quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Soberania


Uma boa vizinhança.

“Se empréstimos brasileiros não depenaram vizinhos, não será ao Brasil que auditorias alheias trarão problema”, é o que disse o jornalista Janio de Freitas em sua coluna da Folha de S. Paulo desta terça-feira.

Para Janio, o exame minucioso do que suas dívidas externas têm de correto ou de irregular, decidido pelos governos do Paraguai, da Bolívia e da Venezuela, levou o senador Heráclito Fortes a prometer uma reunião extra da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado.

O motivo de Fortes foi um texto de jornal que disse haver nas auditorias "uma ameaça de US$ 5 bilhões" de "calote" dos três países contra o Brasil. (A propósito do senador da bancada do Opportunity, prepara-se um texto a respeito da serventia da nossa câmara alta na atualidade. A dúvida é no título da matéria: “A quem serve nosso senado?” ou “Pra que serve este senado?”).

Jânio lembra que a auditoria da dívida externa brasileira foi uma das bandeiras da resistência democrática contra a ditadura, por suspeita de transações corrompidas na negociação externa e na destinação interna do dinheiro. Mas também em nome da recuperação da nossa soberania esvaziada pelo FMI e pelos bancos dos EUA, Citigroup à frente, que extorquiram nossa poupança.

São, portanto, legítimas as auditorias que querem nossos vizinhos em suas dívidas externas. Dívidas de nações soberanas com seu povo. Há muita coisa errada com a elite oligárquica que vinha mandando em nossa América. Caso o Brasil tenha o rabo preso em falcatruas associadas a empresas suspeitas, o que não é improvável, nada mais justo do que acertar seus pecados.

Mutretas na linha do Equador

O governo e a imprensa estão literalmente montando uma crise fictícia com o Equador. Quem afirma é o jornalista Gilberto Maringoni, para quem o país andino está apenas exercendo sua soberania e isso é visto como sacrilégio pelos interesses corporativos e financeiros.

A dívida de US$ 243 milhões, montada numa operação triangular BNDES-Odebrecht- Governo Equatoriano, não foi suspensa, mas a grita está nas ruas. “O engraçado é que em 2003/2004, a transnacional estadunidense AES, que comprou a Eletropaulo, deu um calote de R$ 600 milhões no mesmo BNDES e não se viu protestos semelhantes”, estranha Maringoni.

Segundo o economista Paulo Passarinho, o governo brasileiro vem defendendo interesses corporativos e financeiros em nosso continente. Como nos recentes episódios envolvendo os interesses da construtora Odebrecht e um financiamento do BNDES, para uma obra que apresentou graves problemas aos equatorianos e ao seu governo.

O Equador notificou a Câmara de Comércio Internacional contestando uma dívida de US$ 242,9 milhões referente ao contrato de financiamento para a construção de uma hidrelétrica. O ato, embora legítimo e realizado no fórum apropriado, foi considerado desrespeitoso pelo Itamaraty, que chamou de volta ao Brasil o nosso embaixador naquele país.

O açodamento do Itamaraty em prol da problemática transnacional brasileira atende a pressões dos setores dominantes da grande imprensa do Brasil, que difundem a versão mentirosa de um suposto calote do governo de Rafael Corrêa. Velhos os interesses, velhas as mutretas.

Um ministro performático.

O ministro Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal, chefe de um poder da República, faz tempo esqueceu seus próprios limites. É como vê a edição 522 (de 19 de novembro) da Carta Capital (*), cuja redação apurou confraternização entre o ministro e empresas investigadas por formação de cartel. Há referências a apoios nada republicanos de Gilmar em sua terra natal.

“O presidente do STF está no centro de uma investida que reúne poderes variados, da Polícia Federal ao Congresso, para sepultar o que resta da Operação Satiagraha”, esclarece a revista. Investida que inclui o afastamento de Paulo Lacerda do comando da Abin; pressões sobre o juiz Fausto De Sanctis e manobras para desvirtuar o trabalho do delegado Protógenes Queiroz.

A matéria mostra ainda como Gilmar paira sobre a Praça dos Três Poderes, animado por desagravo corporativista do Supremo no começo do mês. Diz Carta Capital que dia sim, dia não, o ministro falastrão “corre aos holofotes” para opinar à margem das regras da Magistratura.

“O mais impressionante são os poderes que se curvam – ou convenientemente se calam”, diz a revista. Entretanto, o performático ministro acaba de enfrentar segura discordância do presidente da Associação dos Magistrados do Brasil, Mozart Valadares Pires (*), que repeliu críticas de Gilmar ao “independentismo” (não alinhamento?) da Justiça de primeiro grau.

Na mesma linha do repúdio de Mozart, Nino Toldo, da Associação dos Juizes Federais do Brasil, também resolveu abaixar o topete do chefe máximo da magistratura brasileira. “Os juízes são independentes e, felizmente, neste país, a independência da magistratura é respeitada", disse Toldo.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Uma fibra assassina?



Lei brasileira tolera o uso de substância cancerígena banida em quase 50 países.

250 MIL TRABALHADORES BRASILEIROS SÃO EXPOSTOS AO AMIANTO. A PRODUÇÃO SE AMPARA EM LIMINARES DO SUPREMO.

Supremo Tribunal Federal (STF) já começa a se sensibilizar diante do entendimento da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (AIPC), da Organização Mundial da Saúde (OMS), de que todos os tipos de fibra de amianto, em qualquer estágio de produção, transformação e uso, são substâncias cancerígenas para humanos. Um laudo contundente, de fé pública internacional.

É o que se deduz de recente decisão do Supremo favorável à lei estadual 12.684/2007 que proíbe o amianto no Estado de São Paulo. A lei, assim como outras leis estaduais do Rio de Janeiro, Pernambuco, Rio Grande do Sul e Mato Grosso, estava suspensa por uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) interposta pelo forte lobby empresarial/parlamentar de Goiás, estado que mais produz do amianto.

Outros fatos podem estar causando uma mudança de atitude do STF, que vinha sustentando a produção de amianto pela concessão de liminares contra as leis estaduais. Entre os fatos, destaca-se a proibição já existente em quase 50 países, como Alemanha, França, Itália, Japão, Austrália, Argentina e Chile. Mesmo os países que toleram o amianto, como o Brasil, recomendam a sua produção e uso “controlado e responsável”.

As dimensões do problema já haviam sido evidenciadas na década de 70, no Canadá, quando empresas Estadunidenses e do Reino Unido se retiraram da exploração do amianto, fugindo de pesadas condenações e ações de indenização movidas por vítimas. Sabe-se hoje que as doenças graves, progressivas e incuráveis produzidas pelo amianto podem levar anos para se manifestar.

Em 2005 o senado francês definiu a situação das conseqüências da contaminação por amianto no país como uma “catástrofe sanitária” e acusou técnicos do governo, sindicalistas e alguns cientistas de se deixarem “anestesiar”, durante anos, pelo lobby das empresas que utilizam e defendem o amianto. No Brasil, dados do Datasus revelaram 2414 mortes como conseqüência da exposição ao amianto entre 1980 e 2003.

Em 1990, a Fundacentro, entidade governamental que atua em pesquisa científica e tecnológica relacionada à segurança e saúde dos trabalhadores, monitorou cerca de 900 ex-trabalhadores da ETERNIT. Os exames indicaram de 9% tinham fibrose pulmonar e 20% sofriam de doenças malignas na pleura (membrana que cobre os pulmões e reveste o interior da parede torácica).

E quais são as doenças causadas pelo amianto? A fibrose pulmonar é chamada asbestose porque a fibra de amianto que invade os pulmões tem o nome de asbesto. A doença é progressiva e leva lentamente o paciente à morte, após anos de sofrimento por recorrência de pneumonia. O Câncer de pulmão é um tumor maligno que leva 25 anos ou mais para se manifestar.

O Mesotelioma é um tumor maligno incurável de pleura que mata a maioria dos doentes em até 2 anos após o diagnóstico. Pode levar até 50 anos depois do contato com a fibra para aparecer. Doenças pleurais (placas, derrames, espessamento) e outras patologias ditas não malignas podem evoluir até levar à incapacidade para o trabalho. O câncer de laringe também pode ocorrer.

Onde se encontra a fibra que tanto mata? O amianto é uma fibra natural, de origem mineral, presente na produção de telhas, caixas-d'água, tubos-d'água e na indústria têxtil, automobilística e naval, entre outras. O Brasil ocupa o quarto lugar entre os maiores produtores mundiais de amianto, respondendo por 11% de toda a produção mundial, com uma média anual de 250 mil toneladas.

Quem defende a nossa produção de amianto? Mais de 40 leis estaduais e municipais que proíbem a produção e uso dos produtos de amianto já foram aprovadas. As indústrias, no entanto, têm conseguido suspender as leis junto ao Supremo STF e Superior Tribunal de Justiça (STJ). O argumento é que as leis são inconstitucionais por existir uma lei federal disciplinando o uso do amianto.

De fato, a Lei 9.055, de 1995, que regulamenta a extração, a industrialização a comercialização e o transporte do amianto e dos produtos que contenham as fibras, permite, em seu artigo segundo, o “uso seguro e responsável do amianto”. Uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI), a 4066, pede a revogação do artigo 2º, com a fundamentação de que o uso do amianto é contra a saúde e a vida.

Em 30 de setembro, o presidente da ETERNIT, Élio Martins, o diretor-geral da SAMA, Rubens Rela Filho, o senador Marconi Perillo (PSDB, GO) e o deputado federal Carlos Alberto Leréia (PSDB, GO) foram recebidos no STF por Gilmar Mendes. Sobre o encontro, o site do STF noticiou que o grupo foi entregar documentos contra o banimento do amianto crisotila, um tipo de fibra que, afirmam, seria inofensivo à saúde.

“Temos estudos científicos que foram preparados pelas principais universidades brasileiras que nos tranqüilizam em relação à utilização do amianto sem qualquer mal à saúde” afirmou o senador Perrillo ao site do STF. Segundo o senador, o objetivo dos documentos é “dar esclarecimentos e embasamento aos ministros do Supremo Tribunal Federal em relação à matéria”. No STF tramitam ainda seis ADI em favor do amianto.

O Grupo ETERNIT é o maior do setor de amianto no Brasil. A mineradora SAMA pertence a ele. É a responsável pela mina de Cana Brava, a única de amianto do tipo crisotila em exploração no País. Fica em Minaçu, norte de Goiás, a 500 quilômetros da capital. Para Rubens Rela Filho, a cadeia produtiva brasileira que utiliza o amianto gera 60 mil empregos diretos e tem uma rentabilidade de R$ 2,6 bilhões ao ano.

Marconi Perillo, Carlos Alberto Leréia e Demóstenes Torres são alguns dos parlamentares da “bancada da crisotila” no Congresso Nacional. Em troca de defender o amianto recebem o apoio financeiro da indústria em suas campanhas. Somente Leréia, proveniente de Minaçu, recebeu 300 mil reais da mineradora em sua campanha para deputado federal, de acordo com a revista Carta Capital, de junho de 2005.

Com tal poder, conforme revelou Conceição Lemes, em matéria especial para o blog Viomundo, do jornalista Luiz Carlos Azenha, o grupo conseguiu tirar do ar contundente série de três matérias da TV Bandeirantes contrária ao amianto, programada para começar em 29 de setembro. E a população de Bom Jesus da Serra e de Poções ficou frustrada frente à televisão por não poder assistir à sua própria tragédia.

Do lado oposto, defendem a substituição do problemático mineral instituições do porte da Fundacentro e da Fiocruz e especialistas do Incor. E a Associação Brasileira dos Expostos ao Amianto (Abrea), que exerce incansável luta em várias frentes. A Abrea foi fundada pela engenheira Fernanda Giannasi, que também coordena a Rede Virtual Cidadã para o Banimento do Amianto na América Latina.

O grupo conta ainda, como aliados, a Associação Nacional dos Procuradores do Trabalho (ANPT) e a Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra), autoras da ADI 4066. Entretanto, para o grupo, só a discussão em torno das leis vai esclarecer à população e dar visibilidade ao tema, acreditando que o poder público somente se posicionará quando houver uma efetiva pressão da sociedade civil.

“O fato é que o amianto é uma bomba de efeito retardado... Uma proibição imediata da produção e uso do amianto é absolutamente necessária”, afirma Fernanda Giannasi. “Afinal, inequívoca e indubitavelmente o amianto mata!” Ela questionou junto ao Conar a intensa campanha publicitária recente a favor do amianto. “Por conter informações inverídicas e tentar iludir o consumidor”.

(Colaboraram Leila Jinkings e Valmir Ribeiro)

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Raça


Cotas: Elio Gaspari mata a cobra e mostra o pau.

“ No dia da Consciência Negra, as bancadas do governo e da oposição na Câmara dos Deputados aprovaram o projeto de lei que estabelece cotas sociais e raciais (pode me chamar de cromáticas) para o preenchimento de vagas nas universidades públicas federais. O projeto foi mandado ao Senado.

Tramita no STF o julgamento da inconstitucionalidade das cotas do ProUni, argüida pelos donos de universidades privadas e pelo DEM. A iniciativa do governo já teve o voto favorável do relator, ministro Carlos Ayres Britto.

Nada melhor do que o encaminhamento dessa questão na rotina das instituições republicanas. Quando a Casa Grande falava sozinha e a Senzala não votava, o Brasil tornou-se o último país livre das Américas a abolir a escravatura.

As políticas de ação afirmativa foram condenadas porque acordariam o gênio do racismo. Não acordaram. (Nada de novo. No século 19 o barão de Cotegipe avisava: "Brincam com fogo, os tais negrófilos".) As cotas criariam constrangimentos, levando alunos negros mal preparados para os cursos universitários. Não criaram. (Parolagem antiga. Em 1885, combatendo a libertação dos sexagenários, o deputado Olimpio Campos advertiu: "Não é humanitário, não é civilizador libertar escravos velhos").

Entre 2001 e 2008, 52 mil vagas foram oferecidas em 48 escolas que adotaram políticas de ações afirmativas em benefício de alunos da rede pública, negros e índios. Passaram-se sete anos e até hoje não apareceu um só episódio ou estudo relevante capaz de desqualificar essas políticas. ”

Em tempo: O texto é parte da coluna do Elio Gaspari, publicada na Folha de S Paulo deste domingo, 23/11. Instigante, objetiva, lúcida.

Lula ataca novamente. Mídia finge-se de morta, outra vez.

"Um outro ingrediente, além do econômico, é o processo de degradação a que está submetida a humanidade, a partir da família, pela qualidade das informações que recebemos pelos meios de comunicações 24 horas por dia", afirmou o presidente Lula. Foi durante o 3º Congresso Mundial de Enfrentamento da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, no Rio.

Segundo o presidente, a mídia contribui com sua programação para a degradação da família com a divulgação sem limite de cenas de sexo e violência. Lula criticou ainda a falta de programação cultural de qualidade dirigida aos públicos infantil e jovem na TV.

De acordo com o presidente, o crescimento do número de menores submetidos a ataques sexuais não é causado apenas pela pobreza que, admitiu, muitas vezes leva a criança a "vender seus corpos por um prato de comida”. “Quantos programas culturais temos nas televisões para que as crianças possam ver às 7h, às 10h, ao meio-dia, 14h, 18h?", perguntou Lula.

"Na hora em que a família entra num processo de degradação que passa pelo econômico, passa pelo social, mas passa pelo que ela vê na televisão 24 horas por dia. Quem tem televisão a cabo, sabe do que falo. É sexo e violência de manhã, de tarde e de noite”, acrescentou o presidente.

O congresso mundial que enfrenta estes problemas, no Rio, foi praticamente ignorado pela mídia. E, emblematicamente, foram ignoradas, também, as palavras do presidente. Outra vez. No dia 17 deste mês, o presidente já havia manifestado, com igual veemência, sua opinião sobre o tema. De lá pra cá, nada se ouviu, se leu se ou se viu. A mídia finge-se de morta, outra vez.

Em tempo: Projeto de lei que torna mais clara a legislação contra material pornográfico contra crianças e adolescentes foi sancionado por Lula. (Informações do jornal O Estado de S. Paulo).

O teu cabelo não nega

Ao contrário do que muita gente pensa, a marcha carnavalesca “O teu cabelo não nega” não é de autoria de Lamartine Babo. Inicialmente, com o título de “Mulata”, a marchinha foi composta pelos irmãos pernambucanos João e Raul Valença em 1929. Há quem sustente, hoje, que eles queriam homenagear uma mulata da ancestralidade familiar de Ronaldo, o ex-fenômeno.

A ser verdade, como diria o anti-jornalista Cláudio Humberto, o roliço futebolista estaria negando suas origens quando se manifestou a respeito de racismo no futebol espanhol: "Acho que todos os negros sofrem. Eu, que sou branco, sofro com a ignorância". Para 64% dos 2.982 pesquisados pelo Datafolha ele é preto, apenas 23% o dizem branco. Bem que vale raspar o cabelo, vez em quando.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que em seu primeiro mandato disse ser "mulatinho" com "um pé na cozinha", foi o campeão de brancura. 70% dos entrevistados assim o definiram, contra apenas 17% que disseram que ele é pardo e 1% que é preto.

"FHC apareceu como mais branco do que o Lula. Mas o Fernando Henrique é branco? Ele é um mulato. Se as pessoas não soubessem que se tratava do FHC, provavelmente, julgando apenas pela cor da pele, diriam que se tratava de um mulato. Mas como é o FHC, um intelectual, passa a ser visto como branco", interpreta o poeta e antropólogo Antônio Risério.

O cantor Zeca Pagodinho definiu-se como "gente", ao ser perguntado sobre sua cor. "Eu não vivo esse mundo de cores", disse. Zeca é pardo para 52% dos entrevistados e preto para 22%. Ele vê puro preconceito: “Embora eu não tenha cor, sou sambista e do subúrbio. Quer dizer: sou preto".

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Lula, porque não te calas?


“Lula diz que televisão brasileira não educa e degrada famílias” (Folha Online)

Para Lula, além de não ajudar no "processo de educação", a TV brasileira degrada a "estrutura da família". E o presidente foi ainda mais eloqüente: "Qual é o processo de educação que nós aprendemos quando ligamos uma televisão nesse país? Pelo contrário, o que nós assistimos, em muitos casos, é um processo de degradação da estrutura da família desse país".

A declaração ocorreu em solenidade pública, em São Paulo. A notícia foi dada pela Folha Online (*), nesta segunda-feira, 17/11/2008, às 20h24. E veio com o comentário de que se tratava de mais uma crítica de Lula à televisão brasileira. Simples, não?

Não se viu, nesses dias, nenhuma repercussão sobre o tema que é da maior importância para a discussão da Educação e da formação cultural da Nação. Nada se ouviu dos vestalinos colunistas. Nada nas tevês. Nada nos jornalões. Nem um simples “Lula, porque não te calas?”, da manha real.

“Preferem não dar a cara a bater”, disse com propriedade um professor de jornalismo do Iesb, em Brasília. O silêncio é mais uma demonstração de que a elite da informação está satisfeita em oferecer aos brasileiros apenas os reality shows trágicos de Eloás e Isabelas. E mais: Lula retoma uma discussão que deixa os donos da mídia transtornados: a regulação social da programação.

“Coisas de regimes totalitários”. “Agressão ao princípio da liberdade de imprensa”. O assunto – que é devidamente regulamentado no mundo civilizado – não passaria no Congresso Nacional (*), onde 87 deputados e alguns senadores têm concessão de rádio e televisão e recebem, da indústria de bebidas (anunciantes) e de comunicação, alguns milhões de reais em doações de campanha.


As 25 notícias mais censuradas em 2007-2008 (mais).

“O último ano da administração Bush acumulou uma concentração de poder executivo absoluto. A Constituição foi substituída por draconianas ordens executivas (freqüentemente secretas). Houve um recrudescimento de assaltos aos direitos humanos, tanto no país como no estrangeiro. Porém, quem está falando adequadamente sobre isto? Somente se mostra o bordo da realidade”.

Quem diz é Tricia Boreta, diretora do Project Censored (*). Segundo ela, os meios corporativos têm estado demasiadamente ocupados em manter entretido o público consumidor com o sem-fim de banalidades adicionadas à cobertura do espetáculo “Campanha presidencial 2008”. Para ela, o Congresso não cuida de vigiar a fundo o pressuposto federal e a Constituição. Deixa correr solto.

“O Projeto e um grupo de jornalistas independente ao redor do mundo vêm seguindo com afinco as ações desenfreadas de um império em decadência. As histórias de notícias não cobertas revelam um aumento desesperado da demanda das corporações dos EUA para conquistar mais recursos naturais. Os setores militares a cuidar eliminar as dissenções e impor as conformidades”, diz a diretora.

Para ela, a lista deste ano mostra mais claramente como a vontade dos povos segue sendo o inimigo principal da violência das corporações. “O termo “terrorismo” está se ampliando rapidamente para incluir o desenvolvimento do pensamento contrário à agenda expansionista de Washington”, diz.

Segundo Tricia Boreta, cada uma das 25 notícias relevantes deste ano constitui uma história de “corporacioncracia”, de como é a vida sob um governo “de, por e para as grandes corporações multinacionais”, que cada vez diminuem mais o valor da vida humana. (Trad. Ernesto Carmona).


Uma vaia para Ricardo

No último fim-de-semana, o blog do jornalista Ricardo Noblat (*), divulgado pela Globo Online, incitou seus leitores a executar uma nova vaia contra o presidente Lula. “Seria bom para o excesso de auto-estima de Lula que ele fosse vaiado durante o jogo da próxima quarta-feira em Brasília entre a Seleção Brasileira e a Seleção de Portugal”, animou-se Noblat.

O zeloso blogueiro ficou devendo, no entanto, uma explicação aos seus leitores sobre os motivos da infindável onda do que ele chama de “excesso de auto-estima” do nosso presidente. Um dos motivos mais recentes vem da declaração de Marta Lagos (*), diretora do Instituto Latinobarômetro, do Chile: "Lula pôs a América Latina de novo no mapa mundial".

Foi assim que Lagos traduziu a popularidade do presidente (*) brasileiro, líder na América Latina pela 2ª vez consecutiva. Agora, com nota média de 5,9, em escala de 1 a 7, passa até o rei da Espanha Juan Carlos I, no topo da lista nos últimos três anos. Ouvidos mais de 20.000 pessoas em 18 países.

Outro motivo que incomoda o blogueiro da Globo e a mídia é a tranqüilidade com que o governo Lula vem se preparando para uma inevitável desaceleração (*) no crescimento brasileiro (“marola”), conseqüência da recessão (“tsunami”) produzida nos EUA e exportada à Europa e ao Japão. Sem contar a aprovação das teses brasileiras sobre a economia nos fóruns mundiais.

Tarefa difícil era conseguir uma nova vaia para Ricardo Noblat. Ele tinha o preço astronômico dos ingressos e a distribuição de milhares de convites feita pelo governo local, como no Pan. O que não tinha, além da presença de Lula, era o ensaio da vaia (*), que não faltou ao prefeito do Rio.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Por que as fadas são brancas e as bruxas se vestem de negro?

Quando o negro for belo

Uma reflexão sobre como na língua o negro está manchado irremediavelmente é oportunizada com a chegada de Obama ao poder. É o que propõe a jornalista Sandra Russo, do jornal argentino Página/12, sugerindo que se estabeleçam algumas normas que permitam àqueles que trabalham com a responsabilidade da informação um necessário cuidado com a linguagem.

Sandra lembra que a reflexão consta de consagrada letra do músico colombiano Andrés Landera, cujo título é bastante eloqüente: “O que acontecerá quando o negro for belo?”. O questionamento de Landera é pertinente face à enorme quantidade de conotações pejorativas, depreciativas e discriminatórias que nos proporciona a fala quotidiana para nos referirmos ao negro.

Os negros são aqueles que têm a pele da mesma cor que tudo o que nos espanta. Qualquer dia da semana inocente se assenta na catástrofe ou na tragédia quando se lhe agrega o adjetivo “negro”, como: “uma quarta-feira negra para as bolsas”. O negro, como a esquerda, diz Sandra, foi deslocado na língua para zonas obscuras e miseráveis. O branco conota pureza o negro trás a idéia de sujeira.

Enquanto o branco é o vestido da noiva, negras são as vestes da viúva. Do mesmo modo, atuar pela esquerda é fazer trapaça, corromper-se, delinqüir. Ir pela direita, em troca, é ser frontal, ter coragem, paciência, moral. E a historia ocidental está escrita por uma mão branca.

É compreensível o pipocar de alegria com a eleição de um afro-americano. Boa ocasião para rever as costuras da nossa língua. Mas, Colin Powell e Condoleeza Rice foram negros aceitos por esquecerem quem eram. Melhor torcer por Obama pelo que prometeu fazer. Não por sua negritude.
"Obama deve fechar Guantânamo. Deveria proibir publicamente a tortura" (Irene Khan)

O presidente eleito dos EUA, Barack Obama, deveria retirar o embargo comercial contra Cuba, disse Irene Khan, Secretária-geral da Anistia Internacional, na última sexta-feira, 7/11. Para ela, essa mudança na política de Washington pode ajudar Obama a restaurar a autoridade dos EUA, prejudicada pela administração do presidente George W. Bush.

"Nós gostaríamos que o presidente eleito Obama retirasse o embargo contra Cuba, (embargo) que acreditamos não estar contribuindo com os direitos humanos”, disse Khan. Ela também pediu o fechamento do centro de detenção de Guantânamo, em Cuba, onde centenas de supostos membros da Al Qaeda e do Taliban são mantidos presos sem culpa formada e sem defesa, há sete anos.

Em 29 de outubro, a Assembléia Geral da ONU aprovou, pela 17ª vez, uma resolução que pede o fim do embargo econômico e comercial imposto há quase meio século pelos EUA contra Cuba. Dos 192 países que integram a ONU, 185 países votaram a favor, apenas Estados Unidos, Israel e... Palau (?) foram contra. Outros dois países (países?) se abstiveram: Ilhas Marshall e Micronésia.

Pelo que manifestam a ONU, a Anistia Internacional e, agora, as novas gerações de cubanos que moram na Flórida, o mundo espera de Obama o fim do insano bloqueio. E que feche a prisão de Guantânamo, onde centenas de homens são torturados, sem direito a um julgamento justo.

A eleição de Obama representa uma esperança. Entretanto, declarações da sua equipe de transição, nesta terça-feira (11/11), de que está “em estudo” uma maneira, porque fechar Guantânamo “é complicado”, frustra essa esperança de uma nova atitude em Washington.

Vale do Rio Doce licencia usina a carvão na Amazônia em região intensamente desmatada.

Termelétrica para abastecer o pólo siderúrgico de Carajás emitirá 2,2 milhões de toneladas de gás carbônico por ano. O Projeto contribui para sujar a matriz energética brasileira e deve minar o plano do Serviço Florestal Brasileiro de reflorestar em grande escala na região, intensamente desmatada. A informação é da jornalista Afra Balazina, da agência Reuters, nesta quarta-feira, 12 de novembro.

A emissão de CO2 da usina equivale a 3,6% das emissões de todo o setor energético brasileiro. Segundo Tasso Azevedo, diretor-geral do Serviço Florestal Brasileiro, a criação da usina amplia o uso do mais sujo dos combustíveis, o carvão mineral. Para ele, poderia ser usado carvão vegetal, por meio do plantio de novas florestas. E, ao mesmo tempo, recuperaria áreas hoje degradadas.

A opção pela termelétrica parece contrariar o discurso de sustentabilidade da empresa. Em seu site, a Vale explica suas "diretrizes corporativas sobre mudanças climáticas e carbono". Entre elas estão "promover a eficiência energética e a redução do consumo dos combustíveis fósseis".

Lucro fácil e rápido? A Vale admite que optou pela térmica para ter energia no curto prazo. "Hoje as termelétricas são a única opção viável em volume, custo e, principalmente, em prazo compatível para evitar que o Brasil corra o risco de racionamento de energia a partir de 2010."

Além de tudo, a Vale está dando sinais de que vai trazer carvão mineral não só para gerar energia, mas também para abastecer as guseiras de Carajás, o que prejudicará ainda mais o reflorestamento. Hoje, as siderúrgicas utilizam carvão vegetal, muitas vezes ilegal. Para o secretário estadual do Meio Ambiente do Pará, Valmir Ortega, cerca de 20% do carvão vegetal não tem origem legal.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Caminhos da barbárie




Amianto: uma bomba de efeito retardado (Lobby vai ao STF)

O amianto, em qualquer estágio de produção, transformação e uso, é uma substância cancerígena para humanos. Quem afirma é a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, da Organização Mundial da Saúde (OMS). O amianto é uma fibra natural, de origem mineral, presente na produção de telhas e caixas d'água, tubos d'água e vasos, na indústria têxtil, de papéis e papelões.
Entre as doenças relacionadas ao amianto estão: a asbestose (doença crônica pulmonar de origem ocupacional), o câncer de pulmão e do trato gastrointestinal e o mesotelioma. São doenças progressivas, irreversíveis, de difícil tratamento e que, na maioria das vezes, levam ao óbito.

Esta base científica levou o Supremo Tribunal Federal (STF) a dar parecer favorável à Lei Estadual 12.684, do estado de São Paulo, que proíbe o uso do amianto em qualquer instância. A lei estava suspensa por uma Ação Direta de Inconstitucionalidade. Com base nisso, os técnicos do governo estão promovendo este mês, no Estado, uma fiscalização intensa, visitando cerca de 40 empresas.

Além de fiscalizar, a ação também vai coletar dados sobre as pessoas contaminadas. Como a contaminação por amianto tem um intervalo de até 30 anos para se manifestar, autoridades da Vigilância Sanitária acreditam que temos hoje apenas sub-notificações dos casos.

As pessoas estão morrendo por conta dessa exposição. Por outro lado, existe um poderoso lobby dos fabricantes para a manutenção do uso do amianto. A empresa Eternit comanda o lobby. Na tropa de choque parlamentar, os senadores Demóstenes Torres, do Demo, Marconi Perillo, do PSDB e o deputado Carlos Leréia, do PSDB. O interlocutor no STJ é o ministro Gilmar Mendes.

“Tortura nunca, nunca mais” (senadora Marina Silva).

Estamos assistindo a uma discussão dentro do governo a refletir o que acontece no âmbito da justiça. Por mais que se considere a múltipla coloração ideológica dentro do governo, esta dificuldade é reprovável. O governo tem a atribuição institucional de esclarecer as demandas da sociedade e apontar as soluções cabíveis, em vez de exibir publicamente graves diferenças internas.

Trata-se da questão levantada sobre a amplitude de cobertura da Lei da Anistia. Para uns, ela foi o instrumento de “harmonização”, a fazer com que a sociedade passasse a lamber suas feridas e sepultasse graves fatos do passado. Para outros, a via legal para identificar e anistiar os crimes estritamente de caráter político durante a ditadura militar. Não o terror covarde sob o manto oficial.

No primeiro grupo, fazendo coro com torturadores já identificados, como Brilhante Ustra e Audir Maciel, ex-comandantes de órgãos repressores da ditadura, estão alguns militares e o ministro Nelson Jobim. E, agora, a Advocacia Geral da União e o ministro Gilmar Mendes.

No segundo grupo, o entendimento é de que a Lei da Anistia é bem clara quanto à tipificação do crime de natureza política. Estariam fora do seu alcance os crimes de lesa-humanidade, que são imprescritíveis, conforme definem as organizações jurídicas internacionais multilaterais. Como diz a senadora Marina Silva: “Algo essencial à condição humana é violentado na pessoa sob tortura”.

A Secretaria Especial de Direitos Humanos e o titular do Ministério da Justiça, agora reforçados pela Ordem dos Advogados do Brasil, repelem, com razão, a tese dos torturadores. Senão, restaria esgarçado o tecido da história pátria que serve de base à formação das gerações futuras.



Estudo vincula gravidez na adolescência à programação de TV

A exposição a determinadas formas de entretenimento pode causar uma influência corruptora para as crianças e leva adolescentes que assistem a programas de TV sensuais ousados – como os reality shows e comédias – a engravidar mais cedo. É o que revela pesquisa do instituto RAND, centrado em 23 programas de TV aberta e a cabo populares entre os adolescentes dos Estados Unidos.

"O conteúdo de televisão raramente enfatiza os aspectos negativos do sexo, ou os riscos e responsabilidades que ele envolve. (...) Raramente se refere ao risco de gravidez ou de doenças sexualmente transmitidas", disse Anita Chandra, cientista do comportamento e diretora da pesquisa da RAND, de Chicago (EUA), uma organização sem fins lucrativos.

O fato vem justificar uma sábia preocupação dos constituintes brasileiros de 1988, inserida no art. 221: “A produção e a programação das emissoras de rádio e televisão atendam aos princípios da preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas...”.

O lamentável é que qualquer iniciativa que tenha a preocupação de regulamentar o princípio constitucional esbarra nos interesses comerciais dos meios televisivos a pressionar o Congresso Nacional. Os argumentos falaciosos de “cerceamento do direito de expressão” e de “controle estatal” são facilmente empunhados por parlamentares submissos ao poder da mídia.

Assim, são restringidas, na prática, as prerrogativas constitucionais da sociedade de opinar sobre a qualidade da programação televisiva em nosso país. Prerrogativas que são legítimas e justas pelo fato de terem os meios televisivos o caráter de concessão pública, sujeitas ao interesse social.
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Dados do Blog Horizonte Vermelho

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Um arranjo virtuoso e raro


O pânico dos mercados induziu à pane na razão.

Dizia o professor Luiz Gonzaga Belluzzo, no dia 19 deste, na Folha de S Paulo, que a pedagogia truculenta da crise financeira ensinou como a paralisia no sistema de crédito causa fortes danos ao mundo “real”. Os bancos não emprestam, as empresas reduzem a produção e o emprego, a atividade econômica afunda e... As certezas dos analistas mais certeiros desmoronam.

Para Belluzzo, além do bloqueio do crédito, a crise planetária também ameaça paralisar os cérebros, até mesmo os bem-dotados. Atônitos, os sábios de ontem embarcam em hipóteses exóticas e peregrinas, como as que culpam os devedores (gente irresponsável) que aceitaram empréstimos oferecidos por bancos “generosos”. Ou os políticos que estimularam os créditos predatórios.

Segundo o professor, a pane cerebral afeta com particular virulência o pensamento imune à experiência histórica. Ele se refere à intolerância dos nossos “analistas” com uma era em que o capitalismo juntou prosperidade, avanço tecnológico, inovação institucional e redução das desigualdades. E... a mais baixa freqüência de crises financeiras e de crédito, desde o século 19.

Trata-se do “modelo” do pós-guerra cujo sucesso os crítico de hoje desconfiam ter nascido de um arranjo virtuoso entre a democracia e o capitalismo. Sucesso que deu 30 anos de progresso material, menos desigualdades nos países centrais e altas taxas de crescimento na América Latina e na Ásia.

“O ‘mal’, como sempre, é o ‘intervencionismo’ do Estado, o poder dos sindicatos, o controle dos mercados financeiros e do movimento de capitais. (...) E fundados receios de que o bote salva-vidas do Estado ‘populista’ seja baixado para resgatar a turma do ‘andar de baixo’”, finaliza Belluzzo.
Estados Unidos, Israel e... Palau contra o mundo.

A Assembléia Geral da ONU aprovou nesta quarta-feira uma resolução que pede o fim do embargo econômico e comercial declarado há quase meio século pelos Estados Unidos contra Cuba. Dos 192 países que integram a ONU, 185 países votaram a favor, apenas Estados Unidos, Israel e... Palau foram contra. Outros dois países (países?) se abstiveram: Ilhas Marshall e Micronésia.

Segundo Notícias UOL, esta é a 17ª vez consecutiva que a ONU aprova uma resolução que critica estas sanções unilaterais dos Estados Unidos e pede sua revogação. A resolução apresentada ao plenário pelo chanceler cubano, Felipe Pérez Roque, recebeu, nesta ocasião, um apoio superior ao do ano passado, quando foi respaldada por 184 países e rejeitada por quatro.

"Vocês estão sozinhos, completamente isolados", disse pouco antes da votação Pérez Roque, dirigindo-se à delegação americana. Em seu discurso, o chanceler cubano disse que "sete em cada dez cubanos passaram a vida sob esta política irracional e inútil". E que "o bloqueio é mais velho que o senhor Barack Obama e que toda minha geração".

Cidadãos brasileiros, por exemplo, não podem adquirir um computador portátil da DELL Brasil por meio de crédito se, ao preencher o cadastro, declarar que em tendo oportunidade gostaria de visitar Cuba. A empresa informou ao jornal O Globo que a restrição segue normas de Washington.

O embargo econômico à Cuba foi instituído pelos Estados Unidos em 1962, três anos após a deposição do ditador Fulgêncio Batista pela Junta Militar Revolucionária cubana. E antes da fracassada invasão da Baía dos Porcos, financiada pelos Estados Unidos.

As 25 notícias mais censuradas

1. Informe anual sobre violações de direitos sindicais. O primeiro informe Anual de Violações dos Direitos Sindicais, publicado no aniversário da Confederação Sindical Internacional (ITUC, sigla em inglês), documenta enormes desafios aos direitos dos trabalhadores ao redor do mundo.

A edição 2007 do informe que cobre 138 países revela um alarmante crescimento no número de pessoas assassinadas como resultado de suas atividades sindicais: de 115 em 2005 a 144 em 2006. Seqüestros ou “desaparecimentos”, prisões por participações em greve ou protesto, dispensas do emprego por se sindicalizar.

Também cresceu o número de lideranças sindicais vítimas da brutalidade da polícia e assassinadas por serem vistas como opositores aos governos. Neste aspecto, a Colômbia segue sendo o país com maior mortalidade de sindicalistas do mundo: 78 pessoas em 2006, 8 a mais que no ano anterior.

2. Crueldade e morte em prisões juvenis dos EUA. Após ampla investigação nos Estados Unidos, os advogados de menores de idade condenaram asperamente as condições de detenção dos jovens delinqüentes em que ocorrem desde abusos sexuais e físicos até a morte de menores em seus alojamentos.

Uma investigação feita pela agência de notícias Associated Press nos centros de correção juvenis dos EUA confirmou mais de 13.000 demandas de abusos físicos e sexuais por parte dos servidores, entre 2004 e 2007. Pelo menos cinco jovens morreram por “técnicas agressivas de alojamento”.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Uma receita de Prêmio Nobel



É hora de gastar o dinheiro público

“Está politicamente na moda se queixar contra os gastos do governo e exigir responsabilidade fiscal. Mas, no momento maiores gastos do governo é exatamente o que o médico recomenda, e as preocupações com o déficit orçamentário devem esperar”. Quem afirma é o mais novo Prêmio Nobel de Economia, Paul Krugman, colunista de The New York Times.

Segundo Krugman, “enquanto o mercado de ações maníaco-depressivo domina as manchetes, a história mais importante é a grave notícia sobre a economia real”. Para ele, o resgate aos bancos é apenas o começo: a economia não financeira também está precisando desesperadamente de ajuda.

O cenário do Nobel é o despencar das vendas no varejo e da produção industrial nos EUA, onde o nível de desemprego já aponta para uma recessão que será feia, brutal e longa. Seu temor é que se esteja a buscar soluções apenas superficiais como as que substituíram a recessão produzida pelo estouro da bolha da tecnologia do final dos anos 90 pela fatídica bolha imobiliária destes tempos.

A tese de Krugman parece incomodar nossos habituais economistas tupiniquins, apressados em identificar os sinais da crise que ainda não chegou. Que já chegou para aquelas empresas que, aconselhados por banqueiros/especuladores internacionais, embarcaram na loteria do dólar futuro.

E por que a tese incomoda? Porque ela é a antítese da surrada e patética catilinária dos editoriais dos nossos principais jornais. Nossos “especialistas” condenam os “gastos do governo”, que é como vêem os investimentos públicos. Gastar dinheiro público tem sido a vitamina da nossa economia interna, um dos fundamentos contra os efeitos da crise. Uma receita de Prêmio Nobel.


As 25 notícias mais censuradas

Vi o mundo, blog do jornalista Luiz Carlos Azenha, publicou o ranking anual das 25 notícias mais ocultadas pela grande imprensa dos EUA e do mundo em 2007/2008. São informações do Projeto Censurado da Universidade Sonoma State da Califórnia, reunidas no livro Censored 2009.

O livro reúne valiosos trabalhos acadêmicos sobre o jornalismo atual, como a concentração da propriedade dos meios de comunicação, a manipulação da informação e a liberdade de expressão nos EUA e no mundo. E informa sobre a luta pela democratização dos meios informativos.

O genocídio no Iraque, com 1,2 milhões de civis mortos pelas tropas dos EUA, desde que começou a invasão há cinco anos, é o tema que encabeça o ranking do projeto. A América Latina está presente em vários trabalhos que apontam para o ressurgimento das guerras sujas dos EUA que ameaçam as democracias da região. São esforços para resgatar a forte influência do passado.

Também consta do livro o funcionamento da Academia Internacional de Aplicação do Direito (ILEA), cuja sede no Peru ensina a torturar, a matar e demais matérias da mal-afamada Escola das Américas. E o ressurgimento da IV Frota que objetiva atemorizar os paises latino-americanos não alinhados ao expansionismo de Washington.

O documento também revela as inquietudes frente ao avanço das idéias progressistas na América Latina a partir da iminente vitória da esquerda em El Salvador. Mostra como a nova legislação migratória impõe o regime de semi-escravidão ao trabalhador hóspede. E divulga levantamentos que classifica o governo da Colômbia como líder mundial de assassinatos de sindicalistas.

Pressões da sociedade têm influências sobre a tragédia de Santo André

Convidado pelo Jornal Hoje, da Rede Globo, nesta segunda-feira, para debater questões levantadas pela trágica história de Eloá e Lindemberg, o psiquiatra e psicanalista Raul Gorayeb, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, contrariou visivelmente as expectativas da emissora. Um balde de água fria no clima de euforia com que a notícia vinha sendo tratada.

Perguntado se os diálogos gravados pela polícia revelam algum desvio de personalidade do jovem, o médico preferiu questionar o modo pelo qual a sociedade atual forma os jovens. Ela exige que eles aprendam a TER a qualquer custo, não importa o preço que se pague. Ele é instigado a não aceitar falhas, perdas, insucessos, e reagir às vezes de forma bombástica quando as coisas não vão bem.

“Onde ficou, no nosso processo educacional, o lugar para que as pessoas aceitem que a vida também é feita de insucessos e problemas? Eu não o coloco como vítima, mas todos nós somos frutos de uma sociedade, na medida em que somos por ela educados”, completa Gorayeb.

À pergunta do Jornal Hoje se 12 anos não é muito cedo para começar um namoro o psiquiatra diz não haver fórmulas. E que somos nós, a sociedade, que empurramos os jovens para uma maturidade precoce, para a atividade sexual, como se, sem isso, a pessoa não pudesse entrar no circulo das pessoas importantes. Para ele, a relação com alguém mais velho pode indicar dificuldade pessoal.

Sobre o papel dos pais no processo, Gorayeb relembra uma tragédia histórica e artística, a história de Romeu e Julieta, para afirmar que a influência dos pais pode ser boa, mas também pode ser catastrófica. Para a Rede Globo é melhor transformar a catástrofe em espetáculo fantástico.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

A linha do Equador

Túnel liga o Equador à estação de Pinheiros

Sobram razões ao governo do Equador para lastimar a reação do governo brasileiro na questão entre aquele país e a Odebrecht. O governo Lula, cada vez mais obsequioso com as pressões da mídia nacional, assume a defesa dos interesses de uma empresa que, ultimamente agindo em bando, tem sido protagonista de algumas lambanças e tragédias, no Brasil e no exterior.

Em resposta à expulsão da construtora Odebrecht do país andino, o governo brasileiro decidiu adiar compromissos diplomáticos com Quito. Ao nosso governo e à nossa mídia pouco interessa clarear as irregularidades cometidas pela empresa brasileira, aliada à mundialmente mal-afamada francesa Alstom, na construção de uma usina hidrelétrica que teve de ser fechada após um ano de uso.

As providenciais e firmes atitudes do governo do Equador, que inclui o combate a uma farta e usual distribuição de propinas pelas empresas envolvidas, conflitam com a passividade com que a mídia nacional e o governo de São Paulo vêm tratando as lambanças e tragédias dessas mesmas empresas.

A obra da linha 4-Amarela, tocada pelo bando de empresas que inclui as mesmas Odebrecht e a mundialmente mal-afamada francesa Alstom, desde maio de 2007 já danificou e/ou afundou mais de 300 casas no bairro de Butantã. Em janeiro de 2007, uma obra do mesmo bando na futura estação Pinheiros, também na zona oeste, cedeu. Matou sete pessoas e engoliu alguns veículos.

O consórcio de empresas atribuiu a tragédia a "surpresas" geológicas. O Instituto de Pesquisas Tecnológicas, por outro lado, deu como causa o descumprimento de parte do projeto pelas empreiteiras. Como no Equador, exceto pela complacência de Estado e Mídia.

Para deixar as coisas como estão

Presidente da mais alta corte do país, chefe de um dos três poderes da República, o ministro Gilmar Mendes confessa ser sócio de empresa que mantém contratos sem licitação com diversos órgãos do governo federal. Sua empresa foi aquinhoada com cerca de 2,4 milhões desde o ano de 2000. Mais: o ministro comprou por vias transversas terrenos de 2 milhões de reais por um quinto do valor.

A divulgação dessas práticas nada republicanas do ministro foi por feita pela revista Carta Capital e entendida por ele como uma “pistolagem jornalística”, que “não condiz com o Estado de Direito e de liberdade”. Interessante notar como a mídia prontamente repercutiu esta avaliação de Gilmar, embora não tenha demonstrado o menor interesse em repercutir as revelações da Carta Capital.

À mídia interessa divulgar Gilmar apenas quando se trata de alardear uma não comprovada gravação telefônica do ministro, cujo interesse é reforçar sua estranha tese sobre uma pretensa crise de governabilidade no país. Uma paranóia extemporânea e suspeita.

Sobre a prática empresarial de Gilmar, vale lembrar que em idênticas circunstâncias, salvo pelo cumprimento dos preceitos licitatórios legais, o filho do presidente Lula quase foi crucificado pela mídia nacional. Reação incomparável com a do silencioso socorro feito com dinheiro público ao banco Nacional, dos Magalhães Pinto, unidos por laços familiares a um dos filhos de FHC.

A suspeita cumplicidade entre mídia, Gilmar e cardeais oposicionistas tenta forjar um clima de “estado policialesco”. No real, uma provável cortina de fumaça a tentar encobrir fatos adversos ao corporativismo de poder, como diz o jornalista Mino Carta, “para deixar as coisas como estão”.

O novo livro de Leandro Fortes

Um livro ousado onde o jornalista baiano, carioca e, desde 1990, brasiliense, Leandro Fortes, não diz como a profissão de jornalista deveria ser. Isso já é dito nos principais textos adotados nas escolas de jornalismo. Leandro mostra a profissão como ela é. E não esconde as regras obscuras dentro das redações nem os chefes sem escrúpulos, subservientes e sem caráter.

O jornalista, formado pela Universidade Federal da Bahia e pela vida de foca nas ruas de Salvador, revela neste “Os segredos das redações: o que os jornalistas só descobrem no dia-a-dia” como o jornalismo, uma profissão apaixonante e corajosa, cheia de boas conseqüências para a sociedade, consegue congregar tantas “alminhas pequenas abertas ao suborno e ao achaque”.

Os bastidores de uma das profissões mais romantizadas do planeta, o jornalismo, seus segredos e mitos, são revelados neste livro. É uma leitura essencial para os estudantes de jornalismo, para jornalistas recém-formados e profissionais das redações.

Professor de jornalismo no Instituto de Educação Superior de Brasília, Iesb, Leandro é autor de Jornalismo investigativo e co-autor de O Brasil no contexto. Em linguagem simples e objetiva, seu novo trabalho, editado pela Editora Contexto, contém 110 páginas de segredos da vida nos jornais.

Em Brasília, Leandro atuou no Correio Braziliense, e nas sucursais de O Estado de S Paulo, Zero Hora, Jornal do Brasil, O Globo, revista Época e TV Globo. Também foi chefe da Agência Brasil e da Radiobrás. É um dos fundadores e dirigentes da Escola Livre de Jornalismo, em Brasília. Também é repórter da sucursal brasiliense de revista Carta Capital.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Rua do Bom Jesus, da Cruz, dos Mercadores


Os agiotas da rua do Bom Jesus

Até poucas décadas atrás, a rua do Bom Jesus, de frenético movimento dos comerciantes do atacado pernambucano, era mais conhecida como a rua da Putas. É que, no cenário noturno, o frenesi da rua era protagonizado por uma outra fauna bem definida: de um lado, maloqueiros, golpistas, jogadores, ladrões e agiotas e, do outro lado, estudantes de mesada parca e comerciários sonhadores. Os primeiros, em busca de negócios escusos, de dinheiro fácil. Todos, a procura de um aconchego carnal. Centenas de prostitutas faziam ponto nos andares de cima dos sobrados históricos, de arquitetura eclética e aparência festiva.

A rua já tivera outras denominações: da Cruz, dos Mercadores. Mas, ficaram firmadas no consciente coletivo da cidade suas denominações mais populares: rua da Putas e rua dos Judeus. Ali, a maioria dos comerciantes era de judeus, cuja presença histórica está fincada em um dos edifícios da rua, construído sobre os alicerces da primeira sinagoga erigida no Novo Mundo. Os pernambucanos aprenderam a questionar se houve benefício na expulsão dos holandeses. Como conseqüência, os judeus, expulsos daquela rua e do Brasil, fundaram Nova Amsterdã. A nova povoação foi depois capturada pelos ingleses e rebatizada com o nome de Nova Iorque.

A ligação quase umbilical das ilhas de Manhattan e do Recife antigo, permite ao inconsciente do antigo adolescente pernambucano uma incontornável analogia entre a rua do Bom Jesus e a rua que se tornou o centro mundial do capitalismo moderno: Wall Street. A rua dos negócios dos papéis, das mercadorias, da especulação, da cobiça sem limite e sem regras. Atividades eticamente comparáveis às dos maloqueiros da rua das Putas, da agiotagem e do jogo de fazer dinheiro fácil.


The brazilian bad-boys of Wall Street

Diariamente, ouve-se no Bom-dia, Brasil! muita coisa sobre a crise gerada pelos especuladores de Wall Street e sobre seus desdobramentos no mundo e no Brasil. Mas, deve-se precaver com a leitura das entrelinhas e a interpretação daquilo que mais se assemelha uma torcida contra o Brasil, como parece mostrar os textos matutinos da Rede Globo de Televisão.

Tudo sob o aval da esperta Míriam Leitão ou de um ou outro “especialista” na área, quase sempre os mesmos. Colonizados e submissos, não fazem nenhuma avaliação crítica marcante sobre o banditismo financeiro que gerou a atual crise.

Preferem fazer coro com manjados executivos das finanças, os especuladores locais, a alardear sobre a chegada da crise ao Brasil e sobre as medidas que o governo deveria tomar. Consideram sempre “insuficientes” ou “atrasadas”. Mesmo conscientes de que o pânico na bolsa de São Paulo decorre da debandada do capital especulativo, que saiu a tapar buracos financeiros em suas origens.

Mesmo sabendo que o Brasil está preparado com reservas para enfrentar os dias difíceis que se anunciam. Diferentemente de outras épocas, recentes, em que a economia do Brasil sofria interferência do FMI e era movida pelo aumento da dívida com credores internacionais.

Hoje, além de uma confortável reserva em dólares, o Brasil tem, como avalia a economista Maria da Conceição Tavares, “algumas vantagens para enfrentar a crise, entre elas a existência de três fortes bancos estatais e algumas empresas públicas de peso, salvas das privatizações desfechadas pelo governo FHC. Isso dá ao governo instrumentos para intervir no mercado”.


Como funciona o “livre” mercado

Debra Anderson administra uma agência imobiliária em sua cidade natal de McCloud, um pequeno vilarejo turístico situado nos contrafortes do majestoso monte Shasta, no norte da Califórnia. Hoje, Debra dedica seu tempo e sua energia para lutar contra o grupo Nestlé.

Em 2003, Debra ficou sabendo de uma reunião de informação do conselho do distrito sobre um projeto de construção, pela Nestlé, de um complexo industrial que captará a água do rio McCloud na sua fonte. O recurso será engarrafado e comercializado pela multinacional.

"Os funcionários da Nestlé nos apresentaram um projeto enorme, eu pensava que aquela era uma simples reunião preliminar". Não era: no dia seguinte, a cidade se depara com a informação de que, logo depois do encerramento da reunião, o conselho assinou sem mais nem menos o contrato proposto pela Nestlé. Chocada diante desta precipitação, Debra obteve uma cópia do documento.

"A Nestlé havia conseguido obter condições inacreditáveis: não seria realizado nenhum estudo prévio de impacto ambiental; tratava-se de um contrato exclusivo de cem anos, pelo qual a companhia teria o direito de bombear até 4.700 litros de água por minuto - inclusive em detrimento dos habitantes durante os períodos de seca -; o preço de compra da área de captação era irrisório”.

O acordo dava à Nestlé o direito de demolir por completo a antiga usina da cidade onde existe um projeto de transformação destas construções numa zona de atividades alternativas. . . "Em troca, a Nestlé se comprometia a criar 240 empregos, e a pagar diversas taxas e impostos”. A multinacional acabaria ainda se beneficiando de reduções de encargos fiscais. Leia mais em Le Monde.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Normalidade constitucional em risco?

Riscos à normalidade constitucional?

Segundo o jornalista Mino Carta, uma pretensa ameaça de crise institucional surgiu, deflagrada pela discussão da Lei da Anistia seguida da operação Satiagraha. A tese foi logo desfraldada pela oposição parlamentar e pela mídia, com a conspícua contribuição do presidente do STF, ministro Gilmar Mendes, e do ministro da Defesa, Nelson Jobim.

A oposição parece fadada a tentar tirar leite de pedras, por não ter mais com que bater no governo. A fragilidade das armas com que bate em Lula somente faz com que ele cresça, cada vez mais. Daí, idéia de impeachment agradar tanto a tucanos e Demos.

A mídia brasileira a cada dia perde o rumo. Escasseia sua credibilidade pelo excesso de comportamento irresponsável no campo do jornalismo “denuncista”. Foi-se pelo ralo sua função histórica de formadora de opinião ou de representante da opinião pública.

O caso do ministro da Defesa, Nelson Jobim é mais uma questão de caráter. Ele foi flagrado em mentira sobre os falsos grampos da Abim, para favorecer a “crise da grampolândia”. Para Wálter Maierovitch, em Carta Capital, o ministro Jobim tem pautado suas ações pelo oportunismo político, sem compromisso social nem ético.

O caráter também não é o forte do comportamento nada republicano do ministro Gilmar Mendes, que vem tentando turbinar a tese da crise institucional. Vale lembrar o que previu Dalmo Dallari sobre a ida de Gilmar para o STF: “(correm) sério risco a proteção dos direitos no Brasil, o combate à corrupção e a normalidade constitucional”.


Interesses do agro-negócio no coração da floresta.

“Um dos cenários ficcionais divulgados, para ocultar ou disfarçar os interesses dominantes, consiste em afirmar ameaçada a soberania brasileira, em particular na fronteira com a Venezuela”. Quem diz é o jurista Walter Ceneviva, na Folha de S Paulo de 13/9. O foco é a discussão no STF sobre a terra indígena Raposa Serra do Sol, para ele “marcada por forte viés econômico”.

Ceneviva demonstra como nenhuma das diversas formas de soberania previstas na Carta Magna, como na competência para manter relações com Estados estrangeiros e com organizações internacionais, estaria ameaçada pela situação criada pelas demarcações das terras dos indígenas.

Do outro lado, a Carta Magna garante aos índios a preservação de sua organização social nas terras tradicionalmente ocupadas por eles em caráter permanente: "utilizadas para suas atividades produtivas, imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários a suas reprodução física e cultural, segundo seus usos, costumes e tradições", diz a Constituição.

Surpreende, por inoportuna, beirando a paranóia, a posição do deputado Aldo Rebelo em rotular as diferentes manifestações das índias Joênia e Elielva como de escancarada natureza fratricida. Transforma-se em mais “uma fantasia maliciosa para fingir que existe um problema”, como expôs no mês passado, na Folha, o jurista Dalmo Dallari. Um lamentável equívoco do deputado.

O apelo fácil desse discurso falsamente nacionalista e a veemente condenação à política indigenista, como dizia Cavalcanti-Schiel em Le Monde Diplomatique, reforça uma teia de interesses econômicos, sobretudo fundiários, na região. Faz coro com os grileiros que desmatam a região.


A diplomacia abutre

José Miguel Vivanco, diretor da Human Rights Watch (HRW), foi expulso da Venezuela após a divulgação, dia 18/9, de um relatório que acusa o governo de debilitar as instituições democráticas e as garantias aos direitos humanos nos 10 anos de gestão de Hugo Chávez. O documento da HRW foi divulgado uma semana após a expulsão do embaixador dos Estados Unidos na Venezuela.

O ministro das Relações Exteriores da Venezuela, Nicolas Maduro, disse que Vivanco violou a Constituição venezuelana ao "interferir ilegalmente nos assuntos internos" do seu país. Co-autor do relatório, o estadunidense Daniel Wilkinson também foi expulso.

A notícia da expulsão tomou conta da mídia internacional como um rastilho de pólvora. A mídia brasileira que já desaprovara a expulsão do embaixador dos EUA na Bolívia (“um grande negociador”, para a Globo) por articulações com os separatistas oposicionistas, agora tecia grandes elogios à HRW “a mais respeitada ONG de direitos humanos dos Estados Unidos”.

Nenhum jornal ou TV disse, porém, que o principal dos expulsos, o chileno José Miguel Vivanco, diretor da HRW, que tem sede em Nova Iorque, foi representante da ditadura Pinochet ante a Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Ao renascer a democracia em seu país, mudou-se para Washington e passou a atuar em organizações que atendem à política do governo dos EUA.

As atividades de Vivanco e da HRW estão sempre relacionadas com episódios que violentam a democracia e os interesses nacionais dos povos latino-americanos. A ONG foi criada em 1978, tempos de relações promíscuas de Washington com as ditaduras latino-americanas.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

O Americano Tranqüilo

Sabe por que não tem golpe de estado nos EUA?

“Porque lá não tem embaixada dos Estados Unidos”, perguntava e logo respondia o espirituoso Joel da Silveira. Sobre o assunto, é recomendável rever o filme de Philip Noyce “O Americano Tranqüilo”, belíssima adaptação do romance de Grahan Green. Melhor ainda: ler o livro.

Num resumo chulo da belíssima história de amor, diríamos que o sedutor estadunidense, diante de “nossa” eterna cumplicidade e submissão, apodera-se do coração da “nossa” linda amante. E ainda planta a semente do golpe que transferirá da França para os EUA o comando da força de ocupação no Vietnã. Mas, somente depois da vitória dos heróis Ho Chi Minh e Vo Giap sobre os franceses.

O presidente Lula esteve recentemente com Giap, na cidade de Ho Chi Minh (ex-Saigon), a maior do Vietnã. A visita ao herói nonagenário, que colocou primeiro a França e depois os Estados Unidos com o rabo entre as pernas, talvez tenha despertado em nosso presidente a lembrança de que não é de hoje que as embaixadas estadunidenses patrocinam essas visitas de “americanos tranqüilos”.

A referência é feita ao senhor embaixador Philip Goldberg, flagrado em articulações separatistas junto às lideranças fascistas de departamentos autonomistas na Bolívia. Elas vêm espalhando o terror e o ódio contra o estado de direito democrático do estado boliviano. Entre os atos de terrorismo, o assassinato racista de “índios sujos”, saque a prédios públicos e sabotagens de gasodutos.

O senhor Goldberg, sabe-se, é hoje o protótipo do americano tranqüilo de Grahan Green. Como embaixador dos EUA na Ex-Iugoslávia, orquestrou a crise separatista que resultou na independência unilateral do Kosovo, ainda não reconhecida por muitos.

Embaraços de um presidente

Pelo telefone, o candidato à presidência dos EUA, Barack Obama, disse ao presidente colombiano Álvaro Uribe que, se for eleito, não vai apoiar a ratificação do Tratado de Livre Comércio (TLC) entre Colômbia e EUA. “Até que Bogotá consiga reduzir a violência contra sindicalistas”.

A informação do Correio Braziliense deste sábado, 19/09, contraria a ansiedade de Uribe que há dois anos sofre com a paralisação do acordo assinado entre ele e o presidente Bush. "Temos esperança de que a qualquer momento o Congresso dos EUA aprove o acordo", disse Uribe.

Os sindicatos de trabalhadores estadunidenses pressionam e o Congresso dos EUA recusa ratificar o pacto comercial, segundo a agência Reuters, porque que “a Colômbia deve fazer mais para reduzir os assassinatos e outros tipos de violência contra sindicalistas”.

Em abril deste ano, segundo Eltiempo.Com, Obama já considerava “um atropelo” a pretensão de Uribe: “Ridicularizaria as mesmas proteções laborais que temos insistido se incluam nesse tipo de acordos”. Dados do próprio governo colombiano revelam que 265 sindicalistas foram mortos em um ano. Em 2007 foram mortos 26 líderes sindicais. Quase dois mil vivem sob proteção legal.

Na semana passada, na Bélgica, o Tribunal Internacional de Opinião condenou o governo da Colômbia por violação aos direitos humanos, por expulsar milhares de camponeses de suas terras, e por prática de genocídio, seqüestro e assassinato de lideranças populares. De outro lado, a Alta Corte Ocidental (Western High Court), com sede em Copenhague, recusou provas procedentes do judiciário colombiano. Por entender que foram obtidas mediante violência e tortura.

Informações para uma agenda brasileira positiva

Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgada ontem (22/9) indica que 13,8 milhões de brasileiros subiram de faixa social entre 2001 e 2007. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad). Para Ricardo Amorim, do Ipea, "o que mais chamou a atenção foi a movimentação de pessoas do nível mais baixo para estratos mais elevados... superou o crescimento da economia... mobilidade social que não se via desde os anos 80". Leia mais

Na edição da semana passada, a revista britânica The Economist destacou o crescimento da classe média no Brasil, que hoje ultrapassa metade da população. "O Brasil, antes notório por seus extremos, é agora um país de classe média", diz a reportagem, que cita dados da Fundação Getulio Vargas. "Esta escalada social é vista, principalmente, nos centros urbanos do país, revertendo duas décadas de estagnação econômica iniciada nos anos 80." Leia mais

A descoberta de petróleo na camada pré-sal pela Petrobras reforçou a necessidade de o Brasil melhorar a defesa de sua costa. O ministério da Defesa negocia com a França a construção de um submarino nuclear, e na semana passada as Forças Armadas iniciaram a chamada Operação Atlântico para mostrar a capacidade que o país tem de proteger a região onde estão os mega-campos do pré-sal. A Quarta Frota naval dos Estados Unidos começa a bisbilhotar. Leia mais

A Petrobras foi parcialmente vendida nos anos 90, no governo FHC, em meio a uma onda de privatizações na América Latina, que vivia uma crise econômica. Para o presidente Lula, foi um erro se desfazer do patrimônio público em momentos em que o Brasil tinha problemas de balanço de pagamentos: "Em uma crise, não se deve vender nada porque vai vender mais barato”. Leia mais

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Calcinhas brasileiras em Nova Iorque

Calcinhas brasileiras no The New York Times

Para escapar de sua existência precária em uma das regiões mais pobres do Brasil, Maria Benedita Sousa fez uso de um pequeno empréstimo há cinco anos para comprar máquinas de costura e iniciar seu próprio negócio. Hoje, ela emprega 25 pessoas em uma fábrica modesta, que produz 55 mil conjuntos de roupas íntimas por mês. A reportagem é do The New York Times. Leia mais

Brasil encerra safra 2007/2008 de grãos com volume recorde. São 143,8 milhões de toneladas, número 9% superior ao da safra anterior e o maior já registrado. O volume final recorde da safra vem em um momento em que os preços internacionais atingiram picos recentes. Leia mais

Exército tira transposição do Rio São Francisco do papel. A igrejinha branca e azul em Cabrobó (PE), onde o bispo Luiz Flávio Cappio, em 2005, fez a primeira greve de fome contra a transposição do Rio São Francisco, está fechada. Na região, não há mais manifestações contrárias à obra, e os tratores de esteira e as escavadeiras do Exército rasgam o sertão em ritmo acelerado. Leia mais

Pobreza diminui, número de ricos aumenta e classe média cresce, afirmam estudos do Ipea e da FGVD. Dois estudos divulgados no mês passado mostram mudanças nas classes sociais brasileiras. Redução de um terço no número de pobres. A classe média atinge mais de 50%. Leia mais

Emprego na indústria tem melhor semestre da história. A geração de emprego na indústria brasileira cresceu 2,7% no primeiro semestre de 2008 – a maior expansão da série histórica do IBGE. Nos confrontos mais amplos, os resultados de junho foram claramente positivos, com 6,7% de avanço frente ao mesmo mês de 2007 e 6,5% no acumulado do ano. Leia mais

Reviravolta conveniente

O jornalista Mair Pena Neto, no blog Direto da Redação, relembra uma operação da Polícia Federal (PF) deflagrada em julho que levou à prisão três figuras notórias, que já haviam freqüentado o noticiário policial: o banqueiro Daniel Dantas, o mega-investidor Naji Nahas e o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta. “Será que alguém se lembra?” pergunta Pena Neto.

Pra ele, de lá para cá, o eixo da discussão mudou. Ninguém mais fala dos crimes de lavagem de dinheiro, gestão fraudulenta, evasão de divisas, formação de quadrilha e tráfico de influência de que os três foram acusados. Libertados pela celeridade surpreendente (temerária?) do Supremo Tribunal Federal (STF) de Gilmar Mendes, todos continuam suas atividades, fora do noticiário.

Segundo Pena Neto, o interesse de grande parte da mídia e da oposição, que curiosamente costumam andar juntas, está agora no “grampo” de que teria sido vítima o próprio presidente do STF. O réu passou a ser a Agência Brasileira de Inteligência, e por conseqüência o governo.

Seja como for, a mudança do foco político e midiático, trouxe a voz equilibrada do diretor da PF, Luiz Fernando Corrêa, a lembrar que "grampos" são autorizados pela Justiça. Eles somente denunciam a “nata da malandragem”, como diria Chico Buarque. Por isso, a chiadeira geral.

Vã lucidez de Corrêa. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) acaba de anular provas de gravações autorizadas e livrar dois foragidos empresários, envolvidos no caso Banestado dos tempos tucanos. E ninguém mais se lembra dos emissários de Daniel Dantas tentando subornar um delegado da PF com um milhão de dólares. Nem a mídia, nem a bancada parlamentar de Dantas, nem o STF.

Presidentes rechaçam golpe

Desde 2002, estamos diante de um novo tipo de comportamento da comunidade de nações latino-americanas. Naquele ano, a pronta resposta dos seus representantes, reunidos em assembléia da Organização dos Estados Americanos (OEA), rechaçou o golpe midiático e militar que, com apoio de Washington, retirou Hugo Chávez do poder por 48 horas.
Nesta segunda-feira, os presidentes das nações que constituem a União de Nações Sul-Americanas (Unasul), reunidos na capital chilena, deram uma forte e unânime declaração de apoio ao governo do presidente Evo Morales e rechaçaram qualquer tentativa de golpe da oposição na Bolívia.

Na declaração, a Unasul "adverte que seus respectivos governos rechaçam energicamente e não reconhecerão qualquer situação que implique uma tentativa de golpe civil, de ruptura da ordem institucional ou que comprometa a integridade territorial da República da Bolívia".

A Unasul também condenou os ataques a instalações do governo na Bolívia e um massacre no departamento de Pando, em que morreram partidários do governo. E criou uma comissão, aberta a todos os seus membros, para acompanhar as conversações a serem conduzidas pelo legítimo governo da Bolívia com seus opositores.

A característica do novo perfil de comportamento dos países da Nossa América é sua autonomia em relação a Washington. A participação dos EUA traria um enorme contra-senso ao debate em face de sua mal disfarçada participação nos preparativos desses eventos não democráticos. O Império tenta recuperar, por vias oblíquas, a hegemonia que sucumbiu a um novo perfil de soberania.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

A República no colo do banqueiro


Operação salva dantas

"É um momento triste na história da República: ele mostra que Dantas conseguiu uma ampla influência no Judiciário, em três partidos políticos e em grande parte da mídia". É o que afirma o jornalista Luis Nassif, em entrevista à IHU On-Line. Para ele, recente matéria bombástica da revista Veja ofereceu forte munição de apoio ao banqueiro Daniel Dantas, dono do Opportunity.

A Veja da semana passada denunciou, sem provas, um suposto esquema de escutas que visariam tanto o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) como integrantes do palácio do Planalto. A suspeita provocou imediata reunião do presidente Lula com o ministro Gilmar Mendes, presidente do STF, e a suspensão de parte da direção da Agência Brasileira de Inteligência (Abin).

Para Nassif, trata-se de uma mal-disfarçada operação para livrar Dantas do processo que lhe movem a Polícia Federal o Ministério Público, por formação de quadrilha e delitos afins. Os objetivos da operação seriam a Abin e o delegado Paulo Lacerda, justamente os atores mais atuantes contra o banqueiro. No lugar de Lacerda, foi nomeado Wilson Trezza, um ex-subordinado ao Opportunity.

O jornalista destaca que há outro aspecto a ser levado em conta: a Operação Satiagraha foi muito abrangente. Ela entrou no seio da corrupção brasileira e desnudou pesados esquemas com envolvimento de magistrados, políticos e empresas jornalísticas.

Segundo Nassif, a estratégia jurídica do dono do Opportunity consiste em tentar comprovar que Paulo Lacerda havia interferido na Operação Satiagraha para poder anular o inquérito. Para ele, outro cacife de Dantas é a obcecada defesa assumida pelo ministro Gilmar Mendes.


Gilmar dá sempre um jeitinho

Para Fernando de Barros e Silva, na Folha de S Paulo de 1º de setembro, nem todos têm a OPPORTUNITY, como Gilmar Mendes, de ter uma conversa ilegalmente revelada, onde o conteúdo é conveniente para os dois grampeados. “É a primeira vez”, diz.

Diversos blogs políticos vêm divulgando um diálogo público em que o ministro Joaquim Barbosa flagra o seu colega Gilmar em constrangedor e habitual jeitinho. Foi esse mesmo talento para o jeitinho que rendeu ao atual presidente, como dizia o jurista Dalmo Dallari, o passaporte para o STF. Eram, então, anos tucanos.

Segundo Dalmo, Gilmar costumava "inventar" soluções jurídicas no interesse do governo FHC. Por isso, “não há exagero em afirmar que estarão correndo sério risco a proteção dos direitos no Brasil, o combate à corrupção e a normalidade constitucional”. Premonição? Para Nassif, Gilmar é obcecado na defesa do banqueiro Daniel Dantas.

Já no Supremo, o ministro causou grande polêmica com procuradores da República quando defendia seus ex-colegas de governo FHC, como o ex-ministro Raul Jungmann e outros, processados por lesão ao patrimônio público e à probidade administrativa.

Há poucos dias, membros do Ministério Público Federal e procuradores da República reafirmaram que “as instituições democráticas foram frontalmente atingidas pelas decisões liminares proferidas, em tempo recorde, pelo presidente do STF”. Eram liminares para soltar o famigerado banqueiro, dono do Opportunity. E do Brasil?



No jornal argentino Página/12 deste sábado, o jornalista venezuelano Modesto Emilio Guerreiro analisou o contexto político da precoce movimentação conspirativa contra a o presidente paraguaio Fernando Lugo. Para o jornalista, o fato desnuda uma realidade dos novos dos tempos: “os donos do poder estão ansiosos, já não suportam tanto governo independente no hemisfério”.

Ele relembra que a primeira conspiração contra Hugo Chávez esperou por três anos do seu mandato, iniciado em março de 1999. Já os presidentes Evo Morales e Rafael Correa, cujos mandatos começaram em 2006 e 2007, respectivamente, tiveram uma “carência” de cerca de nove meses para colher suas conspirações. Ao sacerdote terceiro-mundista Lugo deram apenas três semanas.

Segundo Emilio, trata-se de uma ação dinâmica e complexa bem articulada “onde as conspirações militares são apenas parte de um cardápio que inclui sinuosas manipulações diplomáticas, pressões financeiras, ofertas de investimentos, pactos semi-secretos de tratados de livre comércio (TLC) e tudo o que possa conduzir a um re-ordenamento de poder no hemisfério”.

Emilio explica que o grau de fragilidade do Estado, no Paraguai, resulta em parte da ausência de um poderoso movimento social e político organizado. Com isso, o protagonismo mafioso plantado nas estruturas políticas, militares e sociais do país vem desafiando o novo governo desde o primeiro dia.

A velha oligarquia teme as transformações que começam a avançar na América Latina, no direito social à posse da terra, na recuperação dos recursos naturais pátrios e no crescente movimento de independência em relação aos EUA. E uma “insuportável” tendência a uma integração regional.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Democracia acossada

No jornal argentino Página/12 deste sábado, o jornalista venezuelano Modesto Emilio Guerreiro analisou o contexto político da precoce movimentação conspirativa contra a o presidente paraguaio Fernando Lugo. Para o jornalista, o fato desnuda uma realidade dos novos dos tempos: “os donos do poder estão ansiosos, já não suportam tanto governo independente no hemisfério”.

Ele relembra que a primeira conspiração contra Hugo Chávez esperou por três anos do seu mandato, iniciado em março de 1999. Já os presidentes Evo Morales e Rafael Correa, cujos mandatos começaram em 2006 e 2007, respectivamente, tiveram uma “carência” de cerca de nove meses para colher suas conspirações. Ao sacerdote terceiro-mundista Lugo deram apenas três semanas.

Segundo Emilio, trata-se de uma ação dinâmica e complexa bem articulada “onde as conspirações militares são apenas parte de um cardápio que inclui sinuosas manipulações diplomáticas, pressões financeiras, ofertas de investimentos, pactos semi-secretos de tratados de livre comércio (TLC) e tudo o que possa conduzir a um re-ordenamento de poder no hemisfério”.

Emilio explica que o grau de fragilidade do Estado, no Paraguai, resulta em parte da ausência de um poderoso movimento social e político organizado. Com isso, o protagonismo mafioso plantado nas estruturas políticas, militares e sociais do país vem desafiando o novo governo desde o primeiro dia.

A velha oligarquia teme as transformações que começam a avançar na América Latina, no direito social à posse da terra, na recuperação dos recursos naturais pátrios e no crescente movimento de independência em relação aos EUA. E uma “insuportável” tendência a uma integração regional.

E não é exclusiva do conluio mafioso paraguaio a oposição a essa nova postura. Há um outro componente daquele cardápio de que falou Modesto Emilio. Trata-se de uma não declarada aliança entre a grande mídia e os setores políticos conservadores vinculados a antigos interesses.

Na Venezuela, em 2002, chegaram a retirar Hugo Chávez do poder por 48 horas. Na Bolívia, aliaram-se aos governadores separatistas e às agencias NED e Usaid, dos EUA e tentam, a todo custo, desestabilizar o governo de Evo Morales. Na Argentina, cuidam de enfraquecer Cristina Kirchner. No Brasil, uma carga permanente contra o Mercosul. E contra o governo Lula.

Agora, esse movimento conspirativo anda mais alvoroçado. É que o recém-empossado presidente do Paraguai prometeu retomar para o Estado um total de oito milhões de hectares, para depois dividi-los entre as cerca de 300 mil famílias que clamam por reforma agrária. Trata-se de terras do Estado que foram doadas pelo ex-eterno ditador Alfredo Stroessner aos seus amigos.

Há, ainda, a ansiedade dos ruralistas brasileiros, os maiores produtores de soja do vizinho país. Os movimentos sociais pedem a desapropriação das suas terras, sob alegação de que a prática do cultivo é feita de forma indiscriminada, com danos ambientais e sociais. Mais: grande parte dessas terras está em fronteiras internacionais, o que contraria as normas de segurança de qualquer país.

Nesse cenário, a oposição paraguaia cuida de sabotar os primeiros passos do novo governo que destronou a velha oligarquia encastelada nos mais de 60 anos de poder do Partido Colorado. Tenta-se esvaziar os recursos estatais para despojar de governabilidade o futuro do país.

O Manifesto