comunicação – Confecom – a ser realizada em 15 a 17 de dezembro em Brasília DF.


terça-feira, 6 de outubro de 2009

Ombudsman reconhece prática panfletária na Folha de S Paulo

O ombudsman da Folha tem por atribuição “criticar o jornal sob a perspectiva dos leitores”. Assim, Carlos Eduardo Lins da Silva pôde, neste domingo (4/10), analisar a edição da terça-feira anterior e concluir: “no terreno da opinião, registrou-se na edição de terça incômoda unanimidade na página A2, em que todas as colunas e o editorial adotavam ponto de vista único sobre o papel do Brasil na crise (hondurenha). Em benefício do leitor e em nome da diversidade, outras posições precisam aparecer no jornal”.

De fato, naquela terça, a Folha abriu a página A2 com a acusação de que o “Brasil se intromete mais do que deve em Honduras”. O editorial desfilou uma série de comparações descontextualizadas com antigas ações do Itamaraty em relação a Cuba e Irã e terminou por classificar como “tênue de ilegitimidade democrática” o regime imposto aos hondurenhos pela força. O dono do jornal repete, aqui, a figura da “ditabranda”, afago com que a Folha brindou, meses atrás, a cruel ditadura brasileira, de triste memória.

Na mesma linha ideológica, a coluna do jornalista Clóvis Rossi abriu suas baterias contra o que denomina covardia e indecência o presidente deposto convocar, a partir da embaixada brasileira, a resistência da população hondurenha contra os golpistas no poder. Afirma Rossi que “não há no drama hondurenho (...) um só personagem que pessoas decentes gostariam de convidar para o aniversário dos filhos”. Afirmação é grosseira e insustentável diante de reiteradas manifestações da comunidade internacional.

Ainda na página A2, Eliane Cantanhêde, cuja coluna é campeã de citações contra o governo Lula, destilou seu veneno de indisfarçável militante tucana, acusando o Brasil de “meter os pés, as mãos e a embaixada em Tegucigalpa na defesa apaixonada de um dos lados, o do presidente deposto”. A surpresa da página analisada pelo ombudsman da Folha ficou por conta de Carlos Heitor Cony, que comparou o democrático acolhimento brasileiro com ações truculentas estadunidenses mundo afora.

Será que a conclusão do jornalista Lins da Silva configura uma surpresa? Será que a diversidade “em benefício do leitor” que ele cobra da Folha é vista em O Globo? Na Veja, ou nos jornalões da TV? Ela tem sido vista nas sucessivas edições diárias da própria Folha? Atentemos ao que têm dito os editoriais da nossa mídia em relação à escolha do Rio para sediar os jogos, ao ganho de status do G20 no cenário mundial, à diminuição do risco de investimentos no Brasil, ao abrandamento da crise mundial por aqui.

Seja como for, o ombudsman acertou na mosca: outras posições deveriam ser estimuladas pelo próprio jornal, em nome da diversidade e principalmente em benefício do leitor. Caso contrário, não se detém tendências de falência da credibilidade do jornalismo que campeiam mundo afora. Um efeito bumerangue resultante das distorções do conceito de liberdade de imprensa. A liberdade que não pode ser separada do direito constitucional universal do cidadão à informação.

O Manifesto