terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Os sapatos de William Bonner

William Bonner, do Jornal Nacional, costuma dizer que todas as noites sua equipe tenta colocar um elefante dentro de uma caixa de sapatos. Sempre conseguem. Trata-se da configuração do jornal de maior audiência na TV brasileira. Significa que grande quantidade das notícias produzidas é jogada na lata do lixo e outras tantas somente são divulgadas após lapidar edição que envolve a escolha de enquadramentos, incidências e aparas. Por ficarem de fora, não serão discutidas pelo público: o “lixo”, outros enquadramentos, outras incidências, outras maneiras de ver e de apresentar os temas.

É o que se denomina agendamento (agenda setting), teoria bastante conhecida em todo o mundo por qualquer estudante de comunicação, desde os anos 70, que revela como os meios de comunicação determinam a pauta (agenda) para a opinião pública. Ou seja, resolvem o que e de que forma – de que ângulo, de que ponto de vista, sob que aspecto ou profundidade – nós, indefesos leitores/ouvintes, devemos discutir a história de cada dia. Pois, para muitos, o que não deu no Jornal Nacional, a caixa de sapatos de Bonner, não aconteceu.

Tem-se no agendamento o instrumento de impor ao leitor/ouvinte uma carga de opiniões político-ideológicas ou culturais que interessam às instâncias de poder vinculadas aos donos do veículo de comunicação. Dito de outra forma, a linha ideológica nasce de modo “espontâneo”, das necessidades dos profissionais da comunicação de manter uma relação de boa convivência e conforto em seus postos de trabalho. Ou seja, a linha ideológica da notícia nasce não só do perfil intelectual e cultural do jornalista, de suas relações e afinidades ou do seu compromisso social, mas também e sobretudo do tipo de (in)dependência profissional com seu veículo empregador.

De qualquer forma, para a unanimidade dos estudiosos não há isenção na produção de qualquer matéria jornalística, mesmo a que não é rotulada como opinativa. E assim, o ouvinte/leitor recebe o “benefício” do agenda setting para não precisar pensar. Já na década de 20, dizia o Estadão: “Um verdadeiro jornal constitui para o público uma verdadeira bênção. Dispensa-o de formar opiniões e formular ideias. Dá-lhes já feitas e polidas, todos os dias, sem disfarces e sem enfeites, lisas, claras e puras” (Editorial do O Estado de São Paulo, de 14/01/1928).

Pode-se inferir então que um mergulho no “lixo” e nas aparas, e um exame por ângulos e critérios ideológicos diversos no noticiário jornalístico, certamente produziriam caixas de sapatos diferentes da de Bonner. Um mergulho e um exame que serão facultados a qualquer ouvinte/leitor quando o veículo de comunicação lhe oferecer os diversos ângulos e a totalidade dos fatos, para que exerça criticamente sua análise e sua escolha. Será, enfim, a oportunidade de poder formar sua opinião, sua versão dos fatos.

Para que isso aconteça, a sociedade precisa se dar conta de que existe um direito que a Constituição lhe garante: o Direito à Informação. Informação em sua integralidade, que permita acesso a uma leitura crítica, personalizada, liberta das amarras opinativas unidirecionais viciadas. Democraticamente aberta a múltiplas interpretações e juízos. Múltiplas caixas de sapatos...


Um novo olhar

Uma amostragem do que “não aconteceu” (o lixo e as aparas do Bonner) pode ser vista no noticiário dos últimos dias: Na última quinta-feira (24/12), o prestigiado jornal francês Le Monde escolheu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva como "o homem do ano de 2009. Por seu sucesso à frente de um país tão complexo como o Brasil, por sua preocupação com o desenvolvimento econômico, com a luta contra as desigualdades e com a defesa do meio-ambiente”.

Poucos dias antes, Lula foi escolhido pelo jornal espanhol
El País a primeira das cem personalidades mais importantes do mundo ibero-americano em 2009. Com direto a foto de capa inteira e perfil assinado pelo próprio primeiro-ministro da Espanha, José Luis Zapatero. "Homem que assombra o mundo", "completo e tenaz", “por quem sinto uma profunda admiração", escreveu o premiê espanhol.

Neste dia 29 de dezembro, o jornal britânico Financial Times escolheu o presidente brasileiro como uma das 50 personalidades que moldaram a última década, porque “é o líder mais popular da história do Brasil”. “Charme e habilidade política... baixa inflação... programas eficientes de transferência de renda...", diz o jornal.

Há nestas notícias da imprensa internacional o reflexo de um novo dia, de um novo tempo de novos sonhos. Um novo olhar do mundo sobre o Brasil. No entanto, para o leitor/ouvinte dos nossos jornalões, simplesmente nada disso aconteceu.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

A Z E D U M E

O presidente Lula foi eleito o personagem do ano por El País. O jornal espanhol publicou neste domingo (13/12) suplemento especial (ver capa acima) com a lista das 100 personalidades íbero-americanas que mais se destacaram em 2009. O perfil de Lula foi escrito pelo primeiro-ministro da Espanha: “Este es un hombre cabal y tenaz, por el que siento una profunda admiración”, disse José Luis Zapatero. Não consta repercussão desse fato na mídia tupiniquim.

A mídia hegemônica nacional tem preferido praticar o que o jornalista Luis Nassif denominou de “jornalismo esgoto” e fazer apologia ao complexo de vira-lata rodriguiano que afeta alguns brasileiros. A nova postura do Brasil no cenário internacional parece ameaçar os dutos coronarianos de conhecidos colunistas e articulistas dos principais jornais. Tira-lhes o sono e os faz espumar pelas ventas a soberana postura brasileira nos principais foros internacionais

Não é sem razão que o próprio Lula, ao receber o prêmio de Brasileiro do Ano (o leitor não sabia?), oferecido pela revista Isto É, fez severas críticas à cobertura da imprensa durante a crise econômica mundial. "O Brasil tem uma coisa engraçada. Tem dia que você acorda, lê os jornais, e a vontade é de se matar. Porque o mundo está acabando. Se vocês então ficarem só na manchete, nem saiam de casa. Porque tem um certo azedume, aquela coisa tão azeda, sabe, que faz mal para o país”, disse o Presidente.

Mais recentemente, o “cabal y tenaz” presidente havia reclamado de justificada “azia” que a leitura da nossa mídia lhe causava. Mesmo acometida de intensa “indigestão”, a representação da nossa imprensa prefere sempre silenciar, fingir-se de morta, deixando de produzir uma profunda reflexão sobre a relevância dos seus conteúdos para a sociedade. Ao invés, um silêncio comprometedor que reforça a tese do “azedume”que nos remete à leitura comparativa de outras fontes mais distantes. Assim:

The Economist, sexta-feira (11/12), divulgou dados da pesquisa Latinobarômetro, realizada em 18 paises da América Latina, que mostram nossos governos com maior credibilidade que nossos exércitos e mais satisfação com nossas democracias. 58% são contra o golpe em Honduras. Aumenta o reconhecimento da influência do Brasil na Região. No BBC Brasil, quinta-feira (10/12), “Meio Ambiente. Obama elogia parceria de Brasil e Noruega para preservar Amazônia”.

Na matéria do BBC Brasil, Obama, em comunicado conjunto com o primeiro-ministro norueguês, Jens Stoltenberg, diz que parceria pode servir de modelo para outros países.
Dia 5/12, editorial do The New York Times lamenta hesitação de Obama com o golpe de Honduras e pede a volta das "liberdades civis, inclusive liberdade de imprensa". E afirma que "Os militares de Honduras e de toda a região precisam saber que golpes não serão tolerados."

A New Yorker fala da “humilhação do governo Obama de ceder aos republicanos e aos conservadores do seu próprio partido”, com prejuízo para a democracia e alento para as oligarquias, no caso de Honduras. Fato que permitiu a posição do conservador Miami Herald, a defender o golpe e sugerir haver "uma dúzia de países, na América Latina, onde o cenário de Honduras poderia se reproduzir". Para restaurar “os interesses estratégicos dos EUA nas Américas".

El País saúda a vitória da democracia na eleição de Evo Morales; The New York Times louva o desempenho da economia e a manutenção da “força por mudança” na Bolívia; Newsweek repercute The Economist a enunciar como o Brasil virou "parâmetro no esforço global para diminuir a diferença entre ricos e pobres” e a explicar que "apesar de China e Índia estarem crescendo mais, estão se tornando mais desiguais, o que leva especialistas a olharem o Brasil como um modelo para a guerra contra a pobreza".

Pela amostragem, longe está a imprensa nacional de refletir a nova realidade vanguardista da política externa brasileira. Ou de retratar o orgulho da maioria da Nação ante a repercussão do seu país nos principais periódicos do mundo. El País, The Economist, BBC, The New York Times, Newsweek, têm suas imagens historicamente atreladas ao bom jornalismo. Não necessariamente isento ideologicamente, por serem conservadores, são respeitados pelo profissionalismo que falta em certo azedume local.

sábado, 5 de dezembro de 2009

POR AMOR?

(foto Apu Gomes/FSP)

POR AMOR?

“Numa sequência de escândalos, partidos perdem condições de usar o tema da corrupção em suas campanhas”, reclama o editorial da Folha de S Paulo desta sexta-feira (4/12). Sem dúvida, reflete a preocupação dos setores conservadores da mídia, e da anêmica oposição brasileira, com a perda do único discurso eleitoral que lhes sobrava para tentar deter a eleição de Dilma Rousseff, vale dizer a continuidade do governo Lula. “Não resta (...) nenhum discurso coerente” ante o espantoso noticiário cotidiano, diz a Folha.

Com efeito, ruiu, como um castelo de areia, a única base de comparação entre os governos FHC e Lula que a oposição ainda topava fazer com os governistas. Antes, eram as sobras do financiamento de campanha, ilegal ou não, apelidado de “caixa 2”, ou “mensalão” petista, que envolviam parte da base de apoio ao governo. Agora, o “mensalão” tucano do Azeredo e o “mensalão” da ex-Arena, ex-PDS, ex-PFL, hoje DEM, cuja sujeira também atinge fortemente setores do PSDB, do PPS e do PMDB.

Nomes como os de Gilberto Kassab, Aloysio Nunes Ferreira, Walter Feldman e Roberto Freire, todos ligados à távola redonda de Serra, além de Michel Temer, começam a aparecer entre os das cuecas e os das meias. Há fortes indícios de receptação de panetones do esquema de Arruda, de doações ilegais de empresas historicamente envolvidas com eleições. Sabe-se que políticos podem mudar leis que dificultam empreendimentos e ainda ajudam a ganhar concorrências, quase invariavelmente superfaturadas.

Tal é a gravidade da corrupção que até o senador José Sarney, isso mesmo, José Sarney, em artigo do JB online, desta sexta-feira, sentenciou: “Na história da humanidade e da civilização jamais foi encontrado antídoto algum contra a corrupção”. Sarney, talvez o mais esperto dos políticos em atividade no Brasil, define a corrupção política como “o uso ilegal do poder político e financeiro com objetivo de transferir renda pública ou privada de maneira criminosa para indivíduos ou grupos”. Nisso, tem razão.

O presidente do Senado acrescenta que a grande mobilização da sociedade brasileira frente à trágica crise moral não envolve a discussão sobre o que ele considera o grande responsável: nosso sistema eleitoral. “O voto uninominal proporcional que destrói a democracia, os partidos, a vida pública e a própria classe política”. De nada servem para as eleições os ideais, os programas e os princípios. Bonito discurso que, no entanto, deixa de lado a questão sempre esquecida da cumplicidade interativa entre corruptos e corruptores.

Quem se interessa em abrir a caixa de Pandora das empreiteiras, todas: OAS, Camargo Corrêa, Odebrecht, Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão? Há mais de dois anos, o senador Pedro Simon declarava à Zero Hora: “as empreiteiras controlam o Orçamento da União, apresentando projetos diretamente nos ministérios e através de emendas individuais dos parlamentares”. E Simon questionava a participação milionária das empreiteiras em nosso sistema de poder: “Por amor?”

Inúmeras tentativas de se criar CPI para investigar os corruptores, vale dizer, as empreiteiras, foram impedidas pelo governo Fernando Henrique. Época de anões do orçamento. Uma blindagem tucana a proteger a sua base de apoio contra investidas da OAB e da oposição ao seu governo. Segundo o Estadão, na disputa municipal de 2008, a OAS distribuiu R$ 12,3 milhões a candidatos, enquanto a Camargo Corrêa gastou R$ 5,8 milhões. Só Gilberto Kassab, do DEM, o mesmo partido de Arruda, recebeu R$ 3 milhões.

No entanto, nada disso merece relevo na mídia, a principal responsável por pautar a discussão que interessaria à sociedade. Como não se quer discutir o sistema eleitoral, especialmente o financiamento de campanha, também não se discute o sistema corrupto/corruptor. À mídia conservadora – que é a grande maioria da mídia nacional – interessa apenas derramar suas lágrimas pela “perda do discurso”, o único trunfo oposicionista, jogado no ralo da mediocridade, que tem sido seu projeto político para o País.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Achegue-se, caro Battisti!

Junte-se aos nossos. Desfrute a justa generosidade do nosso país a acolher um bravo sobrevivente da velha luta por liberdade e justiça. Benvenuto! Descansa um pouco, toma um café conosco, e conta da tua longa caminhada de perseguido político em tua terra. E verás que não estás só, que somos muitos. Também éramos “terroristas”. Especialmente da década de 70, quando aqui também era escuro, bastante escuro. E nós, como tu, cantávamos também. Com flores, como armas na mão. É por isso que reconhecemos o teu canto, tua bravura, tua luta. Os tempos eram bem assim, duros.

Nós tínhamos uma ditadura terceiro-mundista a destruir sonhos de liberdade e a derramar sangue patriótico. E tu combatias a praga nazi-fascista. A mesma que recorrentemente teima em retornar à Itália. Como hoje, incorporada a figuras lastimáveis como a de Sílvio Berlusconi. Sossega, pois, caro Battisti! Não serás entregue à vendeta dos filhotes de Mussolini. Estás entre amigos. Entre camaradas.

Vais ouvir destoantes acordes em nossos terreiros. Não te apoquentes. Elas são minorias e vêm de setores que costumam usufruir das benesses sociais e materiais que lhes permitem os estados de exceção. São vozes cujas presenças, nos anos de chumbo, cingiam-se a covardes omissões, ou ao apoio velado às usinas de tortura, aos aparatos de sequestro, aos assassinatos e ao exílio de patriotas. Como tu e como nós. São vozes desavergonhadas da submissão dos colonizados, ungidos pelo rodriguiano “complexo de vira-latas”, incrustados em redações, editorias e colunas da grande mídia e nos medíocres bunkers da oposição.

Vozes que reclamam da independência da nossa política externa, aquela que leva a visão pacífica e respeitosa do povo brasileiro para o mundo, sem preconceitos e sem pretensões hegemônicas. Que reclamam de nossas políticas públicas de interesse popular, as que buscam diminuir a concentração de renda e a miséria que os donos dessas vozes produziram. Para eles, são populistas os governos da América Latina que tentam dar cidadania às camadas historicamente injustiçadas. Preferem permanecer como velhas republiquetas de bananas, submissas ao expansionismo de Washington.

Como a Colômbia, cujo governo assassina sistematicamente lideranças populares, permite a expulsão de milhares de camponeses de suas terras e mantém seu poder a custa de permanente financiamento de Washington e histórico vínculo com o tráfico de drogas. E se abre agora para uma perigosa investida armamentista dos EUA na América do Sul, ao ceder seu território para implantação de sete bases militares de alcance continental. Uma séria investida que tenta recuperar antiga hegemonia na Região.

Portanto, nós ainda não os derrotamos, caro Battisti, eles continuam aí, a batalhar pelo atraso. Não vês que são os mesmos que aplaudiram a tentativa de golpe de estado na Venezuela em 2002 e hoje querem justificar o golpe de estado em Honduras? Em ambos os casos, pela deposição de governos democraticamente ungidos. Perigoso precedente para a Democracia na América Latina. Não vês serem os mesmos que deram força às manobras de Israel para tumultuar a visita do presidente Ahmadinejad, a quem pretendem dar lições de democracia? E, por outro lado, estendem o tapete vermelho a Shimon Peres, perfeito representante do terrorismo de estado, o nazisionismo de Israel?

Esses mesmos lacaios do atraso condenam o Irã por enriquecer urânio para fins pacíficos e por seu regime secularmente fechado. Um país que agora tenta uma abertura para o mundo e busca alternativas diante de injustas sanções comerciais unilaterais comandadas pelos EUA. Por outro lado, aplaudem Israel que mantém um gueto em Gaza, despeja bombas sobre milhares de inocentes palestinos, constrói muros e ocupa arbitrariamente o território que não é seu. Único país do Oriente Médio a possuir arsenal nuclear, Israel não o submete, aos acordos internacionais. Protocolo que é exigido ao Irã para enriquecimento de seu urânio.

Não te avexes, caro Battisti! As vozes amigas são muitas. São vozes das convenções internacionais que repelem a barbárie. Vozes dos novos tempos de resgate e de exercício das nossas tradições de país generoso, coerente com os princípios da Democracia e da Liberdade. Esperamos, no entanto, que não desanimes, e que o ensarilhar de tuas armas não signifique o abandono da luta, mas uma pausa para sua retomada, dentro dos limites do teu justo refúgio.

Saiba mais sobre o caso Cesare Battisti

Saiba mais sobre o Irã

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

I N V E J A

Não há como se desvincular a imagem de Fernando Henrique Cardoso das de Carlos Menem e Alberto Fujimori. Em primeiro lugar, pela generosa submissão da troika ao Consenso de Washington, esperta sacação do Mercado para disseminar a cultura do Estado mínimo que nos legou o desmonte tanto irresponsável quanto nebuloso de grande parte do patrimônio nacional. Segundo, pelo alinhamento automático dos seus governos à política expansionista dos EUA, prática herdada das respectivas ditaduras militares.

Não é sem razão, portanto, a reação de CANDIDO MENDES – membro da Academia Brasileira de Letras, da Comissão de Justiça e Paz, do Conselho Internacional de Ciências Sociais da Unesco e secretário-geral da Academia da Latinidade, em artigo publicado pela Folha de S Paulo na última quarta-feira, ante um contraditório artigo do ex-presidente brasileiro, multiplicado pelos jornais do país à véspera do dia dos mortos. Queria FHC tentar tirar da indigência nossa medíocre oposição e parte da grande mídia.

Queria. Pois, como depois se viu, o artigo do ex-presidente, “Para onde vamos”, não passou de uma cínica coletânia de velhos chavões da mesma fonte indigente oposicionista dos últimos tempos. Diz Candido Mendes que o indeciso artigo de FHC vai estimular os eleitores nas próximas eleições a mostrar “para onde não voltamos”, principalmente quando o ex-presidente afirma, cinicamente, “que tudo que é bom no atual governo já veio de antes e que o mal de agora apenas começa”.

Uma sábia observação sociológica de que inveja é atributo dos narcisistas cai bem para o “príncipe dos sociólogos”. A invejável evidência do Brasil no conceito planetário fragilizou a estratégia do ex-presidente, cuja fala (contrariando as oposições e grande parte da mídia) abriu espaço a que as eleições de 2010 sejam radicalmente plebiscitárias, como quer o presidente Lula. Em primeiro plano, a privataria versus “a melhoria social do país e a recuperação do poder do Estado”, como observa Candido Mendes.

Teremos, de um lado, a falta de controle da Nação sobre o petróleo (um generoso regime entreguista de concessões). Do outro, a partilha, o modelo norueguês, que amplia a destinação social imediata dos recursos do subsolo. Nos setores onde o governo dos tucanos foi zero, teremos o PAC, milhares de obras a exibir a presença do Estado na mudança da infraestrutura, exigência do nosso desenvolvimento. E o Bolsa Família, uma política de transferência de renda e cidadania, que na visão de Candido Mendes, “colocou a população de uma Colômbia na nossa economia de mercado”.

“A conduta de Lula na determinação visceral de não ceder a um terceiro mandato, avassaladoramente acolhível, se assim quisesse o presidente, por emenda constitucional”, como entende Candido Mendes, expõe a desavergonhada batalha de FHC para que o Congresso Nacional lhe desse, a custa de muita corrupção, um mandato extra. É puro cinismo, portanto, o ex-presidente dizer que "é mais do que tempo dar um basta ao continuísmo antes que seja tarde". Simbolicamente dito no dia dos mortos.

Candido Mendes percebe ainda que “o embaraço do tucanato em reconhecer o ‘entreguismo’ dos controles públicos durante o seu governo é o mesmo que o alvoroça a comparar o governo Lula ao ‘populismo autoritário peronista”. Populismo, sabemos, é um termo utilizado pelo conservadorismo oligarca contra as políticas públicas de resgate do fosso social que ele próprio secularmente produziu. Populismo real é aquele que essas mesmas elites praticam há séculos para manutenção do poder e da pobreza.

A despeito deles, e de suas falas cheias de ódio e de inveja, o amadurecimento brasileiro, uma nova amplitude e uma nova densidade são o novo patamar que o mundo reconhece em nós de forma crescente. Na semana passada, o presidente Lula recebeu de instituição ligada à família real do Reino Unido, em Londres, importante prêmio por sua contribuição "à estabilidade e à integração na América Latina" e por seu papel na "resolução de crises regionais". Uma significativa (e invejável) premiação ao Brasil.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

O muro na cabeça

O ex-ministro Luiz Carlos Bresser Pereira (Folha de S Paulo desta segunda-feira), quer que “Comemoremos, a queda do Muro de Berlim – ‘o ideal da liberdade se sobrepôs aos ideais da igualdade e da solidariedade’ – mas não nos deixemos enganar pelos radicais, sejam liberais ou socialistas. Estes fizeram revoluções que produziram sofrimentos e não resultaram no socialismo; aqueles se deixaram levar pelo neoliberalismo, promoveram a redução das taxas de crescimento (...) e beneficiaram apenas os 2% mais ricos da população”.

Na mesma Folha, o historiador russo Constantine Pleshakov, radicado nos EUA, diz que “Ao iniciar há 20 anos a derrubada do comunismo, russos e europeus do Leste nada entendiam de livre mercado, que esperavam que funcionasse como um passe de mágica para o consumo. (...) Em poucos anos, essas ilusões desapareceram, porque não é assim que funciona (...) Quando as propriedades estatais foram privatizadas, poucos privilegiados ficaram ricos em meses e o resto da população perdeu participação na riqueza nacional.

Mais pragmático, o historiador britânico Eric Hobsbawm diz que o principal efeito da queda do Muro de Berlim, em 1989, foi a desestabilização da geopolítica mundial em benefício da única superpotência remanescente – os EUA Como consequência, o mundo se tornou mais perigoso, mais inseguro. Já do ponto de vista econômico, Hobsbawm afirma que o pós-1989 levou a um recorde de desigualdade social nos países europeus sob influência da antiga União Soviética. (Folha de S Paulo deste domingo, 08/11).

“‘Muro invísivel’ ainda divide alemães: Para alemães ocidentais fim da barreira representou fardo econômico; Orientais têm saudades do pleno emprego”. Foi como o jornalista Lourival Sant’Anna, enviado especial do Estadão, resumiu a decepção em que se transformou a grande euforia de 20 anos atrás, quando “nada mais seria impossível”. Hoje, são muitos os alemães para quem “a barreira destruída passou a significar uma proteção perdida”. O muro continua vivo no que os alemães chamam de "o Muro na cabeça".

De um lado, os alemães ocidentais a reclamar da maciça transferência de recursos para o lado oriental, em infraestrutura e assistência social, que eles arcam por uma espécie de "imposto solidário”. Por outro lado, pesquisa da revista Der Spiegel mostra que 49% dos alemães orientais concordaram que a antiga "RDA tinha mais lados bons que ruins. Havia alguns problemas, mas a vida era boa.". Para outros 8% "a RDA tinha, na maior parte, coisas boas. A vida lá era mais feliz e melhor que na Alemanha reunificada de hoje".

Outra pesquisa, realizada na ex-RDA, confirma os dados da Der Spiegel: 38% dos alemães orientais consideram-se vencedores da reunificação; 23%, perdedores; e 30% dizem que ela lhes trouxe perdas e ganhos. Ainda segundo Sant’Anna, “jovens alemães orientais desempregados sonham com o ‘pleno emprego’ desfrutado por seus pais. (...) Muitas mães invejam a liberdade que suas mães tiveram de deixar os filhos na creche ou escola e trabalhar o dia inteiro”. Para Anja Weinhold, 33 anos, desempregada, “só não trabalhava quem não queria".

Resumo da ópera: a queda do muro de Berlim, há justos 20 anos, colocou mais uma vez a roda da história da humanidade em movimento. História que opõe um modelo de consumismo, competitividade fratricida e indiferença coletiva aos os velhos sonhos de solidariedade, de emancipação, de democracia. História que mostra que o homem do século XXI (no dizer do experiente jornalista Jânio de Freitas, da Folha) “não desaprendeu a construir muros para separação da humanidade e não aprendeu a demoli-los”.

sábado, 31 de outubro de 2009

MELEQUEOQUE – O Mundo versus EUA, Israel e... Palau

Pelo 18º ano consecutivo, a ONU discute e condena o embargo estadunidense contra Cuba. É a primeira votação sob o governo Barack Obama, que acaba de renovar o bloqueio que sufoca há quase 50 anos a frágil e heróica economia cubana. Nesta quarta-feira (28/10), na Assembleia Geral da ONU, 187 países rejeitaram o embargo e somente Israel e... Palau apoiaram os EUA.

A República de Palau é um pequeno país insular da Micronésia, no Oceano Pacífico, entre os mares das Filipinas a oeste, Indonésia e Papua-Nova Guiné a sul e Estados Federados da Micronésia a leste. Capital: Melequeoque. Apesar de ser nominalmente um país independente, Palau assinou um Tratado de Livre Associação com os Estados Unidos da América (fonte: Wikipédia)

Israel, para quem não sabe: o governo nazisionista no poder, nega água potável e reposição alimentar ao gueto da Faixa de Gaza, hoje criminosamente fatiado por ocupações ilegais de colonos judeus. Mais: Israel não se submete ao Tratado de Não-proliferação nuclear, o que justifica acusações de dois pesos e duas medidas à “comunidade internacional” quando esta quer, por exemplo, condenar o projeto nuclear do Iran.

Segundo Roger Cohen, editor-geral do Herald Tribune (16/10), “Mais de 60 anos após a criação do Estado moderno, Israel ainda não tem fronteiras estabelecidas, não tem Constituição, não tem paz. Nascido de um horror excepcional, o Holocausto, a normalidade tem se mostrado esquiva. A ansiedade dos judeus da diáspora não deu lugar à tranquilidade, mas a outra ansiedade. A fuga dos muros deu origem a novos muros. A psicose da aniquilação não desapareceu, mas adquiriu nova forma”.

Já os Estados Unidos... Pelas projeções otimistas, com base nas “boas intenções” da era Obama, de um lado, e, do outro lado, no irracional estado de permanente beligerância do atual governo de Israel, não nos surpreendamos se no próximo ano nossa manchete for: Israel contra o mundo. Havana desta vez obteve respaldo recorde, uma vez mais, contra embargo. Resultado que confirma a postagem deste boletim, de 31 de outubro do ano passado, sob o título “Estados Unidos, Israel e... Palau contra o mundo”:

"Vocês estão sozinhos, completamente isolados’, disse pouco antes da votação Pérez Roque, dirigindo-se à delegação estadunidense. Em seu discurso, o chanceler cubano disse que ‘sete em cada dez cubanos passaram a vida sob esta política irracional e inútil’. E que ‘o bloqueio é mais velho que Barack Obama e que toda minha geração".

“Cidadãos brasileiros, por exemplo, não podem adquirir um computador portátil da DELL Brasil por meio de crédito se, ao preencher o cadastro, declarar que em tendo oportunidade gostaria de visitar Cuba. A empresa informou ao jornal O Globo que a restrição segue normas de Washington”. “O embargo econômico à Cuba foi instituído pelos Estados Unidos em 1962, três anos após a deposição do ditador Fulgêncio Batista pela Junta Militar Revolucionária cubana. E antes da fracassada invasão da Baía dos Porcos, financiada pelos Estados Unidos”.

domingo, 25 de outubro de 2009

O lado de Judas

Longos anos se passaram para que a Folha de S Paulo admitisse, como admitiu em editorial, nesta sexta-feira, que “gerência técnica, tática de alianças, governabilidade. A política como ‘arte do possível’. Conceitos e lemas desse tipo fixaram-se, ao longo do tempo, como ingredientes típicos da retórica e da prática tucanas”. A afirmação, como se vê, é parte de uma análise bastante retardada em honra da verdade. Essa e muitas outras deixaram de ser ditas em tempo real, para não contrariar interesses do próprio jornal.

No preâmbulo de mais essa manifestação política, o jornal admite que “no governo FHC, o tema da ‘modernização’ do Estado brasileiro nunca representou empecilho para que se fizessem alianças com o que sempre existiu de mais arcaico e oligárquico na política brasileira. Muda o presidente, muda o partido, mas não se altera a tolerância com o patrimonialismo e com o atraso”. E admite que Lula tem razão ao dizer que não se governa no Brasil “fora da realidade política”: “Ninguém diria o contrário”, diz a Folha.

Entretanto, o editorialista cobra do presidente sua promessa de mudar essa realidade política: “A política não é apenas ‘a arte do possível’, como dizia Fernando Henrique Cardoso – mas a arte de ampliar esses limites”, diz o jornal. E coloca nas mãos do núcleo no poder a responsabilidade por uma reforma política, fiscal ou previdenciária, pendentes há décadas. Como se a Folha não soubesse muito bem que cada feudo de poder – econômico, grupal, familiar, político – quer um modelo de reforma que lhe beneficie.

Grupos poderosos, como os do agronegócio, das comunicações, das altas finanças, conseguem até ocupar altos postos de comando nos ministérios da Agricultura e da Comunicação, Banco Central, a garantir a manutenção histórica do patrimonialismo oligárquico e do arcaísmo, ora condenados pela Folha. Ela mesma uma legítima representante desses grupos, pouco ou nada interessados em mudança. A não ser para manutenção dos seus próprios privilégios. Nunca para promover mais democracia.

A reforma que interessa à Folha e à mídia, legítimas representantes das oligarquias, não é a mesma que interessa à sociedade como um todo. Mais do que a reforma agrária, que democratize o acesso à terra, prefere-se a demonização dos movimentos sociais. Mais do que os investimentos em políticas sociais, que elevem o perfil distributivo, melhor condenar os “gastos do governo”. A mídia jamais concordará em discutir um modelo voltado ao direito à comunicação ou à democratização dos meios de comunicação.

(Em face de repetidas demonizações dos movimentos sociais pelos inimigo da reforma agrária, circula pela internet um Manifesto em Defesa do MST (1), subscrito por intelectuais, movimentos sociais, personalidades. O manifesto mostra os interesses por trás da desestruturação dos movimentos pela reforma agrária no Brasil. Como o agronegócio, que quer impedir a revisão dos índices de produtividade agrícola, que estabelece as bases da produtividade da terra no Brasil e favorece a reforma agrária).

Em vez de preservar o meio-ambiente, o conservadorismo opta por ampliar a fronteira agrícola, o desmatamento. Mais do que discutir a violência ligada ao trafico de drogas e ao alcoolismo, melhor aliar-se aos anunciantes de bebidas. Mais que uma reforma previdenciária que garanta justos direitos de cobertura, prefere-se mitificar o “déficit da previdência”. Reforçando à avidez dos grandes bancos que bancam a previdência privada. A depender da Folha, pois, longe está a ampliação da “arte do possível”.

É hilário, como se vê, o movimento da mídia brasileira e dos partidos de oposição a condenar o pragmatismo do governo diante da realidade brasileira que transforma a política como a “arte do possível”, que todos praticaram, sem o menor interesse na “arte de ampliar esses limites”. Todos os políticos hoje levados à execração pública foram sempre aliados e úteis aos que hoje os querem condenar. A Folha de S Paulo, a mídia brasileira, deve à sociedade uma análise, isenta de hipocrisia, sobre a fisiologia e o atraso em nossa política.

(1) adesões podem ser feitas no endereço: http://www.petitiononline.com/boit1995/petition.html

quarta-feira, 14 de outubro de 2009


“Opinião partidarizada, travestida de jornalismo”
(Anita Dunn, Diretora de Comunicação da Casa Branca)

“... temos de ser mais enérgicos, em vez de sempre dar explicações, fugir do debate ou só nos defender" – “A imprensa vive de falar. (...) por isso, a imprensa sempre pode usar qualquer mínima coisa e converter em notícia, mesmo que, para isso, os fatos sejam distorcidos. Por que precisamos aceitar isso?". Disse, na semana passada, em rede nacional, Anita Dunn, Diretora de Comunicação da Casa Branca, acusando a Rede Fox News de funcionar como uma organização política, “apêndice do Partido Republicano”.

A paciência da Casa Branca começou a desabar em setembro, quando o New York Times publicou, em primeira página, que há um "crescimento nas pesquisas de pais e mães preocupados com o conteúdo do discurso de Obama para crianças e adolescentes" O estranho é que essa publicação ocorreu antes mesmo de o jornal, e os “pais e mães” conhecerem o teor do correto discurso presidencial. Some-se o caso do Washington Post, a distorcer legítimas nomeações de Obama para a Administração Federal.

"Trata-se de opinião partidarizada, travestida de noticiário e de jornalismo", diz Anita Dunn. Esse “modismo”, a sensibilidade política de Gramsci credita ao conservadorismo, cada vez que se torna fraco, na luta pelo poder. É quando a imprensa assume o comando da agenda oposicionista e ocupa seu lugar. Muitas vezes, com um propósito golpista implícito. Ou não é que vem acontecendo no Brasil? Não é diferente o processo na Argentina. Quem, senão a mídia, comandou o golpe contra Chávez em 2002?

O caso da Casa Branca é mais fácil de resolver porque nos EUA, como nos principais países da Europa, não existe a esculhambação latina da propriedade múltipla dos meios de comunicação, nem se convive com tal concentração da propriedade televisiva. É justamente o que vem corrigir a nova Lei Audiovisual de Cristina Kirchner. Recém aprovada por ampla maioria no parlamento argentino, com apoio dos sindicatos dos jornalistas, ela inibirá o monopólio que transforma a Argentina em feudo do Grupo Clarín.

A lei prevê que as organizações da sociedade civil, não-governamentais, terão acesso a um terço do espaço audiovisual, igual que as mídias públicas e privadas. Ela impede também uma mesma empresa de possuir um canal aberto e um canal a cabo na mesma região. É por isso que a Lei Cristina é tratada pela mídia brasileira como um “instrumento de força contra a liberdade de expressão, para prejudicar o Clarín”. Uma defesa corporativa, pois não é segredo que também há muito o que se consertar por aqui.

Por aqui, as quatro grandes corporações – Globo, Veja, Estado e Folha – não conseguem criatividade necessária para oferecer uma eventual posição política favorável ou mesmo tolerante com o governo do “lulo-petismo”. Mas, não se pense que a reação brasileira ficará limitada à “azia” de Lula, causada pela itura dos nossos jornais. Também não será pela não renovação do domínio concessionário, ao estilo Chávez. Uma Lei Cristina, no Brasil, virá como resultado de amplo debate nacional do setor. (*)

(*) Os debates já começaram a se realizar nos diversos Estados, como fase preparatória para a 1ª Conferência Nacional de Comunicação – Confecom – a ser realizada em 15 a 17 de dezembro em Brasília DF.


terça-feira, 6 de outubro de 2009

Ombudsman reconhece prática panfletária na Folha de S Paulo

O ombudsman da Folha tem por atribuição “criticar o jornal sob a perspectiva dos leitores”. Assim, Carlos Eduardo Lins da Silva pôde, neste domingo (4/10), analisar a edição da terça-feira anterior e concluir: “no terreno da opinião, registrou-se na edição de terça incômoda unanimidade na página A2, em que todas as colunas e o editorial adotavam ponto de vista único sobre o papel do Brasil na crise (hondurenha). Em benefício do leitor e em nome da diversidade, outras posições precisam aparecer no jornal”.

De fato, naquela terça, a Folha abriu a página A2 com a acusação de que o “Brasil se intromete mais do que deve em Honduras”. O editorial desfilou uma série de comparações descontextualizadas com antigas ações do Itamaraty em relação a Cuba e Irã e terminou por classificar como “tênue de ilegitimidade democrática” o regime imposto aos hondurenhos pela força. O dono do jornal repete, aqui, a figura da “ditabranda”, afago com que a Folha brindou, meses atrás, a cruel ditadura brasileira, de triste memória.

Na mesma linha ideológica, a coluna do jornalista Clóvis Rossi abriu suas baterias contra o que denomina covardia e indecência o presidente deposto convocar, a partir da embaixada brasileira, a resistência da população hondurenha contra os golpistas no poder. Afirma Rossi que “não há no drama hondurenho (...) um só personagem que pessoas decentes gostariam de convidar para o aniversário dos filhos”. Afirmação é grosseira e insustentável diante de reiteradas manifestações da comunidade internacional.

Ainda na página A2, Eliane Cantanhêde, cuja coluna é campeã de citações contra o governo Lula, destilou seu veneno de indisfarçável militante tucana, acusando o Brasil de “meter os pés, as mãos e a embaixada em Tegucigalpa na defesa apaixonada de um dos lados, o do presidente deposto”. A surpresa da página analisada pelo ombudsman da Folha ficou por conta de Carlos Heitor Cony, que comparou o democrático acolhimento brasileiro com ações truculentas estadunidenses mundo afora.

Será que a conclusão do jornalista Lins da Silva configura uma surpresa? Será que a diversidade “em benefício do leitor” que ele cobra da Folha é vista em O Globo? Na Veja, ou nos jornalões da TV? Ela tem sido vista nas sucessivas edições diárias da própria Folha? Atentemos ao que têm dito os editoriais da nossa mídia em relação à escolha do Rio para sediar os jogos, ao ganho de status do G20 no cenário mundial, à diminuição do risco de investimentos no Brasil, ao abrandamento da crise mundial por aqui.

Seja como for, o ombudsman acertou na mosca: outras posições deveriam ser estimuladas pelo próprio jornal, em nome da diversidade e principalmente em benefício do leitor. Caso contrário, não se detém tendências de falência da credibilidade do jornalismo que campeiam mundo afora. Um efeito bumerangue resultante das distorções do conceito de liberdade de imprensa. A liberdade que não pode ser separada do direito constitucional universal do cidadão à informação.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

D e s l e a l d a d e

"Cachorro mordido por cobra tem medo até de linguiça". A frase de Marco Aurélio Garcia, assessor da Presidência para Assuntos Internacionais, embora pareça chula, dá a dimensão exata do que se pode esperar de sete bases militares ianques encravadas em nosso continente. A justificativa alegada pela Colômbia e pelos EUA, o combate ao narcotráfico, esbarra nas estreitas relações do governo da Colômbia com produtores e traficantes de drogas.

É bom lembrar que o Obama candidato, atendendo aos apelos de centrais sindicais dos EUA, barrou a entrada da Colômbia na Alca. Motivo: os assassinatos sistemáticos de lideranças sindicais e populares pelo governo de Álvaro Uribe. E mais: a aliança do governo colombiano com forças paramilitares e narcotraficantes cuja representação parlamentar de mais de 60 congressistas foi processada e/ou trancafiada pela Suprema Corte colombiana.

O cenário que desponta nesses acordos militares reproduz a estrutura consagrada no outro lado do mundo, onde o Império se associa militar e politicamente a Israel, um estado belicoso por excelência, para fazer frente ao “terrorismo” palestino. Aqui, o Império é o mesmo, e o sócio, por sua natureza nazi-fascista, não é diferente. Se não há as famosas armas de destruição em massa, servem os lança-foguetes suecos em mãos das Farc.

É, portanto, feliz e responsável a posição brasileira de não aceitar a versão dos Estados Unidos, por seu assessor de Segurança Nacional, general Jim Jones, sobre as bases militares que o país quer usar na Colômbia. Trata-se, é bom estarmos alerta, do país de perfil histórico mais agressivo e arbitrário que se conhece e de maior insubmissão às decisões de organizações multilaterais como a Organização das Nações Unidas. Pergunte-se ao Iraque.

Onde os Estados Unidos põem as botas, vidas, culturas, tradições são destroçadas em nome do ultrapassado “american way of life”, ou da falsa superioridade da cultura ocidental cristã. Por isso, o povo colombiano e da nossa América não pode deixar de temer que as bases de Malambo, Palanquero, Apiay, Tolemaida, Larandia, Cartagena e Bahía Málaga sejam transformadas em
uma grande Guantánamo espalhada pelas terras da Colômbia.

O consenso condenatório dos governos sul-americanos a essa suspeita parceria tem base em dossiê divulgado em abril, em seminário militar. No documento, a Força Aérea dos EUA defende o uso de uma base no centro da Colômbia como plataforma de longo alcance. O fato preocupa por contradizer a versão “franciscana” dos dois paises envolvidos de que não há objetivos estratégicos para aumentar a
presença intimidativa no continente.

Razão tem o ex-presidente cubano Fidel Castro ao qualificar dedeslealdadeo acordo de Uribe. Para Fidel, é “um insulto à inteligência” do povo latino-americano os argumentos esgrimidos por Colômbia e EUA, pois “o verdadeiro objetivo é o controle dos recursos econômicos, o domínio dos mercados e a luta contra as mudanças sociais”. Senão, para que tanto navio da IV Frota e tanto avião moderno de combate, como pergunta o velho líder.

domingo, 2 de agosto de 2009

Um bode na sala

Outros trinta e nove senadores maculam, igualmente ao Sarney, suas biografias. Alguns são alvos de inquéritos autorizados pelo Supremo Tribunal Federal, réus em ações penais e/ou envolvimento com nepotismo e atos secretos nos últimos anos. Este é o levantamento feito pelo jornal O Estado de S. Paulo que, seletivamente, reduziu sua pesquisa a apenas 30 membros do Conselho de Ética do Senado.

Explicando: cerca de quarenta senadores foram amplamente citados (depois, convenientemente esquecidos) por toda a mídia nacional no início da crise do Senado, hoje crise do Sarney. Todos envolvidos com os atos secretos que enlameiam o Senado. Todos igualmente condenáveis por terem praticados atos de igual gravidade. Se menos praticaram, é por que tiveram menos poder e oportunidade da prática malsã.

O senador Cristovam Buarque tem ato secreto nomeando a esposa para cargo público; Artur Virgilio confessou haver bancado, com patrocínio (“meu, seu, nosso”, como costuma dizer a mídia) do Senado, um comensal do seu gabinete por quase dois anos na Espanha; Virgilio também usou indevidamente dez mil dólares para tratamento de pessoa da sua família em Paris; Demóstenes Torres, Heráclito Fortes e Eliseu Resende têm seus nomes em boletins sigilosos ou casos de nepotismo.

Efraim Morais deveria responder por 52 servidores do Senado que batem ponto na belíssima e prazerosa cidade de João Pessoa e por ordenar pagamentos de horas extras a servidores do seu gabinete em pleno gozo de recesso parlamentar. Tasso Jereissati acha normal fretar jatinhos pelas burras do Senado. Outro tucano, Flexa Ribeiro, apoderou-se de uma rua (!!!) na prazerosa e belíssima Belém para um projeto imobiliário privado.

Quase todos têm usado indevidamente verbas indenizatórias, como o senador Agripino Maia as usou para pagamento de condomínio em morada de alto luxo em praia do Nordeste. É o mesmo que pagar com cartões corporativos despesas com tapioca ministerial ou com um pênis de borracha para dona Ruth Cardoso usar no seu projeto social. (fato que fez nossa mídia encerrar o assunto da crise que criou para os cartões corporativos).

É diferente nomear a esposa ou afilhado de nomear o namorado da neta? É menos ético o ato antiético praticado em menor quantidade? Pensando bem: Lula não teria razão para titular essa turma de pizzaiolos? Pois bem: Com a caça ao Sarney, prepara-se uma pizza gigante no Senado, com ajuda da grande imprensa. Assim, serão preservados de investigação os senadores que costumam afagar a mídia. Tira-se o bode da sala, salva-se a República.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Retrocesso

O golpe de Honduras e a mídia brasileira

“O presidente violentamente sequestrado durante a madrugada por militares encapuzados, seguindo ao pé da letra o que indica o Manual de Operações da CIA e a Escola das América para os esquadrões da morte; uma carta de renúncia apócrifa que foi divulgada a fim de enganar e desmobilizar a população — e que foi de imediato retransmitida para todo o mundo pela rede CNN, sem confirmar previamente a veracidade da notícia;

a reação do povo que, consciente da manobra, sai às ruas para deter os tanques e os veículos do Exército com as mãos limpas e exigir o retorno de Zelaya à presidência; o corte da energia elétrica para impedir o funcionamento da rádio e da televisão e semear a confusão e o desânimo.” Foi assim que
Atilio A. Boron, Diretor do Programa Latino-americano de Educação a Distancia em Ciências Sociais, de Buenos Aires, descreveu o golpe hondurenho.

“O que aconteceu em Honduras põe em evidência a resistência que provoca nas estruturas tradicionais de poder qualquer tentativa de aprofundar a vida democrática”, disse mais Boron, lembrando que é o mesmo modelo do golpe de 2002 contra Chávez, na Venezuela, e da abortada tentativa contra Evo Morales, no ano passado. Devemos acrescentar que há desejos latentes muito semelhantes aqui no Brasil, na Argentina, no Equador...

A reação dessas estruturas tradicionais, de que fala Boron, pode ser conferida hoje (30/6) na fala de Miriam Leitão, na Rede Globo, e em editorial da Folha de S Paulo. Ao tempo em que condenam o golpe, eles também procuram justificá-lo pela tentativa do presidente Zelaya de modificar a constituição hondurenha, pela via da consulta popular. “Os dois lados erraram”, diz Miriam, “ao estilo Chávez”, completa a Folha. Fica, pois, justificado o golpe.

Não se vê a nossa mídia preocupada em informar os conteúdos de modernização dos instrumentos democráticos que encerram essas propostas de revisão constitucional. Nem o caráter amplo de representatividade dessas consultas. As informações pinçam apenas um dos itens da proposta, a possibilidade de reeleição do presidente, para condenar o texto que desconhecem. Os leitores, ouvintes, expectadores merecem mais respeito.

“É a fórmula consagrada pelo venezuelano Hugo Chávez”, diz a Folha. Pode ser. Mas, ela ganhou força nos anos do primeiro mandato de FHC, sem recorrer à via democrática de uma consulta popular. Muito pior: contando com a mais desbragada compra de votos de parlamentares já havida no Congresso Nacional, a inviabilizar qualquer reação oposicionista e a facilitar a mobilização das estruturas tradicionais, sob total silêncio da mídia.

O governo gasta muito e gasta mal?

"A indústria financeira dos países desenvolvidos recebeu em um ano quase dez vezes mais recursos do que todos os países pobres em quase meio século, segundo análise feita por especialistas da Campanha da ONU sobre as Metas do Milênio". É o que o experiente jornalista Clóvis Rossi, da Folha de S Paulo (26/6), diz ter lido no O Globo desta semana, na certa um texto perdido entre muitos que cobriam os suspeitos tumultos do Irã.

Em números, US$ 2 trilhões em 49 anos para os pobres e US$ 18 trilhões nos últimos 12 meses para os bancos. Para estes, garante-se a volta triunfante dos bônus milionários sem controle. Para aqueles, o aumento da fome crônica. E, segundo Rossi, a FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) garante alimentar todos os famintos do mundo com apenas 1% do dinheiro dado aos “brancos de olhos azuis”.

A incompetência da humanidade em conter o avanço das desigualdades elevou o número dos cronicamente famintos pela primeira vez acima de 1 bilhão ( mais de 5 Brasis). São números de abril deste ano do jornal britânico
Financial Times que, equivocadamente, atribui o fato à persistência da crise dos alimentos do ano passado agravada com o desequilíbrio da economia mundial. E não à falta de investimento social.

“A situação atual lembra mais o aumento lento e impiedoso de uma maré, gradualmente arrastando mais e mais pessoas para as fileiras dos desnutridos”, diz o Financial Times de 7 de abril de 2009. Como se esse avanço gradual e incontido da fome fosse um fenômeno recente, atual. Como se o lucro – a base de sustentação do sistema capitalista – fosse fruto do cultivo da terra e não da eterna e exploração do homem pelo homem.

Na contramão da conveniente justificativa do Financial Times para o aumento da fome crônica no mundo estão significativos estudos do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) sobre a pobreza no Brasil, como divulgou a agência
Reuters (19/5). Pelos dados, 316 mil brasileiros foram alçados da linha da pobreza nos últimos 6 meses. São números pequenos, porém significativos por se tratar dos meses mais fortes da atual crise.

Os 316 mil vêm engrossar os mais de 30 milhões de brasileiros que saíram do andar de baixo nos últimos anos. Resultado que em nada atrapalha os bons resultados nas contas públicas – índices melhores que os exigidos pela União Europeia de seus membros, conforme dados do Correio Braziliense deste domingo (28/6). E reflete investimentos em políticas sociais que a mídia e políticos de oposição insistem serem “mau gasto do governo”.
O BOLETIM H S LIBERAL ESTARÁ DE FÉRIAS DURANTE O MÊS DE JULHO

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Laboratório iraniano da CIA


Operação Ajax

A notícia de uma suposta fraude eleitoral espalhou-se em Teerã como um rastilho de pólvora e levou às ruas os partidários do aiatolá Rafsanjani contra os do aiatolá Khamenei. Este caos foi ardilosamente tramado pela CIA (1) e resulta da inundação de mensagens SMS (2) contraditórias entre os iranianos. O analista político Thierry Meyssan relata de Paris essa nova experiência de guerra psicológica no Iran.

Não é a primeira vez, lembra Meyssan, que a CIA transforma o Iran em campo de experimentação de métodos inovadores de subversão. Agora tem uma nova arma: o domínio dos telefones móveis. Em março de 2000 a Secretária de Estado Madeleine Albright admitiu que em 1953 a mudança de regime no Iran teve o patrocínio do governo Eisenhower. Fato também reconhecido por Obama semanas atrás no Cairo.

O fato referido por Albright e por Obama foi a Operação Ajax, tramada pela CIA com apoio britânico, que resultou na destituição do governo do nacionalista do primeiro-ministro Mohammad Mossadegh que, com a ajuda do aiatolá Abou Kachani, havia nacionalizado os recursos petrolíferos do Iran. Na operação, a CIA forja um cenário que simula um levante popular quando se trata de uma operação bem planejada e secreta.

Desta vez, não foi diferente. Após a reeleição de Mahmoud Ahmadinejad, por previsível maioria, vastas manifestações opõem nas ruas de Teerã os partidários de Ahmadinejad e do aiatolá Khamenei, de um lado, aos partidários do candidato perdedor Hossein Mousavi e do ex-presidente aiatolá Rafsanjani, do outro. O fato traduz uma profunda divisão entre ampla maioria proletária nacionalista e uma pequena e média burguesia pró-ocidental.

Não é sem razão o apoio ostensivo dos EUA, França, Reino Unido e da grande imprensa ocidental, a “comunidade internacional”, à nova Operação Ájax que tenta pesar nos acontecimentos para remover o presidente reeleito e tentar acabar com a revolução islâmica. Uma interferência nos assuntos internos de um país soberano como não se viu nem de longe quando do massacre de milhares de palestinos indefesos na Faixa de Gaza pelo exército de Israel.

Pela rede de imprensa não alinhada VoltaireNet.org o leitor poderá ler inteiro teor do artigo de Thierry Meyssan sob o título “De Mossadegh a Ahmadinejad, a CIA e o laboratório iraniano”. O analista internacional demonstra a eficácia do SMS, moderno e prático instrumental de comunicação; como ele vem sendo utilizado na ocupação do Iraque, Afeganistão e Paquistão. E como a CIA acaba de aplicá-lo no processo iraniano.

(1) Central Intelligence Agency (CIA), em português Agência Central de Inteligência, é um serviço de inteligência (serviço de informações) dos Estados Unidos da América.

(2) Serviço de Mensagens Curtas ou Short Message Service (SMS) é um serviço disponível em telefones celulares digitais que permite o envio de mensagens curtas entre estes equipamentos e outros dispositivos de mão ou mesmo telefones fixos.


A coisa Berlusconi (*)

“Não vejo que outro nome lhe poderia dar. Uma coisa perigosamente parecida a um ser humano, uma coisa que dá festas, organiza orgias e manda em um país chamado Itália. Essa coisa, essa enfermidade, esse vírus ameaça ser a causa da morte moral do país de Verdi se um vômito profundo não consegue arrancá-lo da consciência dos italianos antes que o veneno acabe corroendo as veias e destroçando o coração de uma das mais ricas culturas europeias”.

“Os valores básicos da convivência humana são pisoteados todos os dias pelas patas viscosas da coisa Berlusconi que, entre seus múltiplos talentos, tem uma habilidade funambulesca (excêntrica, extravagante) para abusar das palavras, pervertendo-lhes a intenção e o sentido, como no caso do “Pólo da Liberdade”, que assim se chama o partido com que assaltou o poder”.

“Chamei delinquente a esta coisa e não me arrependo. Por razões de natureza semântica e social que outros poderão explicar melhor que eu, o termo delinquente tem na Itália uma carga negativa muito mais forte que em qualquer outro idioma falado na Europa. Foi para traduzir de forma clara e contundente o que penso da coisa Berlusconi que utilizei o termo na acepção (sentido) que a língua de Dante lhe vem dando habitualmente, embora seja mais do que duvidoso que Dante o tenha utilizado alguma vez”.

“Delinquência, no meu português, significa, de acordo com os dicionários e a prática corrente da comunicação, ‘ato de cometer delitos, desobedecer a leis ou a padrões morais’. A definição assenta na coisa Berlusconi sem uma prega, sem uma ruga, a ponto de se parecer mais a uma segunda pele que à roupa que se põe em cima”.

“Há anos a coisa Berlusconi vem cometendo delitos de variável mas sempre demonstrada gravidade. Para cúmulo, não só tem desobedecido a leis como, pior ainda, as tem mandado fabricar para salvaguarda dos seus interesses públicos e privados, de político, empresário e acompanhante de menores, e quanto aos padrões morais, nem vale a pena falar, não há quem não saiba em Itália e no mundo que a coisa Berlusconi há muito tempo que caiu na mais completa abjeção (baixeza, aviltamento, degradação)”.

“Este é o primeiro-ministro italiano, esta é a coisa que o povo italiano por duas vezes elegeu para que lhe servisse de modelo, este é o caminho da ruína para onde estão a ser arrastados os valores de liberdade e dignidade que impregnaram a música de Verdi e a ação política de Garibaldi, que fizeram da Itália do século XIX, durante a luta pela unificação, um guia espiritual da Europa e dos europeus. É isso que a coisa Berlusconi quer lançar para a cesta de lixo da História. Permitirão os italianos?”

(*) Texto do escritor português JOSÉ SARAMAGO, Nobel de Literatura, divulgado no jornal espanhol El País do último dia 6 de junho.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Perdas e danos



Estragos na Petrobrás

Estragos produzidos na Petrobrás, pelo governo FHC, visando desnacionalizá-la”. Foi como o presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobras (AEPET), Fernando Siqueira, descreveu as ações contra o Sistema Petrobrás nos anos do príncipe das privatizações. O artigo foi publicado no site da AEPET em abril/2009 quando os tucanos, por falta de discurso político, criaram uma CPI contra a Petrobrás. Em resumo:

As ações deletérias começaram quando FHC, ainda ministro, fez um corte de 52% no orçamento da Petrobrás previsto para o ano de 1994, sem nenhuma justificativa técnica. Prosseguiram com manipulações para menor da estrutura de preços: desvio de 3 bilhões de dólares anuais para o cartel internacional. Em 1995, a proibição de informações de estatais ante o Congresso Nacional facilitou as manipulações da imprensa privatista. (...)

Também em 1995, FHC deflagrou o contrato e a construção do Gasoduto Bolívia-Brasil, o pior contrato que a Petrobrás assinou em sua história. Atendeu aos interesses das estrangeiras Enron e Repsol, donas do gás da Bolívia. Para isso, suspendeu a construção de 15 hidrelétricas e provocou o “apagão” do setor no Brasil. Um contrato totalmente prejudicial aos interesses dos governos do Brasil e da Bolívia. (...)

Em 1995, o governo tentou desmoralizar o movimento sindical após 30 dias de greve, reprimida com tropas do Exército. Tentativa de calar a oposição às privatizações. No mesmo ano, cinco alterações profundas na Constituição incluíam o fim do monopólio da Estatal. Custo para o Congresso Nacional: barganha política, liberação de emendas, chantagens e compra de votos. Em 1996, outras manobras ampliam as ações privatistas. (...)

Em 1997, FHC criou a Agência Nacional do Petróleo e nomeou o genro, David Zylberstajn, que havia se notabilizado no governo de São Paulo pela desnacionalização de empresas de energia por preços irrisórios. Na sua posse, bradou no auditório repleto de estrangeiros: “O petróleo agora é vosso”. E passou a ser, como provam os generosos leilões de blocos de exploração cedidos à exploração do cartel internacional. (...)


1998, a Petrobrás é impedida pelo governo FHC de obter empréstimos baratos (6% ao ano) no exterior para tocar seus projetos, e de emitir debêntures que visavam à obtenção de recursos para os seus investimentos. No mesmo ano, FHC cria o REPETRO que libera as empresas estrangeiras do pagamento de impostos pelos seus produtos importados. Mas sem, contudo, dar a contrapartida às empresas nacionais. (...)

Isto, somado à abertura do mercado nacional iniciada por Fernando Collor, liquidou as 5.000 empresas fornecedoras de equipamentos para a Petrobrás, gerando desemprego e perda de tecnologias brutais para o País. A abertura do capital da Petrobrás à bolsa de Nova York resultou na desnacionalização de 30% das ações da empresa, vendidas por preços irrisórios (cerca de 10% do valor, como na venda/doação da Vale do Rio Doce). (...)

Um blog revolucionário

O movimento da mídia e de políticos da oposição em favor da CPI da Petrobrás não é somente uma manobra política oportunista, eleitoreira (por falta de um programa eleitoral para enfrentar o crescimento da aprovação ao governo). Também não é tão só uma jogada política de grupos de interesses que usa um senado por demais desmoralizado para tentar reaver antigos privilégios da grande empresa nacional.

É tudo isso, também, e muito mais. A CPI da Petrobrás é uma manobra urdida nos mesmos porões escusos da era FHC. O objetivo é tentar fragilizar a Estatal para desviar o foco das atuais discussões em torno de um novo marco legal que favorece o retorno do monopólio estatal sobre os combustíveis. Por que? A Petrobrás é, hoje, a quarta maior empresa do setor no mundo. É a primeira de maior credibilidade internacional.

Mais ainda: a Petrobrás é a única empresa do setor, em plena crise mundial, a manter seu cronograma de investimentos. Uma CPI, no entanto, pode ser prejudicial aos interesses da empresa e do próprio país, principalmente porque o sistema Petrobrás envolve amplos e diversos interesses corporativos. E, pelas manifestações prévias, teremos um festival de pirotecnia, bem ao gosto da mídia e políticos da oposição.

Para tentar barrar o comportamento habitualmente irresponsável da manipulação midiática e oposicionista no processo da CPI, a Petrobrás resolveu inovar: passará a dispor ao público todas as informações passadas à imprensa. Dessa forma, o leitor poderá conhecer as respostas da Petrobrás que a mídia e os políticos desprezam ou distorcem porque não atendem aos interesses de suas argumentações e pirotecnias.

Diante do revolucionário blog da Petrobrás, FATOS E DADOS (*) (inaugurado neste sábado, 6/06, e já obtendo quase 100 mil acessos), iram-se os principais jornais do país. Por que? Porque passam a perder o monopólio da informação e, consequentemente, o poder sobre os leitores. Porque permite aos leitores identificar o processo de manipulação com que usualmente se abusa das suas confianças e consciências críticas.

“A empresa tem o direito de se acautelar, através das informações que difunde no blog, contra as distorções em que os meios de comunicação têm incorrido, como a própria ABI registrou em matéria publicada da edição de 31 de maio de um dos jornais que agora se insurgem contra o blog da empresa”. É o que diz em carta a Associação Brasileira de Imprensa, que vê na reação dos jornais “inegável cunho político”.

(*) Leia aqui o blog Fatos e Dados: http://petrobrasfatosedados.wordpress.com/

sábado, 30 de maio de 2009

Ligações perigosas

Álvaro Uribe, presidente da Colômbia


À semelhança da Gestapo

" – Boa tarde, me chamo Rodrigo Rosenberg Manzano; se você está vendo ou ouvindo esta mensagem é porque fui assassinado. Foi mesmo, mas esse respeitado advogado deixou registrado no vídeo o nome dos assassinos: o presidente da República, Álvaro Colón, sua mulher e um de seus ministros, tudo, segundo Rosenberg, para encobrir irregularidades em um banco público e ligações com o crime organizado”.

Assim relatou o jornalista Clóvis Rossi na Folha de S Paulo nesta sexta-feira, 29/5, não sem antes se incomodar pelo fato de a mídia brasileira tratar pouco da atual crise guatemalense. Não sem lhe parecer “evidente que o crime organizado estendeu seus tentáculos à política e ao aparelho de Estado, como já o havia feito na Colômbia e, agora, no México”. Assuntos completamente alheios aos brasileiros, por conta da mídia.

Colonizada, a nossa imprensa se “tranquiliza”, pelo fato de Colón afirmar que “o vídeo era parte de uma conspiração para desestabilizar seu governo”. Claro, claríssimo! Na Colômbia só pode ser parte da estratégia midiática das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, FARC. No México, onde operações do Exército e da Polícia Federal prenderam quase trinta prefeitos, “excesso de zelo” dos que combatem o narcotráfico.

Errado. Esses fatos, principalmente no que se refere à mídia, não deveriam surpreender a quem, como Rossi, sabe das entrelinhas do poder da nossa imprensa e da imprensa internacional. Veja-se o caso dos testes nucleares da Coréia do Norte: um corre-corre da “comunidade internacional” que nem de longe foi visto quando – mesmo proibidos por acordos multilaterais – a França, o Paquistão e a Índia pipocaram seus artefatos letais.

Nem pelo fato de estar tão perto de nós, a Colômbia incomoda os donos da notícia. Ali, Jorge Noguera, ex-diretor do DAS (principal agência de inteligência colombiana), homem de confiança do presidente Uribe Vélez, será julgado pela Corte Suprema de Justiça pelos assassinatos de sindicalistas, políticos da oposição e militantes de direitos humanos, que denunciaram o pacto entre o para-militarismo e a cúpula do poder.

As informações são da Agência de Notícias Nova Colômbia – ANNCOL – que, ao mesmo tempo, denunciou a participação do procurador geral, Alejandro Ordóñez, e da grande imprensa nacional, no processo de manobras de ordens jurídica e midiática para ocultar o terrorismo de estado. Fato que preocupa tanto à oposição interna quanto instituições internacionais, como a Organização Internacional do Trabalho, OIT.

À semelhança da Gestapo, polícia política hitlerista, o DAS uribista prepara listas de opositores a serem eliminados com base em espionagem ilegal que atinge quase todos os setores sociais da Colômbia. O terror do governo Uribe pouco a pouco preocupa e horroriza instituições humanitárias do mundo inteiro, por isso o interesse da ONU como de múltiplas associações de advogados em acompanhar de perto o processo colombiano.

Somente o leitor suficientemente forte deve abrir o link abaixo. Uma das cenas do que hoje acontece na Colômbia.

http://anncol-brasil.blogspot.com/2009/05/gestapo-colombiana.html

Tão perto de nós, tão longe da nossa imprensa.

“Um dos mais poderosos chefes do narcotráfico na Colômbia afirmou ter financiado a campanha eleitoral do presidente colombiano, Álvaro Uribe, alegando que era a única maneira de livrar o país da "ameaça comunista". Diego Murillo, conhecido como "Don Berna", foi condenado na quarta-feira por uma corte dos Estados Unidos a 31 anos de prisão e ao pagamento de US$ 4 milhões em multas pelo crime de narcotráfico”.

É o que reportou a BBC Brasil em 23/04/2009. E mais: “Após ser condenado, ‘Don Berna’ disse que fez campanha a favor de Uribe e que vendia drogas ‘para ajudar a seu povo’. ‘O acusado apoiou a eleição do presidente Uribe em 2002, doou grandes quantidades de dinheiro à sua campanha, fez campanha a seu favor (...) porque acreditava que a paz era importante’, disse Margaret Shalley, advogada de Murillo’”.

No começo deste mês de maio, a senadora colombiana Piedad Córdoba esteve no Brasil a convite do Senado, que logo descartou sua audiência conforme havia aprovado. É que se descobriu a tempo que a senadora não viria falar mal das FARC, mas sim do governo Uribe e de suas relações com os paramilitares e narcotraficantes. E das cerca de 70 prisões de parlamentares da base de apoio a Uribe, sustentáculos do crime na Colômbia.

O governo nega tanto o apoio de “Don Berna” quanto suas relações com os grupos paramilitares, responsáveis por milhares de assassinatos e outros crimes relacionados com o narcotráfico. Os grupos foram criados em 1980 com o financiamento de líderes de direita e de latifundiários, sob o pretexto de combater as guerrilhas. Eles também expulsaram milhares de camponeses e se apoderaram de suas pequenas propriedades.

No momento, congressistas governistas tentam aprovar uma reforma constitucional e um projeto de referendo para aprovar a candidatura de Uribe a um terceiro mandato presidencial. Tarefa difícil face ao número de parlamentares uribistas atrás das grades. Como os senadores Zulema Jattin e Jaime Alberto Llano, presos no último dia 11/5, acusados vínculos com grupos paramilitares de extrema-direita, segundo a BBC Brasil.

Também foi preso o senador Mario Uribe, primo e chefe do partido do presidente. Ele é mais um membro da “parapolítica”, grupo de congressistas da base do governo. Todos citados por chefes paramilitares das Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC), como “Don Berna” e Salvatore Mancuso. Todos acusados de fazerem acordos com os paramilitares e de receberem deles financiamento e apoio logístico para suas campanhas políticas.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Nazisionismo?


Projeto imobiliário em terras palestinas usurpadas fulmina a Paz.

“Há anos Israel promete que não haverá novas construções em terras expropriadas dos palestinos na Cisjordânia. O presidente Shimon Peres reiterou essa promessa recentemente ao primeiro-ministro tcheco, Mirek Topolanek, atual ocupante da presidência da União Europeia. Topolanek, em consequência, prometeu trabalhar para melhorar as (esgarçadas) relações entre Israel e a Europa”.

A informação acima é de Daphna Golan, professor de direito da Universidade Hebraica de Jerusalém. Segundo Golan, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu certamente iria repetir a Barack Obama mentiras iguais. (Leia íntegra no jornal Haaretz.com, de Israel, de 5/4). A despeito das promessas, os jornais de Jerusalém continuam a oferecer com apoio oficial, vantagens para quem quiser investir nas terras palestinas usurpadas.

O tom entre Israel e Europa tornou-se mais ríspido, conforme analisa Bettina Marx, do jornal alemão Deutsche Welle, de 08/5: “Ministro israelense (das Relações Exteriores, Avigdor Lieberman) é recebido com frieza em sua primeira viagem diplomática à Europa. Se Israel não quer solução justa para o Oriente Médio, Europa deveria repensar estreita cooperação com Israel”.

A relação de Israel com a Europa tem sido “de crescente irritação”, desde o final da ocupação bélica da faixa de Gaza. Segundo Bettina, quando do encontro de ministros do Exterior, em Bruxelas, do qual participou a ministra israelense Tzipi Livni, “exigiu-se que Israel repense sua política de bloqueio com relação aos palestinos na Faixa de Gaza”. A Europa quer de Israel a solução de dois Estados.

Nesta segunda-feira (25/5), Juan Miguel Muñoz, de El Pais, dizia que o “Governo israelense de extrema-direita desafia a Europa”. Segundo ele, Israel desafia tanto Bruxelas quanto o governo Obama que exigem de Israel deter a construção nas colônias da Cisjordânia e a demolição de casas palestinas em Jerusalém Oriental, além de aceitar a negociação com os palestinos sobre a base dos dois Estados independentes.

Impassível, Netanyahu conra-ataca: "Não tenho a intenção de construir novos assentamentos, mas não faz sentido pedir para que não atendamos as necessidades geradas pelo crescimento natural de nossa população e interrompamos todas as construções", disse ele ao gabinete de ministros neste domingo. "Não vou dizer para que as pessoas não tenham filhos ou forçar os jovens a viver longe de suas famílias." Leia em BBC Brasil.

A posição do gabinete sionista contraria interesses tanto de palestinos (74%) quanto de israelenses (78%) que também desejam dois Estados, lado a lado, em paz. Assim revela uma pesquisa do One Voice Movement, conduzida por Colin Irwin, da Universidade de Liverpool, Nader Said, do Mundo Árabe para Pesquisa e Desenvolvimento na Cisjordânia e Mina Zemach, do Instituto Dahaf, em Tel-Aviv. Leia em Estadão.com.

A paz não interessa ao sionismo no poder

A conjuntura acima parece dar razão a Amira Haas, do jornal Haaretz.com (11/5). Para ela, “a paz não interessa a Israel”. Ela explica que os sucessivos governos israelenses, desde 1993, “sabiam o que faziam cada vez que não fizeram a paz com os palestinos”. Eles concluíram “que a paz implicaria graves prejuízos aos interesses nacionais israelenses". Esta parece a lógica do “moderno” sionismo, intolerante, belicoso.

Com efeito, a indústria da segurança é importante item na pauta de exportações de Israel. Armas, munições e refinamentos que são testados em Gaza e na Cisjordânia. Proteger as colônias também exige desenvolver a indústria da segurança. Alem disso, manter a ocupação e o estado de beligerância cria empregos para milhares de israelenses. Cerca de 70 mil pessoas são empregadas na indústria da segurança.

Segundo Amira, a cada ano, dezenas de milhares de israelenses concluem o serviço militar obrigatório e saem treinados para usar algum talento especial. Esse treinamento é o início de sua carreira profissional: soldados profissionais, agentes de espionagem, consultores, soldados mercenários, comerciantes de armas. A paz, portanto, faria sumir muitas carreiras num estrato social que tem enorme influência no governo.

Pela tese, a Paz prejudica a qualidade de vida, pois exigiria distribuição equitativa dos parcos recursos hídricos em todo o país (do rio ao mar) entre judeus e palestinos. Prejudica também para o bem-estar social, pois as colônias oferecem às pessoas comuns o que jamais teriam se dependessem dos salários para viver: terra barata, casas confortáveis, benefícios, subsídios, espaços abertos, paisagens.

Para a jornalista, a paz também eliminará o pretexto “de segurança” que justifica a segregação contra os árabes-israelenses, seja na distribuição de terras, dos recursos de desenvolvimento, educacionais, de saúde ou dos direitos humanos. “Gente que se tenha habituado aos privilégios próprios da discriminação étnica vê a justa distribuição de direitos como assalto a seus direitos adquiridos e ao seu próprio bem-estar”, diz Haas.

A busca da não-paz parece fazer soldados israelenses exibirem camisetas com imagens de bebês palestinos mortos e mesquitas destroçadas pelos bombardeios de Israel. Uma das camisetas, a da foto acima, de um soldado do exército de ocupação em Gaza, mostra o ventre de uma mulher palestina grávida na mira de um fuzil e a legenda emblemática: “Um tiro, dois mortos”. (Ler matéria do Haaretz.com, de 20/3) (7).

segunda-feira, 18 de maio de 2009

O petróleo é nosso

Barata tontice: Petrobras versus Petrobrax.

“Maus motivos levaram a um recurso parlamentar legítimo. Mas CPIs nascem (...) com um tema preciso e, depois, em geral o que menos prevalece é sua finalidade originária. Se isso ocorrer também agora, será mais do que possível uma virada da CPI contra a oposição. E, mais importante, será a oportunidade, nunca tardia, do exame das inúmeras barbaridades na Petrobras durante o governo Fernando Henrique”.

Sábias as palavras de JANIO DE FREITAS, na Folha de S Paulo deste Domingo (17/05). Para ele, “A Petrobras foi transformada pelo PSDB em arena das disputas preliminares da sucessão presidencial. Surrada pelo prestígio de Lula e incompetente por seu próprio demérito, a oposição conduzida pelo PSDB virou a velha barata tonta”. Janio acredita que tanto governo quanto oposição têm bons argumentos contra ou favor da CPI da Petrobras, à parte os motivos reais que os levem a defendê-los e exagerá-los.

“É verdade que a Petrobras tem deixado pelo caminho muitas práticas reprováveis. Muitas suspeitas”, daí a legitimidade do recurso oposicionista. Mas, “A oposição investiu na CPI (...) pelo motivo mais reprovável: o interesse meramente político”. E “Se o PSDB que agora clama pela CPI em defesa da "Petrobras que é um patrimônio do Brasil" tivesse, de fato, dedicação perceptível à coisa pública, seus congressistas não chegariam a condutas até sórdidas para impedir CPIs no governo Fernando Henrique”.

Dois dias antes, com a mesma argumentação, o jornalista Ronaldo Bicalho já desaconselhava “colocar a maior empresa brasileira ao sabor das veleidades político-midiáticas em um momento de profunda crise econômica mundial (...), intento óbvio de se criar dificuldade para o governo Lula, (...) clara manobra de enfraquecer a posição da empresa na negociação do novo marco regulatório para o pré-sal. (...) uma chantagem política cujo alvo não é o governo Lula, não é a Petrobras, mas o país”.

Tentando compreender a atitude impatriótica oposicionista, o sociólogo Emir Sader lembra que “os tucanos queriam privatizar a Petrobrás, como parte dos acordos assinados com o FMI. Trocaram o nome da empresa – orgulho e patrimônio nacional – para Petrobrax, para tirar essa marca de “Brasil”, negativa para eles. (Para) torná-la uma “empresa global”, a ser submetida a leilão no mercado internacional. Não conseguiram”.

Lembremos que o PSDB foi responsável pela quebra do monopólio do petróleo e também pela venda de mais de um terço das ações da Petrobrás na Bolsa de Nova York, por menos de 10% do seu valor real, como lamentou o presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobras em entrevista ao Correio da Cidadania, em janeiro deste ano. Margem perdulária de mesma grandeza que da entrega da lucrativa Vale do Rio Doce.

Muito se especula, ainda, sobre a barata tontice do PSDB, que desonrou o acordo de líderes que subordinaria a criação da CPI a prévias explicações da Petrobras sobre as supostas irregularidades. Talvez, por mais confortável e menos comprometedor, fiquemos com a visão do presidente Lula de que se trata “briga de adolescentes”. Ou uma tentativa de desviar o foco da mídia da podridão espalhada pelo Senado.

Irresponsabilidade versus agenda positiva
“O que o PSDB gostaria é de privatizar a Petrobras” (Paulo Bernardo, ministro do Planejamento)

“Os dirigentes partidários percebem o crescente repúdio dos cidadãos ao comportamento da atual legislatura, que chegou ao nível mais baixo de quantas houve, desde a Assembleia Constituinte de 1823”, disse o consagrado escritor e jornalista Mauro Santayana. Não menos grave é a afirmação do mais longevo e dos mais lúcidos analistas políticos do Brasil, jornalista Villas-Bôas Corrêa: “É o pior Congresso que conheci”.

Daí, a temeridade e o inconveniente da CPI da Petrobras. Por que? Ouçamos, uma vez mais, JANIO DE FREITAS: “A ocasião da CPI é imprópria para a Petrobras por enfraquecer sua administração quando discute financiamentos internacionais, uma multidão de contratos com fornecedores estrangeiros, batalha contra pressões para entrega do pré-sal (descoberto com méritos e custos altíssimos da estatal) a concorrentes e a capitais privados”.

Mais: “Não há dúvida de que, sob uma CPI, a administração da empresa precisará desviar muita atenção das negociações e planejamentos em curso, e fará sob piores condições a continuação parcial desse trabalho. E o pré-sal, causa de toda essa ação atual na empresa, é estratégico não só para a Petrobras, porém ainda mais para o país”.

Em nada ajuda discutir o viés da falta de patriotismo como uma das possíveis causas do desespero tucano em desonrar um acordo de líderes e pouco se lixar para etapas prévias e necessárias, antes de se criar a CPI. Preferível elencar pequenas derrotas da oposição acumuladas nas últimas semanas, algumas emblematicamente omitidas pela grande imprensa, habitualmente generosa com os interesses de tucanos e demos.

Uma: Notícias de pesquisa de caráter nacional, citada por Jânio de Freitas, que eleva significativamente a intenção do brasileiro em votar em Dilma Rousseff para presidente.
Duas: A desmoralização da tese de que uma mexida necessária na caderneta de poupança seria prejudicial à poupança popular. Tese mentirosa e impatriótica que estimulou em parte ama corrida desnecessária e prejudicial da população aos bancos.

Três: O anúncio de viagem presidencial à Ásia com extensa lista de negociações favoráveis ao Brasil, entre elas o fortalecimento empresarial da Petrobras.
Quatro: O anúncio, que lemos no YAHOO! Notícias, de que a Petrobras acaba de se transformar na quarta empresa mais respeitada do mundo, segundo pesquisa divulgada pelo Reputation Institute, empresa privada de assessoria e pesquisa, com sede em Nova York.

Cinco: Pelas informações da AFP, via Portal Terra, a Unesco divulgou nesta quarta-feira a concessão ao presidente Luis Inácio Lula da Silva do “Prêmio de Fomento da Paz Félix Houphouët-Boigny 2008”. Entre os premiados anteriores, estão Mandela, Yitzhak Rabin, Shimon Peres, Yasser Arafat, Jimmy Carter e o rei Juan Carlos I da Espanha. A cerimônia de entrega do prêmio acontecerá em junho, em Paris. Que mais?

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Outras mídias

O debate sobre o PIB: "estamos fazendo a conta errrada"

Quando o navio petroleiro Exxon Valdez naufragou nas costas do Alaska, foi necessário contratar inúmeras empresas para limpar as costas, o que elevou fortemente o PIB da região. Como pode a destruição ambiental aumentar o PIB? Simplesmente porque o PIB calcula o volume de atividades econômicas, e não se são úteis ou nocivas.

Na metodologia atual, a poluição aparece como sendo ótima para a economia, e o IBAMA vai aparecer como o vilão que a impede de avançar.

A análise é de Ladislau Dowbor

"Crescer por crescer, é a filosofia da célula cancerosa" - Banner colocado por estudantes, na entrada de uma conferência sobre economia.

PIB, como todos devem saber, é o produto interno bruto. Para o comum dos mortais que não fazem contas macroeconômicas, trata-se da diferença entre aparecerem novas oportunidades de emprego (PIB em alta) ou ameaças de desemprego (PIB em baixa). Para o governo, é a diferença entre ganhar uma eleição e perdê-la.

Para os jornalistas, é uma ótima oportunidade para darem a impressão de entenderem do que se trata. Para os que se preocupam com a destruição do meio-ambiente, é uma causa de desespero. Para o economista que assina o presente artigo, é uma oportunidade para desancar o que é uma contabilidade clamorosamente deformada.

Leia o texto integral de Ladislau Dowbor em Carta Maior (*)

Stiglitz: crise é resultado do pensamento da direita

“O pensamento da direita sobre a economia de mercado — provou-se agora — está errado”, disse o prêmio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz, que participa em Portugal de debates sobre a crise econômica global.

Por Osvaldo Bertolino

“Não há dúvida sobre isso. A direita dizia que os mercados se regulariam por si, se ajustariam por si, que se houvesse algum problema os mercados arranjariam-se por si e muito rapidamente”, disse Stiglitz, acrescentando que também “havia a noção da sobrevivência dos mais fortes”.“Mas os bancos mais prudentes não sobreviveram — foram os bancos que arriscaram mais que sobreviveram”, recordou, sublinhando que por isso mesmo a crise “fragilizou todas as teorias da direita”.

“Os meus trabalhos sempre foram muito claros em afirmar que os mercados são em geral ineficientes quando a informação é imperfeita. E a informação é sempre imperfeita”, afirmou.“Os mercados financeiros têm tudo a ver com informação, por isso era óbvio que os mercados por si só não iriam funcionar bem”, sintetizou. Stiglitz prevê para os próximos tempos “uma economia global muito fraca”. “O cenário mais provável é o de crescimento negativo este ano e não-crescimento para o ano que vem”, disse.

Stiglitz não vê portas que possam conduzir a uma saída da crise tão cedo. “Anteriormente os países saíam das crises com exportações, mas quando temos uma desaceleração global e sincronizada, não há ninguém para quem exportar”, afirmou o economista, acrescentando que “o modelo que funcionou em 1997/1998 não vai funcionar agora”. Ele usa expressões duras como “depravação moral das instituições financeiras” para classificar o comportamento dos bancos que, na sua opinião, “roubaram os sonhos e o dinheiro de muitas pessoas”.

Leia texto integral de Osvaldo Bertolino no Portal Vermelho (*)

Os russos estão voltando

Flávio Aguiar

Quando a União Soviética se dissolveu, em 1991, houve uma repartição de poderes muito especial. Aos poucos, restaurou-se o espírito czarista, com estrutura e hierarquia religiosa e tudo, mas um czarismo renovado, adaptado às novas necessidades e circunstâncias de um capitalismo selvagem com predomínio no mundo inteiro.

“Os russos estão chegando!” é o título de uma excelente comédia de Norman Jewinson, de 1966, que ganhou dois Globos de Ouro em 1967: melhor comédia e melhor ator de comédia, com Alan Arkin. O roteiro é uma adaptação feita por William Rose, de um romance de Nathanael Benchley, “The Off-Islanders”, de 1961. No romance, eram alemães; no filme, são russos de um submarino que encalha à beira de uma ilha da Nova Inglaterra, nos Estados Unidos, em plena Guerra Fria.

O comandante russo envia um destacamento à terra, liderado pelo tenente Rozanov (Arkin), para conseguir barcos que ajudem o submarino a desencalhar. E daí vai-se a comédia, com o contraponto de uma tripulação russa apavorada e de habitantes da ilha que resolvem tomar nas mãos o “manifest destiny” de acabar com os então soviéticos.

Claro, não falta um clima de melodrama porque o marinheiro russo (John Phillpi Law) ensaia um namorico com a jovem norte-americana (Andréa Dromm), tudo supervisionado por um elenco de primeira.

Além de Arkin lá estão Jonathan Winters, Brian Keith, Eva Marie-Saint, Carl Reiner, gente de primeira, muito melhor do que os Reagan, Bush, Putin e outros de que teremos de tratar neste artigo. Não viu? Corra na locadora mais próxima, para matar as saudades dos bons tempos em que a Guerra Fria tinha colorações ideológicas.

É, porque a atual não tem. A atual virou uma disputa de posições como antes da Primeira Guerra Mundial. Como assim? Vamos lá.

Leia o texto integral de Flávio Aguiar no Pravda (*)

O Manifesto